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Nivhek - Igreja de St. George, Lisboa [5Nov2019]

15 de Novembro, 2019 ReportagensTomás Quental

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Igreja St. George

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No último dia 5 de novembro, com selo e promoção ZDB, o evangelho foi segundo Nivhek. A congregação manteve-se solene, sentada ordeiramente nos bancos da igreja anglicana de Lisboa, esperando Liz Harris (Grouper) entre os focos azuis que apontavam para junto do altar. Em vez dos salmos e mobiliário litúrgico, viu-se um piano, um microfone e uma mesa de som cheia de cabos entrelaçados, provavelmente ligados a loopers e pouco mais.

“Também vai para o concerto? Junte-se à manada, vamos todos para o mesmo lado.” Enganados pelos mapas da internet, um grupo de estranhos contornou o muro sem grande conversa. À chegada, a expectativa era de tudo menos entretenimento noturno. Quem chegou mal-avisado certamente recebeu o recado quando foi obrigado a passar pelo cemitério inglês da Estrela, numa noite de outono fria e ventosa o suficiente para soprar as folhas por cima das campas. Foram todos para o mesmo lado e juntaram-se aos restantes que falavam aos pares, respeitosamente, dentro da nave da Igreja de St. George. Os bancos corridos praticamente cheios de pequenos diálogos com o volume no mínimo – não parece bem fofocar na casa do Senhor, especialmente numa que está cheia de plaquetas “in loving memory of” pelas paredes, portanto fofoca-se mais baixinho para Ele não ouvir.

Nem Ele nem ninguém ouviu fosse o que fosse assim que as luzes se desligaram. Os focos azuis – agora ainda mais dramáticos - e um silêncio verdadeiramente sepulcral anunciavam a artista americana, prestes a tocar ao vivo o material que gravou e editou entre os Açores e Murmansk, na Rússia, uma das cidades mais a norte do mundo. Os passos ouviram-se ao longe, reverberando pelas paredes do edifício, até Liz Harris aparecer perante a plateia, envolta em azul. Parecia impossível este momento ganhar mais tensão, mas a chegada de Harris não teve aplausos. Não houve sequer uma manifestação de apoio, um descruzar de pernas, ou o proverbial ataque de tosse. A artista entrou lentamente, acendeu umas luzinhas de palco sobre o emaranhado de fios. Mais uma ou duas sobre as teclas do piano. Pegou no microfone e garantiu que mais nenhuma voz ali falasse em vão.

Um ruído ténue e o coro de reverb criados no momento em torno da voz avocabular de Harris trouxeram aquele que é um verdadeiro requiem em forma de concerto. Os samples iam-se fundindo e sublimando pelas melodias cantadas ao vivo e subitamente todo o novo projeto de Liz Harris, desta vez assinando como Nivhek, fez sentido. Em junho passado, o site thequietus.com perguntou à artista o porquê de não assinar este projeto como Grouper, o seu nome de palco mais famoso. Liz respondeu que houve uma fase em que teve muitos sonhos baseados em palavras. Num deles, estava algures no Ártico a assistir a um ritual. No final do ritual, viu uma mulher cujo nome lhe piscou. O seu apelido era Nivhek. Conta que, fatidicamente, foi logo convidada para fazer a residência no Ártico, onde este projeto foi finalizado. “Não tenho de pensar muito sobre o que faço criativamente. Meio que me é dito o que fazer.”

Que não restem dúvidas: fez-se a profecia. Este era o ritual e nós vimos a mulher do sonho também. O trabalho de uma hora (After its own death / Walking in a spiral towards the house) foi tocado na íntegra, sem pausas, enquanto o acompanhamento em vídeo do artista Makino Takashi enchia o fundo por trás de Nivhek desde as paredes até ao teto, com a projeção de um mar a submergir aqueles que iam resistindo ao encanto xamanístico do piano. É impossível não entrar em meditação profunda com as composições de Liz Harris, aqui ora mais frias e desoladas, como o branco do Ártico, ora azuis e fundas, como o mar dos Açores. Um palco qualquer não seria indicado para algo tão espiritual assim. Deve dizer-se que outra igreja, que não a de um cemitério, não teria a austeridade suficiente.

À chegada da reta final, alguns iam saindo do seu transe introspetivo, sem avisar o próximo. Os sons de fundo foram-se perdendo, tal como o piano e a voz, até Nivhek nos empurrar de novo para o silêncio com que a recebemos. Não durou mais de um segundo. A plateia irrompeu no aplauso mais fervoroso que se pode dar dentro de um templo e Liz Harris, sem dizer nada, voltou para onde estava, algures ao lado do altar, como se desaparecesse no Éter. Uma senhora mais velha aproveitou o primeiro momento de silêncio para pedir licença e sair. Talvez tivesse de ir à casa-de-banho, talvez não tenha apreciado a cerimónia – os incautos achariam secante. Mas é preferível pensar que a senhora tinha um propósito divino qualquer que ficou cumprido assim que a experiência chegou ao fim, e prontamente saiu do edifício para desaparecer misteriosamente na noite lisboeta.

Os que não saíram aos poucos, formaram uma bolha à volta da mesa e piano de Liz Harris, ainda com as luzinhas de palco ligadas. Voltaram os pequenos diálogos – “acho que ela fica muito nervosa quando toca ao vivo”, “ah, então se calhar é por isso que não disse nada”. Liz Harris rematerializa-se do Éter, com uma garrafa de água na mão, aproxima-se do seu equipamento até ver uma pequena multidão praticamente por cima dele. Solta um riso tímido e volta para trás. Palavras: zero. Experiências religiosas: várias.



Fotografia da autoria de Vera Marmelo, gentilmente cedida pela própria e pela Galeria Zé dos Bois.
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