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Iron & Wine @ Casa da Música – Porto [2Nov2015] Texto + Fotos

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Para mim não passas ainda de um rapazinho muito parecido com cem mil rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti sou apenas uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, teremos necessidade um do outro. Para mim serás único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

 
Existem dois segredos. O segredo de Sam Beam reside na delicadeza e serenidade das suas melodias e do seu timbre, estes quase puros e infantis, diria mesmo imaculados. Mas, se sem atentarmos ao que estamos a ouvir ficar-nos-íamos por aqui, quando mergulhamos a fundo em Iron & Wine, encontramos uma profunda nostalgia uma tristeza outonal enquanto vemos as folhas castanhas de tons dourados a dançar ao som do vento, quando vemos os dias a ficarem cada vez mais pequenos. Não foi por acaso que Beam trouxe duas guitarras, uma para as “sad songs” e outra para as “happy songs”; Iron & Wine descreve-se numa palavra: agridoce.

Com uma mão cheia de álbuns e mais alguns EP, lançamentos exclusivos pela internet e singles, Iron & Wine chegou (finalmente!) a Portugal pela mão do Misty Fest. Esta “festa” como é referida no site oficial, privilegia “atualidade musical, o novo, mas também o mesmo convite aos músicos para apresentação de espetáculos de carácter inédito ou único”. Este concerto de Iron & Wine, como primeiras datas em Portugal – no Porto na Casa da Música e em Lisboa no Tivoli), teve sem dúvida um carácter único e inédito.

É difícil não ligar Beam ao imaginário do Sul dos Estados Unidos da América: cresceu na Carolina do Sul, ainda que tenha crescido num subúrbio – como afirma em entrevista à Pitchfork – visitava o avô que era agricultor e tinha uma quinta. Morou aproximadamente uma década no Texas, perto de um deserto que poderia ser perfeitamente aquele em que o narrador avistou o “principezinho”, no clássico de literatura infantil de Antoine de Saint-Exupéry (que aquando a escrita deste livro se encontrava exilado dos EUA) – Trans-Peco. O americano chega-nos apenas munido de duas guitarras, um copo de vinho, boa disposição, e quase uma vintena de faixas para saciar a sede de todos aqueles que esperavam este momento há anos.

A setlist de Iron & Wine, para além de improvisada, abordou quase todos os seus trabalhos: especialmente Kiss Each Other Clean de 2011 com “Big Burned Hand”, “Me and Lazarus”, “Rabbit Will Run” e “Tree by the River”; Our Endless Numbered Days de 2004 “Fever Dream”, “Naked As We Came” e “Passing Afternoon”; e The Shepherd’s Dog de 2007 com “Boy With a Coin”, “Flightless Bird, American Mouth” e “Resurrection Fern”. Para além destas, os presentes foram brindados com uma cover de The Postal Service, com “Such Great Heights”.

Segunda-feira à noite foi, sem dúvida, memorável. Um contador de histórias, uma guitarra, uma plateia calada e atenta, até várias vezes elogiada pelo americano – uma sala cheia de corações cheios, e como havia dois segredos, fica o último pelo cunho do francês Saint-Exupéry:

Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se pode ver bem como o coração. O essencial é invisível aos olhos.

 

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Por Sara Dias / 5 Novembro, 2015

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