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Guns N’ Roses – Passeio Marítimo de Algés, Lisboa [02Jun2016]

Fotografia cedida pela promotora Eveything is New

 

Num dia de revivalismo, o Passeio Marítimo de Algés encheu-se de bandanas vermelhas e muito entusiasmo para receber os Guns N’ Roses de volta a Portugal. Sendo um dia fértil em saudosismo, as comparações com o passado são inevitáveis. À memória vêm imediatamente as bandas de abertura de há 25 anos atrás, Faith No More e Soundgarden, bandas incendiárias (e na altura jovens) com vontade de catapultar os ânimos do público para o que viria a seguir. Não foi coincidência no fim dessa noite muita gente ter apontado a atuação de Faith No More como ainda mais intensa e devastadora que a dos próprios Guns N’ Roses. Nesse sentido, a questão era o porquê de a escolha desta vez ter caído em Mark Lanegan, uma lenda com vasta carreira e um registo muito mais calmo. Tal como seria de esperar, o desinteresse do público foi notório, não aproveitando a dádiva que é poder ouvir temas de Screaming Trees ao vivo, para além dos seus registos próprios. A voz quente e embaladora funciona na perfeição numa sala mais pequena e intimista, com um público que se deixe afagar, tarefa quase impossível neste fim de tarde em Algés. Mark Lanegan tem demasiada classe para tanta t-shirt da H&M.

Seria a intenção guardar o apetite para a destruição todo para a banda principal da noite? A verdade é que o início do concerto rapidamente demonstrou que Mark Lanegan não estava assim tão deslocado, tendo sido uma boa antevisão do que viria. Uma hora depois de “It’s So Easy” iniciar as hostes, a intensidade não era muito maior que no concerto anterior de Lanegan, exceptuando a natural selva de telemóveis no ar em “Welcome to the Jungle” e os primeiros e tímidos saltos em “Live and Let Die”, cover dos Wings. A energia não estava a fluir entre banda e público, fazendo parecer que entre palco e plateia se encontrava uma barreira invisível. Da atitude da banda, porém, nada a apontar, sempre muito energéticos e oleados, em que profissionalismo e competência foram bandeira.

Talvez a verdadeira reunião de Guns N’ Roses não seja mesmo para este tempo de vida, uma vez que a este alinhamento faltam ainda Izzy Stradlin e Steven Adler, guitarrista e baterista presentes na criação de Appetite for Destruction. No entanto, o mais difícil foi conseguido, juntar os dois maiores egos, Axl Rose e Slash, feito suficiente para a maioria dos fãs e para se vender esta digressão como oportunidade única. As estes dois juntou-se também Duff McKagan, que acabou por ser um dos focos de maior destaque na noite ventosa de Lisboa. Não estando na sombra dos outros dois, mas de uma maior discrição, o baixista apresentou-se de forma divinal e funcionou como um autêntico maestro. Teve também o seu tempo de protagonismo quando conduziu o momento punk da noite, ao liderar a interpretação de “New Rose” dos The Damned. O tema surgiu imediatamente após “Rocket Queen” e “You Could Be Mine”, culminando da melhor forma a sequência mais frenética da noite. Duff envergava uma t-shirt com o rosto de Lemmy estampado e tinha também o logo de Prince bem visível no seu baixo, fazendo assim questão de ter sempre presente a memória destes enormes vultos. Com a Space Needle de Seattle como fundo, Chris Cornell foi também homenageado com uma interpretação de “Black Hole Sun”, um momento de grande peso emocional.

© Katarina Benzova

Axl e Slash demonstraram sempre uma enorme humildade, nunca se atropelando um ao outro na busca de protagonismo. Tiveram também, naturalmente, direito ao seu momento de consagração. Após “Coma”, a banda deixou Slash a sós com o público e este demonstrou o porquê de ser considerados um dos melhores guitarristas de sempre. O seu solo passou por riffs de “Speak Softly Love”, tema d’O Padrinho – já com bateria de Frank Ferrer a ajudar – e culminou nos primeiros acordes de “Sweet Child O’ Mine”, para gáudio geral. Depois de uma versão instrumental de “Wish You Were Here” dos Pink Floyd, em jeito de guitar battle entre Slash e o seu novo colega Richard Fortus, um piano de cauda subiu na frente de palco e era tempo de Axl mostrar os seu dotes nas teclas. Imediatamente se reconheceram as notas iniciais de “November Rain”, tema interpretado de forma sublime pelo carismático vocalista. A sua voz já não é a mesma, e tal também não seria de esperar, mas, no entanto, poderá ter surpreendido muitos daqueles que não estiveram presentes no concerto de AC/DC no ano anterior.

Já no encore, a então sim apoteótica “Paradise City” põe fim ao concerto, com confetis e fogo de artifício a coroar 2h45min nonstop de uma verdadeira história do Rock n’ Roll. Pena é que a esmagadora maioria daquele público que saiu de casa para celebrar o Rock n’ Roll só se lembre de o fazer uma vez por ano, não tendo abertura nem curiosidade para conhecer e descobrir propostas atuais. O verdadeiro Rock está disponível quase todos os dias na Cave 45, no Sabotage Club, no RCA, no Sonic Blast… em inúmeros espaços por este país fora. Não ficou estanque no passado nem está resumido a um grande evento anual, ao contrário do que muitos possam pensar, está bem vivo e de boa saúde, para todos aqueles que o queiram viver e experienciar na sua forma mais pura.

Apesar disso, todas as quase 60 mil pessoas presentes no Passeio Marítimo de Algés foram privilegiadas em terem tido a oportunidade de, numa tão efémera vida, testemunhar um momento tão grandioso como improvável. Saímos do recinto com esperança de que este exemplo dê o toque a outros monstros da música, de maneira a darem uma oportunidade histórica a gerações mais recentes. Senhor Jimmy Page, Senhor Gilmour, como é?

 

© Katarina Benzova

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Por Bruno Pereira / 6 Junho, 2017

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