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Indie Music Fest 2015 – Dia 2 [4Set2015] Texto + Fotos

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Na Sexta-feira o ambiente andava carrancudo entre os festivaleiros, com a luz e água a falharem, e as casas de banho por lavar. Numa edição de crescimento, a organização não foi capaz de fazer os upgrades necessários para receber mais gente, e portanto os problemas iam aparecendo, e pior, notando-se. Com o ambiente assim, valeu-lhes o cartaz que conseguia animar e distrair o festivaleiro menos resistente ao banho não tomado.

Com duas horas de atraso, os Baixo Soldado foram a jogada perfeita para arrebitar as coisas. Rockzinho com sabor a ska e alegria a sair-lhe dos poros, pediram que se partisse tudo, e as primeiras filas não se fizeram rogadas. Mais atrás, onde havia espaços mais amplos, dava-se asas para experimentar os passos de dança mais originais e em todo o recinto a alegria tomava conta. O Indie marca pela jovialidade, do festival, das bandas e do seu público, muitos deles a terem ali a sua primeira experiência festivaleira ora a assistir ora em palco. Portanto, bandas não se acanhavam de pedir mosh, e o público dizia que nem era preciso pedir.

A dominar o fim do concerto dos Baixo Soldado, quando os primeiros acordes dos The Black Zebra se fazem ouvir a maior parte corre de um mosh para o outro. Música a rasgar, fazem entoar a ordem do dia “É p’ra partir tudo!”. Através da citação descrevemos o concerto, que acaba em glória com uma versão hardcore do genérico de Inspector Gadjet. Pela primeira vez no Indie pedia-se verdadeiramente um encore, mas devido aos atrasos a organização não deixou e pediam à banda para sair do palco, coisa que não devia ter sido feito descaradamente em frente ao público.

Mais tarde, no mesmo palco (o Cisma) os Electric Reeds não teriam tanta sorte. Tocaram pela hora do jantar, e o recinto encontrava-se com pouca gente. Mereciam muito mais público, não tivesse sido dos concertos mais competentes que vimos. Sem adereços somos transportados de forma intimista para um bar de blues rock onde a certa altura somos presenteados com uma das melhores versões live que ouvimos da mítica “Whole Lotta Love” dos Led Zeppelin. Nem o senhor das bifanas conseguiu esconder a emoção e a certa altura solta um sonoro: “Granda música cara*ho”.

Sexta-feira foi também dia de inauguração do Palco Principal (#IMF), e tal ficou a cargo de Taipa+The Blackbirds. Serviu o propósito, ajudando a animar o ambiente. É de louvar que se inicie o palco principal de um festival que celebra a música portuguesa, com uma banda que canta em português. Ainda bem que o faz, pois quando decidiram fazer a sua versão do hit (enjoativo) de Verão “Happy”, instalou-se um sentimento de vergonha alheia entre nós e quem nos rodeava.

Mais delicados e relaxados foram os Los Black Jews, que com uma sonoridade muito inspirada no surf-rock mantiveram o ambiente quente e agradável conquistando adoradores entre as pessoas que esperavam para o concerto dos Capitães da Areia. Todos de branco, “desceram” ao palco que nem três Nossas Senhoras a aparecerem a um pastorinho, anunciando a boa nova pop que aí vem. Atiram logo com “Arco das Portas do Mar” e percebemos logo que lá na frente um grupo de fãs da banda marcava presença. Estávamos perto deles, e cantaram do início ao fim do concerto, sem se enganarem numa única palavra. Mas não foram os únicos a cantar, os momentos catchy colavam facilmente no público e portanto em “A Partida para o Espaço” não demorou a que tudo o recinto fizesse de “Quero pão com marmelada” um hino.

Rendidos à formula futurística de sonhar um sonho pop passado, todos embarcaram numa viagem pelo espaço sob a chancela daqueles capitães. Caída de uma qualquer nave espacial, uma sandes de marmelada aterra mesmo em palco, e esta viria a ser estrela no fim do concerto. Mas até lá muito raquete guitar seria feito. “Moça-Emoção” transforma o #IMF numa gigante pista de dança nas mãos de Pedro de Tróia. O seu jeito sarcástico, e as suas melhores calças brancas, faziam parte da fórmula que conquistava passo a passo todo o público. Apresentava a banda. Eram os “Banda do Mar” e na bateria estava Mallu Magalhães.

Foi no meio de tanta aleatoriedade que percebíamos que aquele estava a ser um dos melhores concertos do Indie Music Fest, certamente o mais divertido. “Menina Bonita do Cinema” e “Beijos Espaciais” fizeram parte dos momentos altos do concerto, mas algo faz entrar o público em êxtase. Invoca-se Bruno Aleixo, percebe-se que vem brincadeira e acontece o único momento não-português (língua nenhuma) do concerto. A verdade é que aquela forçada tentativa de música a soar internacional, soou melhor que muito do que já tínhamos ouvido no resto do festival.

O público delira, e como não há uma letra fidedigna, trauteia-se alegremente o ritmo da música. Abrem-se as sandes de marmelada, e enquanto trepa os alicerces do palco, Pedro saboreia a tradicional iguaria, e regala-se com um público rendido. Se a atitude é sempre egocêntrica, uma visão daquelas justifica-o certamente. Atira-se para cima do público, nada entre ele. “Baltar 10, Lisboa 0”! Aprenderam com os melhores a dizer estas coisas, brincavam, mas para nós, os Capitães já estão entre os melhores, e já têm o que ensinar. Despediam-se, iam caçar alces, pedia-se encore, mas ele não aconteceu e não vimos a nossa vontade de ouvir essa obra-prima pop da música nacional que é “No Tempo das Sereias”.

A partir daqui o palco principal só receberia excelentes concertos, a comprovar a excelente qualidade da música nacional. Numa noite que foi gelada, os Brass Wire Orchestra foram a fonte de calor perfeita. Devido ao seu número alargado de elementos em palco, tiveram alguns problemas técnicos em começar o concerto, mas a partir do momento em que ele começou, o deleite foi total. Folk que soa a um misto de Mumford & Sons com Beirut mas com uma pitada certa de identidade nacional. Se em “Tears of Liberty” já conseguiam fazer toda a gente cantar intuitivamente, atingiram o auge a interpretar “Breezeblocks” dos Alt-J, possivelmente o momento alto de todo o festival.

Seguiram-se os Modernos, que, assim como os Bispo, também saídos dos Capitão Fausto. Invejavelmente embriagados, foram aquela injeção de energia que todos estávamos a precisar. Levam obviamente para casa o momento mais explosivo do dia com “Casa a arder” a gerar um barulhento terramoto em Baltar. De facto, todo o dia 5 foi uma prova de resiliência ao público, que antes tinha tido direito a Stoner com os Astrodome no palco Cismas. Sugeridos por nós na nossa antevisão do Indie, não desiludiram quem os foi ver. Durante o concerto circulamos o recinto para observar o público, e constatamos o mais bem sincronizado headbanging desta edição. A certa altura um gentil invasor sobe ao palco e começa a fazer uma pitoresca dança a fugir para o medieval, mas com toda a gente a abanar a cabeça ninguém reparou nele. Devia ter guardado a dança para o último concerto do dia, também ele pitoresco.

Aliando música pop com sapateado, os Les Crazy Coconuts surpreenderam com músicas como “Belong”. Os atrasos fizeram com que o concerto decorresse a altas horas da noite, e apesar da dedicação que entregaram ao público, o cansaço fazia-se notar, da parte deles, como do público que já tinha gasto todo o seu chakra. Era tempo de voltar para o acampamento e recuperar energias. Acampamento onde acontecem os verdadeiros afters, acampamento onde bastou uma guitarra para colocar toda a gente a cantar a “Chaga” por volta das cinco da manhã.

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Por João Rocha / 15 Setembro, 2015

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