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Festival Para Gente Sentada 2017, Braga [17-18Nov] Texto + Fotos

26 de Novembro, 2017 ReportagensJoão Rocha

O Festival para Gente Sentada regressou uma vez mais à cidade dos Arcebispos para colocar um ponto final no ano de 2017 no que toca a eventos do géneros no norte do país. Não se tratou de um acto meramente simbólico, mas de um último showcase da melhor música que se fez por aí este ano..

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Festival Para Gente Sentada

Graveyard - Centro Cultural de Viana do Castelo [26Nov2017] Foto-reportagem

The Picturebooks - Sabotage Club, Lisboa [16Nov2017] Foto-reportagem

Ao primeiro dia, a cidade voltou a ser presenteada com um concerto na rua para toda a sua população, desta vez com uma banda da casa. Os Máquina Del Amor, juntam em si os Peixe:Avião e os Smix Smox Smux, e com o seu rock tentaram elevar as temperaturas que se faziam bem gélidas em Braga.

Mais aconchegado esteve David Santos, que é como quem diz Noiserv. Em cima do palco do maravilhoso Theatro Circo, e frente a um ecrã que projectava a vista aérea do que nele acontecia, partilhou connosco a forma como brinca com os instrumentos e cria o seu som devaneador e ingénuo. É certo que assistir ao processo pode causar alguma ânsia - basta um pequeno erro para toda a música se estragar -, e mesmo com o Lisboeta a mostrar-se acessível e comunicativo com o público, o concerto manteve-se comedido até ao seu final, terminando abruptamente com o músico a saltar fora da sua plataforma de trabalho.

Sem encore, não demorou muito a que a atração principal da noite de 17 de Novembro aparecesse para alegria de todos. Pouco passava das onze da noite, quando, e perante uma sala totalmente repleta -facto que não se voltaria a repetir-, Mike Hadreas e companhia entram em cena. Com um aclamado novo trabalho na bagagem, No Shape, Perfume Genius abre as odes com a abertura do mesmo, e é com “Otherside” que dita o ritmo do resto da noite. Vestindo um invejável fato dourado sobre uma cabeada e meias brancas, que conjugava com um sapato de sapateado preto brilhante, o artista deslizava pelo palco como um esquilo, como ele próprio afirmara. No entanto, para quem o via, as semelhanças aparentavam mais um formoso pavão, que encontrava na sua fragilidade, uma estranha pujança e sensualidade como já não víamos há muito tempo. Genuinamente exuberante, mantinha a sua dança de acasalamento com o público ao som de músicas como “Fool” e “Wreath”, que interpretou sucessivamente, intercalando-a com o seu lado mais íntimo e amável - como se algo nele não o fosse -, em momentos como quando interpretou uma canção de embalar para o seu sobrinho. Um hino de liberdade, igualdade, e de como devemos ajudar as crianças a ver, e consequentemente, a criar uma nova sociedade mais tolerante, bandeiras que o artista personifica. Em “Body’s in Trouble” - cover de Mary Margaret O’Hara” - regressa à explosão de lascividade, e entre movimentos provocantes começa a despir-se para delírio da assistência, atingindo a utopia da sensualidade mais tarde ao som de “Die 4 You”. Durante todo o concerto, o público declarou o seu amor pelo americano, através de entusiasmadas palmas, e/ou gritos de aclamação e bajulação. Mike mostrava-se grato e feliz, e para terminar em grande, explode o Theatro Circo com “Slip Away”.

O louvor faz-se de pé - outro facto que não se viria a repetir - e assim, sem escapatória possível, mesmo com as típicas limitações de tempo do Festival para Gente Sentada, há encore de Perfume Genius, uma outra situação que não se viria a repetir no Gente Sentada. Hadreas, sozinho ao piano, interpreta mais duas músicas, sendo uma delas uma cover de “Kangaroo” dos Big Star, até a ele juntar-se o seu teclista e também namorado Alan Wyffels. Assim,  a quatro mãos, interpretaram “Learning” até todo o resto da trupe juntar-se a eles para nos entregarem o amado hit “Queen”. A euforia era visível entre todos que baloiçavam e cantavam nas suas cadeiras, para logo de seguida voltarem a levantar-se para coroar Perfume Genius pela performance que havia dado. Assim, é no último festival deste ano que fomos encontrar um dos melhores concertos que Portugal viu este ano.

A festa continuou no gnration, mas infelizmente voltou a perder gás, o que, sejamos sinceros, não tinha outra forma de ser depois do concerto que havíamos assistido. Os First Breath After Coma continuam a ser uma das melhores bandas que temos a acontecer em Portugal, no entanto as suas viagens sonoras do Post-Rock começam a desgastar-se com o cansaço e a repetição, tanto que os próprios assumem que já estão fartos de contar sempre a mesma lenga-lenga das baleias. Seguiram-se os Holy Nothing, que começaram o seu concerto envoltos num manto místico de nevoeiro. No entanto, nem o mistério, nem a sua electrónica efervescente foram suficientes para agarrar o público, que ora desertava para casa, ora fugia para o djset que estava a acontecer no piso de baixo. Mas sobre este, falaremos no dia seguinte.


Perfume Genius e Holy Nothing


O segundo dia do Festival para Gente Sentada ocorreu no Sábado, dia 18 de Novembro, e depois do concerto maravilhoso na noite anterior de Perfume Genius, o público já estava desejosos por mais.

O Theatro Circo abriu assim as suas portas com o que prometia ser um boom de energia, mas que no final se tornou uma das coisas mais enfadonhas que vimos este ano: Capitão Fausto. Domingos, Francisco, Manuel, Salvador e Tomás desde o início que estão habituados a ser levados ao colo pela imprensa nacional, que prontamente os apelidou dos Tame Impala de Portugal, no entanto, estes cada vez mais se aproximam de serem os Tame Impala do Canal Panda. Independentemente das opiniões, o que se passou em Braga foi um dos exercícios de maior egocentrismo que há memória. Desde logo o conceito, que os apresentava quase como se fossem um nome incontornável da música. O semi-concerto, semi-exibição cinematográfica, total falta de noção, intercalava partes do documentário Pontas Soltas de Ricardo Oliveira, onde é retratado as gravações de Capitão Fausto Têm os Dias Contados, com interpretações de músicas do mesmo álbum. Não nos cabe a nós comentar a qualidade do documentário, mas o concebido simplesmente não funcionou para ninguém: o público, bem mais adulto do que os Lisboetas estão acostumados, não reagiu, e a banda aparentava amorfo por todo o lado. Geralmente associamos os Capitão Fausto a diversão e energia, mas tudo aquilo foi simplesmente aborrecido, sendo o único elemento de irreverência o fato branco à gringo americano que vai de férias a Cuba que Tomás Wallenstein envergava (uma analogia a um vestido de noiva poderia implicar uma sensação de algo positivo. Não era o caso.)

No entanto o vergonha alheia que sentimos pela banda Portuguesa não parou aqui: Depois de todo aquele aparato, sobe ao palco Julien Baker. Apenas uma guitarra e um teclado, sem aparato, vestida de forma super casual, como quem vai ali ao lado comprar pão para o pequeno-almoço, e uma presença e magia que encantou todo o Theatro Circo. Miudinha, e com um ar tímido, ninguém consegue adivinhar pelo olhar o imenso poderio da sua voz, que se encontra cada vez mais no ponto. Entre o álbum de estreia de 2015, e este Turn Out the Lights a evolução é notória, e ao vivo, a cantora americana consegue provar que é uma das poucas artistas que consegue transformar meras experiências do quotidiano em algo deliciosamente poético. A abertura fez-se ao som de “Appointments” e durante uma hora ficamos presos na teia de intimismo que fora criada naquela sala. Envergonhada para uns, encantadora para outros, conseguiu criar um elo com quem a assistia, e entre risinhos e palavras, em cabisbaixo lá ia conversando e brincando com a assistência. Alguém muito sortudo recebeu uma dica para um possível date com a artista. Logo de seguida atira-se para “Everybody Does” e o ecoar das suas palavras enche cada canto do espaço, e cada nervo sensorial do nosso corpo. É a alimentar-nos a alma e o coração que passa para as teclas em “Televangelist” e a magia continua a acontecer. Alguém na assistência gritara por “Something” e Baker prometeu que eventualmente a iria tocar, algo que foi deixado mesmo para o final, o derradeiro cavaco na fogueira de emoções de onde todos fazíamos parte. Assim finalizava mais um maravilhoso concerto, que acabara de uma forma, que para nós soou demasiado abrupta naquela atmosfera de calma que se havia instaurado.

No entanto, a noite pedia algo mais mexido e energético, e só depois do doce melodramatismo de Luís Severo, já no GNRation, é que podemos, aliás, fomos forçados a mexer o nosso corpo. Moullinex tem novo trabalho, e com Ghettoven a fazer de cicerone, Hypersex ganhou vida - a extravagância com que dançava, cantava, fazia lip sync e sincronizava o seu corpo com a batida electro-disco era hipnotizante - e colocou todo o público apinhado na BlackBox a dançar freneticamente. A festa continuou depois num djset tropical, entre o MPB e uma temporada de “Narcos”. A surpreender pelas selecções mirabolantes que iam de Meridian Brothers a Elza Soares, confraternizações foram feitas nos passos de dança incessantes, que culminaram e terminaram num canto colectivo ao som dos dois maiores sucessos de Nelson Ned.

Depois de dois dias, custou deixar Braga, e só podemos esperar para o próximo ano para ver e viver um outro tipo de festa única que só o Festival para Gente Sentada sabe proporcionar.

Capitão Fausto, Julien Baker e Moullinex


Nota: este autor usa o Antigo Acordo Ortográfico.
por
em Reportagens
fotografia Inês Leal

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