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Melody Gardot @EDP Cooljazz [29Jul2015] Texto + Fotos

19 - Cópia

Os ritmos da bossa-nova invadiram este antepenúltimo dia de EDP Cooljazz, onde estiveram presentes em ambas as atuações dos artistas. Tanto Pierre Aderne como Melody Gardot deambularam por ritmos fora do jazz convencional, passando não só pelo MPB como pelo Fado e pela música africana. Houve de tudo.

Quando entrámos no recinto, já Pierre Aderne se sentara em palco, juntamente com o seu violão, enquanto cantava para o público português. Pouco tempo depois arriscaria um cover de Vinicius de Moraes e Baden Powell. “Berimbau”, um dos temas mais famosos do poeta brasileiro, foi o escolhido, e bem, já que na sua banda se encontrava Phillippe Baden Powell, o filho do famoso compositor da canção. Ouvir uma das mais marcantes músicas do cancioneiro brasileiro, num espaço tão belo, com Pierre sussurrando o verso “Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém” tornou este momento em algo irrepetível. O berimbau presente em palco e tocado no início da canção ainda ajudou mais ao embelezamento do ambiente.

Seguiu-se um tema original, um “fadinho, já que os brasileiros não compõem fados”. “Fado dos Barcos” provou que o fado não é só coisa de português mas de todo o mundo, como a música se quer: universal, capaz de despertar o encanto sobre qualquer alma do planeta. Após confessar-se amante das tertúlias musicais que organiza em sua casa, ao que os seus vizinhos chamam de bagunça, o artista lança-se a “Guia”, tema de António Zambujo, desta feita, na companhia de João Barradas, o acordeonista que embelezou o tema composto pelo próprio Pierre Aderne. Esperava-se um maior acompanhamento por parte do público, visto que Zambujo também atuou na edição corrente do festival, e ser do conhecimento de praticamente todos os que lá se encontravam. O cantor bem puxava mas ninguém se manifestava. Nem o cover, em modo bossa/samba, de Rui Veloso se manifestou como se esperava. “Fado Do Ladrão Enamorado” é um dos temas mais populares da música portuguesa, supunha-se então, que o público acompanhasse o músico durante grande parte do tema e, tal como na canção anterior, nem no refrão isso aconteceu.

O público, meio morto, lá soltava uns “laia-laia” pelo meio dos versos, num desalento gradual e algo incompreensível. Curiosamente, ou não, e após um bajulamento à língua portuguesa (“língua linda que carregamos para todo o mundo”), a música mais aplaudida (e acompanhada) da noite foi a original de Pierre com Melody (que infelizmente não a interpretou no palco), intitulada de “Limoeiro”, à que, finalmente, o público cede aos pedidos do artista, acompanhando-a com palmas e cantando no refrão.

Não entendemos o porquê de tamanho entediamento por parte do público português, já que o concerto foi bastante agradável, com incursões recorrentes às mais variadas canções brasileiras e portuguesas, assim como também às originais do artista. Um concerto que, por certo, não pecou pelo alinhamento, já que apesar de não sermos conhecedores da discografia do francês de alma brasileira, pudemos cantar quase metade das músicas interpretadas pelo artista. Fica para a próxima, Pierre, para quando os portugueses deixarem de se armar em “finos”.

Com o trio de sopros a abrir as hostes num interlúdio super funky, Melody Gardot entra em palco para interpretar prontamente “Same To You”, o primeiro single extraído de Currency Of A Man, seguida por “She Don’t Know”, também do mesmo álbum. Digamos em bom da verdade que este Currency Of A Man quebra com todo o resto da discografia da cantora. Se já em The Absence a americana revelava querer fugir ao jazz clássico, neste seu mais recente trabalho a fuga é notória, trocando, na maior parte dos temas, as composições smooth por outras repletas de blues e funk onde os sopros se revelam fulcrais.

Melody, que até então pouco se dirigira ao público, agradece com um “muito obrigado” quase perfeito, para depois percebermos que a cantora opera o português quase como se fosse a sua segunda língua. Posteriormente, refere que o jazz significa liberdade (“jazz means freedom”), e pergunta se conhecemos Charlie Haden e Charles Mingus, referindo-se os desaires do primeiro quando se estreou em Portugal, quando dedicou a sua música “Song For Che” aos anti-colonialistas angolanos, em 1971, e dedicando a sua música ao segundo, dizendo que foi uma das suas maiores inspirações quando decidiu seguir carreira como artista. “March For Mingus”, aqui numa versão alargada e improvisada, tendo sido o tema mais free do concerto.

“This is a song about love. When you wake up and say: Damn! Everything is easy!”. Foi o proferido pela artista antes de se atirar à calminha “Our Love Is Easy”, a primeira canção fora do último disco a ser tocada. “Então, que tal? Gostam?”, ao que o público reage com um forte aplauso. “I love this city”, responde Melody antes de começar a cantar “Lisboa” o seu tributo magnífico à nossa cidade que provou estar bem decorada pelos presentes. Seguiu-se, talvez, o momento mais inesperado da noite, aquele em que a artista depois de um grande diálogo com a plateia em português, durante o qual confessou ter desejado fazer um show inteiro com Pierre, o que não aconteceu, por preguiça de ambos, decide chamar o francês para interpretar com ela uma pura bossa. Não antes de dizer um “foda-se”, no mais verdadeiro português, e realçar que só falta um copo de vinho para se sentir totalmente portuguesa.

“It Gonna Come” encerra o concerto, por volta da 00h20, com o público todo de pé, algo que já vem a ser hábito no festival este ano. Dá-se a habitual apresentação da banda com todos os clichés que isso acarreta, solos de contra-baixo, bateria, e o trio de sopros intitulado de “Wet Panties” pelas raparigas, diz Melody Gardot, rindo-se suavemente e despedindo-se com um “muito obrigada por esta noite. Obrigada ao Cooljazz, a vocês… bons sonhos, baby!”. Agarrou-se aos músicos para a habitual ovação e depois seguiu viagem para os camarins e, mais tarde, para outro país, onde outro público desejará ser enfeitiçado pela voz e entrega de Melody Gardot.

Um concerto surpreendente a todos os níveis, desde a versatilidade musical até à energia da cantora. O facto da americana se dirigir ao nosso público maioritariamente em português só cimentou o bom desempenho desta excelente artista, bem mais destemida que muitas outras que esgotam pavilhões e estádios. Mais tarde chegará a sua vez. Depois do que vimos aqui, tem tudo para acontecer.

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Por Diogo Alexandre / 1 Agosto, 2015

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