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Mad Cool Festival 2018 [12-14Jul]

21 de Julho, 2018 ReportagensMariana Vasconcelos

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Nos passados dias 12, 13 e 14 de julho realizou-se em Madrid a terceira edição do festival Mad Cool, a primeira no novo recinto, com um total de sete palcos preparados para receber diariamente 80 mil espectadores, que durante três dias assistiriam àquele que foi considerado um cartaz histórico em toda a Europa com nomes como Pearl Jam, Nine Inch Nails, Arctic Monkeys, Queens of the Stone Age, Depeche Mode, Jack White, Tame Impala, Justice, etc. A lista continua como um gigante buffet de bandas que fariam qualquer festivaleiro desejar ser capaz da arte da multiplicação. Verdade seja dita, este cartaz é onde começa e termina o que há de bom no Mad Cool, mas isso vem mais à frente.

Na chegada a Madrid duas coisas são certas: o calor é intenso e a confusão dos festivaleiros sobre como chegar ao recinto do festival usando a rede de metro também. Por todo o lado se ouve a mágica expressão “Feria de Madrid” e no olhar de todos há uma crescente expectativa sobre o que se passará mais tarde. Aproveita-se o tempo até lá para turismo e rever o percurso da noite - 10 minutos deste concerto, 15 daquele, o outro ouve-se no caminho até ao palco principal - e quando é hora de ir para o recinto basta seguir o enorme êxodo de pulseiras laranja e latas de Mahou. O entusiasmo era mais forte do que nunca mas resfria-se após a passagem pela segurança do recinto. O percurso entre esta e a entrada do festival quase perfaz um quilómetro ao sol e quem tem de trocar a pulseira aguarda durante horas a fio numa fila de pessoas incrédulas para com a falta de staff.

Após a exaustiva caminhada o impacto da dimensão do recinto é como ver um oásis num deserto. Tudo é enorme, brilhante, há relva e ventoinhas gigantes e aproveita-se para ganhar avanço a quem pára para tirar selfies para chegar até ao concerto de Toundra. A banda espanhola deu as boas vindas com o seu poderoso rock instrumental e, detentores de uma energia e intensidade admiráveis, ressuscitaram o público. Algo que logo contrastou com a falta de ânimo dos norte-americanos Fleet Foxes que pareciam perdidos no enorme palco Mad Cool e com inicial dificuldade em criar ligação com o público, que só se alterou com a chegada dos temas como "White Winter Hymnal" ou "Ragged Wood". A intimidade da sua música parece mais adequada a salas fechadas do que a mega-festivais, locais onde por defeito faz falta este elemento intimo e humano. Este ultimo é especialmente raro no festival em forma de staff já que também o ato de obter bebidas nos gigantescos bares se revelou um jogo de paciência e de gritar o pedido mais alto que o single que tocava no palco mais próximo. No final, acabava-se com meia hora perdida e um copo a mais, mas tudo bem, porque a seguir tocava Leon Bridges. O cantor de soul norte- americano deslumbrou uma plateia de corações abertos para temas como "Beyond", "Coming Home" e o emocionante "River", mas sem descorar o lado mais alegre do soul com passos de dança e a presença em palco que seria esperável de um artista bem mais experiente. Leon Bridges traz ao soul uma lufada de ar fresco e uma leveza que o torna acessível sem perder a essência.

Toundra by selectormarx photography

A noite estava lançada e no palco Madrid te Abraza os australianos Tame Impala davam os primeiros acordes após cerca de um ano longe dos palcos. E este era um palco muito característico, já que a todo o seu comprimento se erguiam as grades de uma gigantesca área VIP, praticamente vazia, deixando o restante público a ver o concerto de binóculos. Este facto não passou ao lado nem do vocalista Kevin Parker, que pediu pela abertura da área VIP apelando aos corações da organização, nem ao próprio público que, revoltado, se amontoou junto das entradas até que estas foram finalmente abertas. A partir daí o concerto aqueceu e com já tão conhecidos temas como “Elephant” e “The Less I Know The Better”, a banda mostrou uma energia e conexão com o público fora do habitual. A paragem fez-lhes bem, mas prometeram não a voltar a fazer.

Rapidamente se aproximava o concerto mais esperado da noite e foi com os primeiros acordes de “Release" que se iniciaram 2 horas de um espetáculo tão perfeito quanto se espera dos experientes Pearl Jam. Por todo o recinto parecia ter-se instalado um respeitoso silêncio para escutar (nem que fosse bem de longe) a voz quente e rouca de Eddie Vedder a viajar por temas como “Even Flow”, “Jeremy” e um encore invulgarmente longo que culminou no tema “Rockin’ in the Free World” de Neil Young. A multidão que seguiu a banda norte-americana permitiu que outros palcos permanecessem mais desafogados, como foi o caso do Radio Station e do concerto de Washed Out, uma performance de electrónica leve que serviu de banda sonora para todos os que aproveitavam as curtas filas para jantar e para aquecer o corpo para Justice, cujos fãs lentamente enchiam a enorme tenda do palco Loop. Como seria de esperar o concerto da dupla francesa teve uma força e intensidade inigualável e mostram que sabem como ninguém criar uma atmosfera completa em torno de si mesmos e fazer do palco um objeto criativo em si, seja pelos jogos de luzes ou pela interatividade de todos os elementos.

Tame Impala by Andres Iglesias

A falta de organização do festival culminou na geral confusão daqueles que tentaram voltar ao centro de Madrid e se viram perante apenas uma linha de metro funcional (a informação era ambígua o suficiente para se supor que toda a rede estaria aberta) e uma sucessão de autocarros não gratuitos. Este primeiro dia deixava assim algumas certezas. Primeiro que o recinto era incrivelmente pequeno para tanta gente, aproximando-se de uma situação potencialmente perigosa agravada pelo facto de a rede de internet e telemóvel ser praticamente inexistente ao ponto de terminais de multibanco deixarem de funcionar e de surgirem relatos atrás de relatos de pessoas que se viram separadas dos seus grupos, incapazes de os contactar. Segundo, que a organização do festival era tudo menos organizada. Houve pouco staff e fraca capacidade de informar os festivaleiros sobre as mais variadas questões. Terceiro, que o fator lucro ultrapassa o fator música e que isso se reflete das anormais dimensões e disposições das áreas VIP. Por último, que tudo isto é equilibrado por aquilo que as bandas oferecem: concertos memoráveis.

No segundo dia de festival, muitos dos fatores menos bons já descritos abatem-se sobre os festivaleiros e o entusiasmo inicial era agora substituído por alguma desilusão (ou talvez fosse dos 36 graus de temperatura). Ao longo do cansativo percurso até ao recinto ecoa o folk de The White Buffalo e este transforma-se numa jornada pelo faroeste. A voz quente do talentoso compositor californiano embala os recém chegados e de repente todos se lembram que... pelo menos ainda há musica. Foi precisamente isso que os At The Drive In cumpriram. Com mais uma zona VIP rompida, Cedric Bixler-Zavala mostrou a sua contagiante energia e presença de palco (felizmente durante mais de 30 minutos) naquele que foi um dos, senão o mais poderoso concerto do dia. Esta energia continuou no palco Radio Station com o surpreendente concerto de Jain que transformou a plateia numa enorme pista de dança com os seus ritmos leves e exóticos.

At The Drive In by Andres Iglesias

Seguiu-se-lhes o inconfundível Jack White que recebeu o público com “Black Math" e viajou entre temas de The White Stripes, The Racounters e até de The Dead Weather, além de temas do próprio como “Connected by Love” ou “Lazaretto”. Jack White mostra uma mestria musical invejável na forma como mistura o rock e os blues, criando a sua própria identidade que acima de tudo tem pujança. A mesma que colocou todos os que já esperavam pelos Arctic Monkeys a saltar ao som de “Seven Nation Army”.

Parecia que não podia melhorar mas a crescente multidão em frente ao palco Mad Cool e a palpável expectativa pela chegada de Arctic Monkeys anunciava o contrário. Aos primeiros acordes de “Four Out of Five”, o palco principal explodia para receber a banda britânica. O novo álbum Tranquility Base Hotel & Casino, um disco que mostra uma nova maturidade do grupo, teve alguns temas interpretados aqui ao vivo mas com um público menos participativo, em comparação com hits de AM ou temas como “I Bet You Look Good on the Dancefloor” ou a emocional “Cornerstone”.  Talvez seja a prova de que este precisa de ser digerido e não apenas decorado. No final, os Arctic Monkeys partiam cedo demais e ficava a vontade de um concerto mais longo.

Depois de um concerto emocional e nostálgico e de um dia intenso, o público inundava o Loop para ouvir os tão aguardados Massive Attack, mas o segundo dia do festival não acabaria sem controvérsia. Após uma longa espera sem que o concerto começasse, muitos foram os que desistiram e abandonaram o recinto num desanimo coletivo. Só mais tarde através, das redes sociais, foi confirmado o cancelamento desse concerto devido ao efetivo incomodo que o som do concerto simultâneo de Franz Ferdinand estaria a causar. Este foi um dos pontos mais baixos a nível de gestão do festival, tanto pela errada organização das bandas, como pela ausência de um aviso oficial presencial do cancelamento - teria demorado menos que escrever um post. E diga-se, a rede no recinto também não ajudava a que as pessoas se tentassem atualizar.

Arctic Monkeys by Andres Iglesias

O último dia começou lento, com concertos menos entusiasmastes e um recinto mais vazio, talvez pelo calor ou pela exaustão generalizada. No palco Loop, Cora Novoa puxava por quem chegava e no palco Radio Station, Hurray for the Riff Raff falava mal de Donald Trump. Por outro lado, no palco Mad Cool já se esperava por Queens of the Stone Age - a menção honrosa vai para os que assistiram a Rag n’ Bone Man para guardarem lugar perto do palco.

Foi com o cair do dia e ao som do tema principal do filme “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick que Josh Homme entrou em palco, anunciando a subtil “ultra-violence" que traria com ele. A gigante e compactada multidão pulsava de entusiasmo e aos primeiros acordes de “If I Had a Tail” o caos abateu-se. A cada salto ou movimento todos eram arrastados e por mais intenso que o calor e a falta de espaço fossem, havia sempre forma de abrir múltiplos moshes, sempre incentivados pelo vocalista. Chovia água, álcool, copos, chapéus e tudo mais que estivesse à mão. De facto se o novo álbum e se a apresentação mais polida da banda trouxe criticas essas foram infundadas neste concerto. Os Queens of the Stone Age apresentaram-se com a força e insolência que se esperava e Josh Homme protagonizou o melhor momento do festival quando interrompeu o tema “No One Knowns” para se dirigir à segurança do festival e exigir que abrissem a zona VIP, incentivando os espectadores a saltarem as barreiras, alegando que não continuaria a tocar enquanto isso não acontecesse. “You better fucking let them in because you work for me tonight” mereceu-lhe aplausos da multidão e seguiu-se um arrepiante coro de “Let them in”. Apesar de eventualmente a organização do festival ter assentido em abrir a área VIP, tal não aconteceu sem alguma violência desnecessária por parte dos seguranças. Foram várias as ocasiões durante o concerto em que Josh Homme os voltou a abordar para lhes informar que estava atento ao que estavam a fazer. Apesar dos contratempos o concerto prosseguiu incluindo temas dedicados aos Depeche Mode (“Make It Wit Chu”) e Nine Inch Nails (“A Song for the Dead”). No final toda a gente tinha um ar cansado, havia hematomas e pessoas a procurar coisas pelo chão, mas também o sentimento de que tinha acontecido algo especial ali. E esse sentimento prolongou-se pelos concertos seguintes com Depeche Mode a assegurar uma performance expressiva como só o vocalista Dave Gahan é capaz, apesar do notável mau som que se ouvia do palco Madrid Te Abraza. Mais uma vez, o festival transformou-se numa gigante pista de dança, mas onde ninguém tinha espaço para o fazer.

Queens of the Stone Age by Andres Iglesias

Na outra ponta, junto ao palco Koko, tocavam os Black Rebel Motorcycle Club, cujo poderoso rock oscilou entre momentos sem grande energia intensificados pela reduzida interação com o público, tendo no entanto a interpretação de “Six Barrel Shotgun” e “Spread Your Love” equilibrado a performance. Este foi mais um concerto marcado por claro excesso de força e episódios de violência desnecessários por parte da segurança do festival. Deixamos em aberto se os detentores de passe VIP receberam o mesmo tipo de tratamento.

Ainda assim, o melhor ainda estava para vir. Assim que os Nine Inch Nails subiram ao palco mostraram a todos que o rock não tem de ser polido, apenas igual a si mesmo. Trent Reznor protagonizou um concerto poderoso, sem tretas, em que se entregou totalmente a temas como “March of the Pigs”, “Closer”, “Copy of A” e até uma muito aplaudida cover de David Bowie, “I’m Afraid of Americans”. A forma como o concerto foi transmitido nos ecrãs gigantes também contribuiu para uma atmosfera única, já que uma única câmera à mão viajava entre os membros da banda sem cuidados, transparecendo a intensidade das performances. Pódios não se discutem mas este pode muito bem ter sido o melhor concerto do festival.

Nine Inch Nails by Andres Iglesias

No final fica a dúvida se estes três dias foram ou não incríveis, assim como muitas expectativas traídas. Verdade seja dita, não é fácil encontrar um mega-festival onde não se sinta falta do elemento humano e da intimidade de festivais mais pequenos, mas o Mad Cool levou essas falhas a um nível acima com a divisão entre públicos, episódios de violência por parte da segurança, falta de staff, recinto sobrelotado (apesar de oficialmente estar no limite legal), a fraca rede móvel e geral falta de organização. Ainda assim, há coisas boas como o uso de copos reutilizáveis e a pérola do festival: os artistas. São estes que fazem estes transtornos valerem a pena, apesar de a experiência musical parecer a última prioridade do Mad Cool e isso não pode ser tolerado.
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