wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Mécanosphère @ Musicbox – Lisboa [12Dez2015]

_87A6863©AP

© Alípio Padilha / Musicbox

Sábado chuvoso e frio, numa sala em que se vêem fundações da cidade de Lisboa, mais propriamente os pilares de uma ponte no Cais do Sodré, que servem de parede ao bar em questão. Nada poderia combinar melhor com aquele que seria o concerto de apresentação do novo disco de Mécanosphère, Scorpio, lançado 9 anos depois de Limb Shop.

A abrir, e confirmados à última da hora, estavam os Wildnorthe. Quase sempre na penumbra, o duo composto por Pedro Ferreira e Sara Inglês interpretou o seu primeiro E.P. Awe, lançado em setembro, para um público ainda reduzido mas interessado. Os sintetizadores e os ambientes negros dominaram durante a sua atuação que, pelo que entendemos, ainda apanhou de surpresa alguns que chegaram entretanto, satisfeitos com o que ouviam mas não sabendo quem estaria a tocar em palco. Foram 30 minutos tocados quase de seguida, interrompidos apenas antes da última música, onde a banda aproveitou para se apresentar e agradecer ao seu público e à Raging Planet (a sua editora e também a dos Mécanosphère) pelo convite. Uma banda de abertura bem escolhida que nos abriu o “apetite” para o que aí viria.

Perto das 23h, Adolfo Luxúria Canibal passa por entre o público, subindo, de seguida, as escadas que  davam ao palco, esperando que o resto da comandita chegasse e iniciasse a viagem da esfera mecânica. Foi em torno de Scorpio, o seu novo disco, que todo o concerto se desenrolou, iniciando a cerimónia com “Hábil Povo Das Máquinas”. Daí em diante e fazendo-se valer dos seus habilidosos músicos, deu-se um afastamento progressivo daquilo que vemos no disco para aquilo que a Sphére nos pôde proporcionar ao vivo. As músicas não mais foram tocadas do mesmo modo como o disco as mostra, sendo frequente captarmos partes de diferentes músicas num mesmo trecho, ao vivo. O que tornou este concerto em algo muito interessante.
A improvisação reinou, sempre com Adolfo muito expressivo, citando os seus poemas de forma abrasiva, capaz de arrancar, por atrito, partículas de outros corpos, tal como o faz, por vezes, nos seus Mão Morta. As melodias mecânico-industriais foram servidas como se quer, era a máquina a funcionar.

O público, que não acorreu ao concerto como esperávamos, estava, maioritariamente, ao rubro, dançando, saltando e gritando durante as partes mais caóticas do concerto. Às tantas, perante um noise infernal e com o saxofone de Manuel Neto a fazer-se ouvir, observamos Adolfo, que encabeça o grupo liderado por Benjamim Brejon escondido na parte de trás do palco, de olhos fechados e dedos nos ouvidos, gritando “Pela Europa fora os telefones tocam! E os funcionários passam mal.” durante cerca de 7 minutos num caos apoteótico, qual Londres da revolução industrial. Toda a sala estremecia tal a força sonora da maquinaria utilizada. Houve mesmo quem não aguentasse a pressão, desmaiando perante tamanha potência.
O concerto acabaria pouco tempo depois e sem encore, apesar da insistência do público. Uma hora seguida de mentes em ebulição, capazes de criar ambientes sonoros completamente inolvidáveis. Nada falhou.

Quando o The Downward Spiral, dos Nine Inch Nails, explode nas colunas da sala, apercebemo-nos que, infelizmente, o concerto tinha chegado ao seu término. Saímos pesarosamente pela porta do fundo da sala mas saciados, de alma limpa e coração quente.

Uma das noites mais intensas do ano, sem sombra para dúvidas.

_87A6917©AP

© Alípio Padilha / Musicbox

Share Button

Comentarios

comentarios

Por Diogo Alexandre / 20 Dezembro, 2015

Deixar um comentário

About the author /


Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

~