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Mucho Flow 2016: Dicotomia da marcha do progresso

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“À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fabrica / Tenho febre e escrevo / Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.”

Dando um mote de partida revolucionário-industrio-triunfal digno, apenas digno de Fernando Pessoa, apenas faria sentido começar esta reportagem do Mucho Flow com um nome a ouvir, reter e relembrar: NAKED. A maior surpresa da transata edição relembrou-nos por que é que valorizamos tanto o Mucho Flow. Fomos brindados com um line-up que não nos traz mais do mesmo. Esta, que intitulei de marcha do progresso por motivos quasi-poéticos, é igualmente agridoce: é incerta, arriscada, e tal como o próprio ortónimo de Pessoa, dicotómica. Se num dos polos temos NAKED, é quase inegável que no polo contrário tenhamos Nite Jewel.

NAKED esteve para o Mucho Flow como a “máquina” está para Álvaro de Campos. A formula é, no entanto, bem simples: Agnes Gryczkowska e Alexander Johnston experimentam com sintetizadores com beats que oscilam algures entre o downtempo que nos remete para a FKA Twigs e a agressividade industrial quasi-godfleshianas. Gryczkowska é o motor desta máquina em palco: duas tranças, um ar gótico e toda uma estética que vigora nos dias modernos. No entanto, tais detalhes passaram completamente para segundo plano perante a presença de Agnes em palco, com a sua voz angelical que contrastava de forma tão violenta com os synths e beats abrasivos; e com a sua presença em palco, com os seus movimentos que tanto tinham de coléricos como de graciosos. Zone, lançado a 30 de setembro, é o primeiro longa-duração do duo que promete dar que falar: “Ser completo como uma máquina!”

Já Nite Jewel esteve para o Mucho Flow como o tédio esteve para a euforia da Ode Triunfal de Álvaro de Campos. (Apesar de Nite Jewel ter mais lançamentos em comparação com NAKED, quando falo de aposta e de risco pela parte da Revolve, falo em artistas que por cá não têm um público, aparentemente, numeroso e disposto.) Uma pequena, envergonhada e desajeitada Ramona Gonzalez subiu ao palco para um set de pouco mais que uma hora, mas que na realidade contaram como três ou quatro. Gonzalez caiu num loop infinito de tédio – daquele que repete sempre as mesmas melodias, as mesmas poses, as mesmas expressões – é que ao fim de duas faixas já tínhamos ouvido o concerto inteiro! De inicio ao fim Nite Jewel, nitidamente embrenhou-se tanto no seu perfeccionismo vocal, que acabou por se perder nele. Não houve movimento, espontaneidade, nem sensualidade, nem tempestades, nada. Apenas um marasmo completo, de entediar até os mais entusiasmados.

Mas a noite de 8 de outubro, no CAAA, não se fez só das apostas mais arriscadas. Bo Ningen, do cimo do seu noise rock neo-psicadélico, ou simplesmente sonoridades freaky e inexplicáveis – no melhor sentido possível, – deram um concerto à altura das expectativas: energia, saltos, suor, riffs apressados, um bocadinho de distorção aqui, um pouco de reverb acolá. Estávamos espalhados, fragmentados no espaço e no tempo, perdidos em todo o lado, concretamente em lado nenhum, uma confusão de energias, de corpos epiléticos e tudo mais que possam imaginar – ainda bem que depois pudemos descansar um pouco, e olear a máquina para um dos concertos mais memoráveis que vimos este ano. Blanck Mass chegou e arrasou com os nossos corpos, acima de tudo com os nossos ouvidos. Benjamin John Power foi um Jorge Jesus da “chiclete” e dos títulos (no Benfica, obviamente), arrecadando facilmente o título de melhor set que o Mucho Flow já recebeu na sua ainda curta história. Entre interlúdios de harsh noise e faixas do seu ultimo álbum Dumb Flesh, acrescidos a um PA com uma qualidade que poucas salas em portuguesas ostentam, a metade dos canónicos Fuck Buttons, deu-nos uma tareira sonora. Dumb Flesh assume proporções exorbitantes ao vivo: “Detritus” foi o ponto alto de um set que só teve pontos positivos. Estivemos perante o exorcismo do corpo, da carne, e provavelmente ficamos largamente mais próximos de ficar surdos. Esteve bom o sadomasoquismo sonoro, e,  já que começamos com Álvaro de Campos, acabemos também com ele: “Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo de navios! / Masoquismo através de maquinismos!”.

 

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Por Sara Dias / 14 Outubro, 2016

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