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Emma Ruth Rundle - Understage – Teatro Rivoli, Porto [21Abr2017] Texto + Fotos

27 de Abril, 2017 ReportagensSara Dias

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Teatro Rivoli

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“De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja a minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória”

 

A morte de uma perspetiva religiosa e mistificada no sentido bíblico é um topos recorrente e transversal nos projetos encabeçados por Emma Ruth Rundle: não será por acaso que em Marriages encontramos “Salome” - centrada na figura bíblica, - referências a um Deus em faixas como “Oh Sarah” (“Did you go to God again to change your name?”) ou “Hand of God” (“I am a desperate love, always am needing it / I wish the Hand of God would come / And relieve me of this way).  Com uma nítida evolução lírica entre o segundo álbum Some Heavy Ocean e o mais recente trabalho Marked for Death, diria-se que Emma Ruth Rundle chegou a Portugal na altura certa.

Depois do cancelamento inesperado, na edição de 2015 do Amplifest, a Amplificasom juntou-se ao Understage para proporcionar a prometida e tão aguardada estreia de Emma Ruth Rundle em terras lusitanas – que esgotou aproximadamente uma semana antes da noite do concerto, feito inédito que apanhou de surpresa os mais desatentos. O Understage é um espaço único, não só pela sua arquitetura (ou falta dela), mas também pelos profissionais que o gerem: é quase impossível não reparar na qualidade excecional do som e da iluminação proporcionados a cada evento que passa. Com um ligeiro atraso e sem banda, Emma Ruth Rundle ocupou timidamente o seu lugar no centro do palco, num oceano de palmas e de rostos ansiosos como os de quem aguarda “o regresso de um homem que um dia partiu além-mar”.

A abordagem a Some Heavy Ocean e a Marked for Death seria inegavelmente mais completa com a presença de banda, especialmente no que toca à percussão. Ainda assim, a capacidade vocal e a emoção embutida na voz Emma conseguiu preencher todos os espaços vazios do instrumental. Munida de apenas uma guitarra acústica e de uma elétrica, nas quais tocou somente um punhado de acordes e um punhado de pedais a acompanhar, Emma conquistou o público com uma atuação mais competente no espectro emocional do que em termos técnicos.

 

“Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja todos aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.”

 

Ainda assim, o set foi memorável, acima de tudo pela entrega incondicional de Emma Ruth Rundle às suas letras e ao reviver das emoções que elas retratam, mesmo ali, à nossa frente. E talvez seja por isto que a passagem por alguns temas de Marked for Death tenha sido alguns dos pontos altos desta noite - pela sua carga emocional, pelos temas abordados, pelas memórias individuais e potencialmente coletivas que carregam. “Marked for Death”, faixa que empresta o título ao álbum, está impregnada que perguntas agonizantes que nos assombram o fim de uma relação: “Who else would take your place and hold and keep me safe? Who else would ever stay?”. Já em Hand of God procura-se uma escapatória quasi-divina ao desespero: “I am a desperate love, always am needing it / I wish the Hand of God would come / And relieve me of this way”.

No entanto, é em “Real Big Sky”, faixa que encerrou a noite, que Emma revela todo o seu potencial lírico: “And you sing to me, you say / I don’t want to be awake when it takes me / I can’t wait to see you smile on the other side / I can’t wait to kiss the face of the big sky / Won’t you stay here for a while with me / My child.”. Este foi, sem dúvida, o culminar de concerto que se revelou demasiado curto, apenas com uma duração aproximada de 35 minutos, sem encore ainda que todos na sala tenham esperado o regresso de Rundle ao palco para nos brindar com mais algumas das suas canções.

Em entrevista ao The Independent, Emma afirmou: “There is intentionally nothing to hide behind here, but at the same time I’m terrified of revealing myself. The subject matter is largely about being defeated and shrunken into the base human themes of love and loss. It’s a far cry from high art. It’s very much from the dirt”. E é dentro da lógica desta afirmação que a magia experimentada no Understage acaba por residir - vemos o artista a tocar e a remexer nas feridas do passado em pleno palco e a doer tanto em nós, no nosso próprio corpo e na nossa memória frágil e traumatizada, como na própria Emma.

 

Fonte das citações: "O Bebedor Nocturno - poemas mudados para português" de Herberto Helder.

 

por
em Reportagens
fotografia Bruno Pereira

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