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Milhões de Festa 2018 [6-9Set] Texto + Fotogalerias

24 de Setembro, 2018 ReportagensJorge Alves

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Milhões de Festa

Beach House - Teatro Sá da Bandeira, Porto [26Set2018] Texto + Fotos

No Age - Hard Club, Porto [12Set2018] Foto-reportagem
Após meses de especulação, o Milhões de Festa anunciou o seu regresso e trocou a época de julho pelo primeiro fim-de-semana de setembro, numa mudança que poderá ter parecido um pouco radical mas que em nada afetou o espírito de infinita diversão que sempre caracterizou o festival minhoto. “A tradição já não é o que era”, o slogan usado pela organização, só se sentiu, para gáudio dos presentes, na supracitada alteração de datas, pois tudo o resto continua lá: o contacto com a pacata mas bela cidade de Barcelos, a descoberta infindável de propostas musicais que rapidamente nos conquistam o coração e aquela mágica sensação de estarmos num mundo à parte, onde tudo aparentemente pode acontecer. Durante quatro dias, mergulhamos num universo de sol, piscina e pura celebração da vida, das artes e da liberdade, absorvendo o encanto de um mundo tão surreal quanto deslumbrante.

Depois da receção de quinta-feira, onde os maiores destaques vão para a atuação explosiva de 700 Bliss – união da intensidade sonora e verbal de Moor Mother e das pulsantes batidas da produtora DJ Haram – assim como para as danças provocadas pela enérgico cruzamento da cumbia e do afrobeat com space disco dos The Mauskovic Dance Band, a experiência Milhões começou verdadeiramente na sexta-feira, com todos os palcos – incluindo o da mítica piscina - já em funcionamento.

Dia 0 (6Set)


Num festival como este, onde os concertos e restantes atividades se desenrolam a um ritmo frenético, torna-se praticamente impossível documentar tudo, mas com um esforço conseguimos facilmente testemunhar o suficiente para sairmos do recinto cheios de novos nomes para explorar e incluir na nossa banda sonora diária. Para muita gente, um desses nomes será claramente o dos finlandeses Circle, prolifero coletivo com inúmeros discos no currículo e autor de uma sonoridade verdadeiramente eclética e sem qualquer tipo de barreiras estilísticas. Quando por cá anteriormente estiveram, no ano de 2009, perante um Sá da Bandeira ansioso pela chegada dos norte-americanos Isis, já tinham surpreendido alguns melómanos mais atentos, mas sentiu-se que deram agora o concerto de consagração no nosso país, no sentido de terem atuado perante um público que os recebeu de braços abertos e compreendeu a sua estranha e aventureira fórmula musical. Se há bandas que se limitam a um estilo (e nada de mal tem essa escolha), os Circle abraçam vários para, a partir dessa recolha, criarem o seu universo. Há krautrock, prog, metal, ambientes psicadélicos, folk, e tudo o que o grupo quiser que a sua música possua, mas o segredo reside no modo como essa mistura nunca soa demasiado caótica para o seu próprio bem, apresentando-se sempre coesa e, acima de tudo, dotada de uma personalidade bem vincada.

No campo das sonoridades mais dançáveis e ritmadas, Squarepusher deu uma lição de como proporcionar um concerto verdadeiramente excitante e inesquecível. Trazendo consigo uma brilhante e elaborada componente visual, naquela que foi possivelmente a atuação mais ambiciosa no departamento da imagem, o artista britânico lançou-se numa fascinante exploração dos limites criativos da música eletrónica, indo desde o drum & bass ao acid house passando pelo techno (e a lista não fica por aqui), fornecendo assim uma apaixonante viagem sonora a todos os que com ele embarcaram. Não sendo, aqui em Portugal, um nome que previamente arrastasse multidões, sentiu-se que isso certamente mudará caso regresse (e esperamos que o faça), tendo o Milhões servido como cenário para o primeiro capítulo do romance que o artista começou nesta noite a escrever com o público português.

Já bem conhecido é Scúru Fitchádu, criação do produtor Sette Sujidade. A fórmula – uma inteligente combinação de fúria punk, rasgos eletrónicos e os ritmos quentes do funaná- espelha a riqueza sonora de um projeto único no panorama nacional e origina sempre atuações tão festivas quanto viscerais. Nesta noite, na estreia no Milhões, assistimos novamente a uma endiabrada prestação de um dos mais originais e excitantes nomes da atualidade musical, nesta altura no auge da sua existência. O futuro de Scúru adivinha-se risonho, e ainda bem; o movimento precisa de manifestações artísticas com este nível de qualidade.

Sempre palco de propostas tão impressionantes quanto bizarras, o Milhões acolheu, durante a tarde, a performance da senhora Phantom Chips, que basicamente consiste em sintetizadores usáveis, criados em casa pela própria, que o público pode esticar ou apertar para produzir ruído. No fundo, o que aqui temos é uma performance onde o experimentalismo sonoro torna-se interativo, com a audiência a participar tão ativamente no espectáculo quanto a mente que o elaborou. Uma sessão musical insólita mas extraordinária, num claro exemplo da saudável tendência deste evento em dar uma plataforma a artistas que buscam incansavelmente maneiras inovadoras de produzir arte sonora.

Num dia marcado ainda pelo interessante confronto geracional que caracterizou a atuação conjunta de Lena d' Água e Primeira Dama (Manel Lourenço) com a Banda Xita, pudemos também apreciar o punk desconcertante e desenfreado dos Mirrored Lips, na piscina, ou o garage rock idiossincrático dos Warmduscher- ao mesmo tempo inspirado na tradição do estilo mas apresentado com um charme muito próprio que lhe confere um carácter único.

E foi assim, neste clima relaxante de pura festa e ao som de alguma da melhor música vanguardista, que decorreu o primeiro grande dia do Milhões. A maratona tinha apenas começado…

Dia 1 - Piscina e Taina (7Set)

Dia 1 - Parte 1 (7Set)

Dia 1 - Parte 2 (7Set)


O dia de sábado ficou marcado por duas coisas bem distintas: o regresso a Barcelos dos Electric Wizard e a demonstração de talento e criatividade por parte das mulheres que, cada uma à sua maneira, iluminaram os palcos por onde passaram com a força e paixão da sua arte.

Começando pelo último ponto, destacamos a apresentação de Natalie Sharp, intitulada Body Vice, que se realizou na piscina e captou a atenção de todos os que por lá andavam devido à sua natureza excêntrica mas inegavelmente sedutora. Neste cenário, a componente musical - uma exploração esquizofrénica da eletrónica de cariz experimental - serviu apenas de fundo sonoro para um espetáculo altamente performativo, onde três mulheres (Natalie, Phantom Chips e Tida Bradshaw), exibindo roupas extravagantes e rostos pintados de azul, apresentaram coreografias cuidadosamente planeadas e carregaram gigantes espelhos prateados por toda a zona da piscina. É seguro afirmar que nenhuma alma presente ficou indiferente a tamanha demonstração de arte no seu formato mais ousado, radical e inventivo, numa autêntica e apaixonada celebração multidisciplinar da relação entre o corpo e a tecnologia. Quando analisada a história do festival, este deverá ser visto como um dos seus mais emblemáticos momentos.

Ainda na piscina, viveu-se um dos episódios mais épicos desta edição com o set da DJ e produtora Afrodeutsche, que contagiou tudo e todos com as pujantes e emocionantes batidas que definem o seu techno explosivo. Durante o tempo que permaneceu em palco, instalou uma belíssima e inspiradora atmosfera de harmonia e felicidade e fez com que todos dançassem como se não houvesse amanhã, num momento que só pecou por não ter feito parar o tempo de modo a que pudesse durar para sempre.

Já de noite, a oferta começou com uma das maiores revelações do festival: WWWater, a banda da carismática cantora belga Charlotte Adigéry, que mostrou ser um dos nomes a ter em conta no futuro. A sua voz, doce mas possante, dá cor a músicas apelativas onde uma pop ora etérea, ora mais mexida, busca inspiração na vasta herança da música negra, reunindo elementos de soul e hip-hop para arquitetar uma sonoridade que consegue ser tão orelhuda e dançável como surpreendentemente detalhada. Uma atuação bastante satisfatória de uma senhora que, muito em breve, poderá estar a encantar multidões nos festivais de grande dimensão.

O mesmo se pode dizer de Nubya Garcia, considerada uma das grandes promessas do atual jazz europeu. Tendo o saxofone como meio de expressar a sua voz interior e expor o que lhe vai na alma, a artista londrina, de ascendência caribenha, aqueceu os corações dos presentes com os tons quentes do seu jazz exótico, que ocasionalmente evocava o legado dos Sons of Kemet. Deixando espaço para que a sua soberba banda de apoio – constituída por contrabaixo, bateria e teclados – também tivesse oportunidade de brilhar, Nubya Garcia proporcionou uma deveras competente atuação que deixou bem claro estarmos perante um nome futuramente requisitado no circuito de concertos nacional.

Antes, no palco lovers, Gazelle Twin foi responsável por uma das mais desafiantes atuações de todo o festival. Revelando, a exemplo do que tínhamos visto com Natalie Sharp, um lado performativo bastante acentuado, a artista britânica apareceu em palco totalmente vestida de vermelho e branco, não estabelecendo comunicação verbal e optando por deixar que a sua música falasse por si própria – e as histórias que contou através do som foram muitas. Se há algo que caracteriza uma prestação do alter-ego de Elizabeth Bernholz, é o sentimento de desconforto e confusão que se instala. A música que produz, ainda que recheada de batidas, não é assim tão dançável, sendo até bastante negra e emotiva, para além de complicada de categorizar – há industrial, electrónica avant-garde e até uma aura gótica - mas tudo processado de forma a que o produto final se torne efectivamente algo seu e de mais ninguém. Com esta passagem, Gazelle Twin assinou a maravilhosa banda sonora dos nossos pesadelos. Sublime, ainda que possivelmente não para todos.

Ainda no capítulo das mulheres, a MC israelita Miss Red provou, mais uma vez, o furacão que é em palco, e tal como tinha acontecido em 2016, veio acompanhada de um dos mestres da cultura sound system – The Bug –, nome que já faz parte da “família” Milhões e que teve na sua terceira aparição no festival uma das mais memoráveis. Ainda que o formato tenha sido o mesmo de há dois anos, voltou a punir sem piedade os nossos ouvidos com o volume ensurdecedor - volume esse que, reza a lenda, fez disparar alarmes de carros em 2015 - com que debita as camadas de som que tão bem constrói. O resultado? Uma festarola que elevou o conceito de intensidade a níveis assombrosos.

A vinda dos britânicos Electric Wizard revestia-se de um curioso sentimento de nostalgia: afinal, foram muitos os que marcaram presença na primeira atuação do grupo neste festival, corria o ano de 2010 e a primeira edição do Milhões na cidade de Barcelos, e muitos os que, oito anos depois, voltaram, motivados pelas memórias de uma noite inesquecível.

Se outros concertos foram marcados por uma inesgotável vontade de quebrar barreiras no modo como a música alternativa é expressa, o dos Electric Wizard manteve-se fiel ao seu objectivo básico: proporcionar uma sessão musicalmente densa, à base de riffs pesados e arrastados, visualmente macabra e com referências ao mundo do horror e do obscuro. Não faltaram clássicos como as indispensáveis “Funeralopolis” ou “The Chosen Few”, e a prestação do grupo, ainda que longe de trazer algo de novo (mesmo o alinhamento reflectiu uma clara vontade de se focar no passado), cumpriu e deixou os seguidores satisfeitos. Sendo os Electric Wizard um nome essencial na história do doom metal das últimas duas décadas, o que aqui ofereceram foi suficiente, mas, apesar de tudo, nunca chegaram realmente a surpreender.

O que impressionou foi a atuação, em plena cidade de Barcelos, de Vaiapraia e as Rainhas do Baile, que mais uma vez brindaram o público com um majestoso pop psicadélico de coração punk e temáticas queer, que torna o projeto não só interessante do ponto de vista musical, como também a nível conceptual. Acima de tudo, estamos perante uma banda atual em todos os aspectos, perante algo que, em 2018, faz todo o sentido.

Dia 2 - Piscina e Taina (8Set)

Dia 2 - Parte 1 (8Set)

Dia 2 - Parte 2 (8Set)


O dia de domingo não deixou de ter um sabor agridoce: houve festa e momentos para mais tarde recordar, mas sabíamos que o fim estava próximo e que estes dias esplêndidos passados neste incrível recinto iam ser brevemente colocados no passado quando nós desejávamos que permanecessem no presente.

Ainda assim, a oferta musical foi suficiente para que nos concentrássemos no que mais importava – a diversão. Essa palavra descreve perfeitamente a festa que encerrou o showcase da promotora Fat Out no Palco Taina, intitulada “Queen Bee Supergroup” e que contou com, entre outros, Phantom Chips, Deyar Yasin, Tida Bradshaw, Natalie Sharp e todos os performers da Fat Out presentes durante a tarde. Power electronics, serpentinas atiradas ao público, fitas e pinturas foram alguns dos elementos desta louca mas vanguardista celebração daquilo que é diferente, num verdadeiro apelo à liberdade identitária, ao direito de criar coisas esquisitas pela simples possibilidade de o fazer - sejamos honestos, qual é o mal? Nenhum, o que aqui vimos foi fantástico. Nesse aspecto, o Milhões merece crédito pela aposta.

Na piscina, os Tajak, sediados na Cidade do México, deram uma verdadeira demonstração de vitalidade rockeira, invalidando as opiniões de todos aqueles que insistem que o estilo há muito que já morreu. Contudo, não só de qualidade falamos aqui, mas também de uma certa inovação. Pegando naquele feeling desert rock típico da Califórnia e misturando-o com influências de shoegaze – as referências aos My Bloody Valentine são, aliás, notórias - criam um som que varia entre o pujante e o introspectivo. Magnífico.

Durante a noite tivemos propostas como o envolvente jazz de tons psicadélicos e ocasionais laivos de funk dos londrinos The Heliocentrics, a eletrónica vigorosa e variada dos alemães Mouse on Mars e, claro, a celebração de raízes na morna e funaná dos lendários Os Tubarões, que conseguiram pôr os resistentes que permaneceram no recinto a dançar.

No final, o balanço é positivo. Sim, não foi tudo perfeito - sentiu-se imenso frio em certas alturas e nem sempre o recinto esteve tão composto como teria sido desejável, sobretudo no último dia – mas descobrimos na mesma boa música, conhecemos pessoas novas, reencontramos velhos conhecidos e amamos toda esta experiência. Seja em julho, seja em setembro, que 2019 nos traga mais uma edição do Milhões de Festa.

Dia 3 - Piscina e Taina (9Set)

Dia 3 (9Set)
por
em Reportagens
fotografia Bruno Mesquita

Milhões de Festa 2018 [6-9Set] Texto + Fotogalerias
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