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Milhões de Festa 2016: Foi bonita a festa pá, fiquei contente!

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“Ali por uns segundos tive a sensação de haver desembarcado em país de língua desconhecida, o que para mim era sempre uma sensação boa, era como se a vida fosse partir do zero.”

O Milhões de Festa não é só um festival, mas sim um mundo à parte. Durante quatro dias, Barcelos tornou-se a capital da celebração: abriu as suas portas para uma explosão de juventude, de cor, de som, de alegria. Uma pequena cidade que nos recebeu de braços abertos, ainda que com algumas hesitações que levavam alguns residentes a suspeitar e a perguntarem entre si de onde vinham aqueles extraterrestres barulhentos e o que é que lá faziam. No entanto, não há como negar que, durante quatro dias, o Milhões de Festa faz muito pela dinamização cultural e económica de Barcelos.

A maior explosão sonora deveu-se, como já seria expectável, a Islam Chipsy com os seus EEK: saltaram das margens do Rio Nilo para as margens do Rio Cávado, munidos das suas habituais duas baterias sob a mestria de Khaled Mando e Mohammed Refat, e o seu mestre e maestro Islam Chipsy no teclado. Este trio não desiludiu, ainda que tenha apresentado um set com um quê de semelhança ao seu anterior aquando a passagem, no ano passado, pelo Maus Hábitos. Na sua reinvenção do electro chaabi/mahraganat, o trio transportou-nos para outras dimensões, abriu-nos novas portas de perspetiva, fez o público dançar entre um linear pouco lineado de agressão e celebração: numa representação de uma juventude sónica envolvida em revolução, em protesto, mas também envolvida em alegria, energia e curiosidade. Se Islam Chipsy com os seus EEK nos transportaram para outras dimensões, os Sons of Kemet fizeram-nos uma tour completa. Com membros que já passaram por colossos do free jazz como Polar Bear, Melt Yourself Down ou até Sun Ra Arkestra, Sons of Kemet é coletivo de exímios músicos, com Shabaka Hutchings como grande compositor e mestre dos sopros como o saxofone e o clarinete, Tom Skinner (também baterista em Floating Points no consagrado álbum Elaenia), e Seb Rochford (com colaborações com Brian Eno) nas baterias e percussão; e finalmente Theon Cross, que veio substituir Oren Marshall na tuba. E, com claras influências do Egipto ancestral e música tribal africana no seu free jazz multidimensional, fizeram-nos dançar numa dimensão – ou em múltiplas quiçá – qualquer sem gravidade, onde o corpo deixou de nos pesar, embora tenhamos ficado de coração cheio.

Uma viagem sem destino premeditado que começou no Palco Milhões, um palco que de certa forma nos desiludiu em comparação ao Palco Lovers; onde sentimos, na maioria das vezes, que o som se perdia na imensidão/dimensão desnecessária do palco, onde parecia tudo pequeno e longínquo; já pelo contrário, o Palco Lovers era um palco de dimensões mais pequenas, mas com uma acústica muito mais interessante, com o melhor som em festivais open air. Nesse Palco Milhões recebemos também Bixiga 70, envoltos no seu jazz mais adocicado, com maiores e mais nítidas influências de funk, musica popular africana e brasileira. No entanto, soaram-nos mais pequenos que nos seus trabalhos de estúdio, o que se traduziu num gosto agridoce na língua, já que, ainda que tenha sido um set com qualidade, não fez jus às expectativas tão elevadas que tínhamos. Ainda assim o público vibrou e rendeu-se ao groove dos brasileiros, dançando pela madrugada adentro.

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 “A moça triste que vivia calada sorriu / A rosa triste que vivia fechada se abriu / E a meninada toda se assanhou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor / Estava à toa na vida / O meu amor me chamou / Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor

Foi já nas “margens” das Piscinas Municipais de Barcelos – onde sobrevoavam bolas pretas sobre as nossas cabeças e o sol deixava uma boa parte do público mascarada de camarões cozidos – que chegaram até nós os franceses WE ARE MATCH. Estes foram a maior revelação e a maior surpresa do festival: conquistaram-nos com as meras quatro faixas que puderam tocar devido a atrasos e problemas técnicos, de onde realçamos e aconselhamos “L’avenue”, onde mergulhámos numa espécie de salada de indie math rock com molho de sintetizadores punchy, um molho que sobressaía sem se sobrepor. Apesar do calor impedir uma boa parte do público de sair da piscina, os franceses não passaram despercebidos – aguardamos ansiosamente o retorno dos WE ARE MATCH a uma sala fechada e com um slot temporal maior. Ainda nesse mesmo Palco Piscina recebemos aquele que poderíamos considerar o pai do dub, Adrian Sherwood. Com uns incríveis 1118 créditos no discogs que envolvem produção, escrita ou remixes, seis álbuns, um punhado de EPs, Sherwood é também o grande fundador e mestre da On-U Sound, fundada em 1979. O quinquagenário providenciou a banda sonora perfeita para um fim de tarde ainda muito quente e soalheiro, que deixou até os mais tímidos completamente soltos a dançar em frente do palco, a bater o pézinho na toalha ou a abanar a cabeça dentro da piscina.

“E quando amanhece, não é o dia que nasce no horizonte, é a noite que se recolhe no fundo do vale”

Um dos nomes mais aguardados desta décima edição do Milhões de Festa era, também, o de Pablo Díaz-Reixa aka El Guincho. O espanhol, proveniente de Las Palmas, brindou-nos com o seu exotismo e tropicalismo, numa paleta cromática de vermelhos, amarelos e verdes e azuis, tal como se estivéssemos no “Palmitos Park”. El Guincho será provavelmente dos projetos mais difíceis de descrever e talvez mesmo por isso o mais interessante: tropicália, dub, afrobeat, psicadélica, eletrónica, pop, tudo se mistura. Porém, a transformação do trabalho de estúdio e a solo, para uma performance ao vivo e com banda, faz com que muita da magia se perdesse. Ainda assim, não foi um concerto trágico; podia ter sido melhor, podia ter sido pior, foi apenas “morno”. Fez-nos dançar, mas ficou-nos novamente um gosto agridoce na boca, quando o que esperávamos era uma grande festa de som e cores intensas e vibrantes. Dan Deacon também ficou pela metade, quando as expectativas estavam muito elevadas devido à passagem inesquecível pelo NOS Primavera Sound 2015. O set começou a todo o gás, mas por uma razão ou outra, a energia do público foi-se desvanecendo, assim como a do americano. Ainda que competente do inicio ao fim, esta performance que começou com saltos, batalhas de dança, balões coloridos e bolas pretas do Palco Piscina atiradas de um lado para o outro, e acabou em cabeças e corpos que se abanavam com precaução e cansaço acumulado.

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Caso completamente inverso foi o de Domenique Dumont. Não tínhamos expectativas, a informação sobre o projeto era e é escassa, e não conhecíamos nada para além do seu primeiro e único lançamento Comme Ça, de junho de 2015. Mas não é a falta de expectativas que nos leva a considerar este como um dos sets mais interessantes do festival: foi mesmo a competência do duo, a entrega ainda que tímida e sem grande interação, e o tamanho que o álbum ganhou ao vivo. Se já estávamos perante um bom disco, este registo agigantou-se, ganhou proporções épicas dentro da sua própria delicadeza, pintada a uma voz feminina etérea e a sonoridades de synth pop e influências suaves de dub e de tropicália.

São casos como os de WE ARE MATCH e de Domenique Dumont que fazem a ida ao Milhões de Festa mais que prolífera (já sem falar sobre os quatro dias de diversão e provavelmente ebriedade): quer o Milhões de Festa, quer a própria Lovers & Lollypops, têm-se vindo a demarcar dos restantes por uma característica, quase uma filosofia per si, muito própria e com uma fórmula irrepetível: fazem-nos chegar os mais puros, improváveis e subvalorizados talentos de todas as partes do mundo.

Foi bonita a festa pá, fiquei contente

 

Fonte das citações: livros Estorvo e Budapeste e canções “Tanto Mar” e “A Banda”, da autoria de Chico Buarque.

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Por Sara Dias / 1 Agosto, 2016

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