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NOS Alive’15 – Dia 3 [11Jul2015] Texto + Fotos

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ambiente dia 3-40

O terceiro e último dia do Alive começa e acaba no facto de ainda não sabermos quem realmente era suposto ser o headliner do mesmo: se Sam Smith, se Chet Faker ou se seriam mesmo os Disclosure.

O (nosso) dia começa com um concerto bastante curto por parte de uns Soldier’s Heart interessantes e interessados em fornecer ao pouco público presente uma agradável meia hora de um pop dançável e sonhador. A voz feminina de Sylvie saltava à vista de todos, juntamente com os agradáveis sintetizadores e jingle de guitarra que conseguiram criar planícies sonoras bastante bem conseguidas dentro de um género já bastante rarefeito. Os belgas não descobriram a pólvora mas faziam-no de forma verdadeira e bem feita. No fim, é só isso que conta.

Seguem-se os Sleaford Mods, a banda revelação da edição deste ano de um festival que vai morrendo aos poucos, tanto em cartaz como em ambiente. Os ingleses, típicos, diga-se de passagem, proporcionaram o concerto mais minimal de todo o festival: dois homens, um microfone e um PC. Sendo que o homem defronte da máquina apenas se dirigia uma vez por música ao tal computador para clicar no play e soltar o beat pré-fabricado, de modo a que Jason Williamson iniciasse o seu processo de spoken word, enquanto que Andrew Fearn baloiçava ao som da música e bebia cerveja.

Não houve luzes vivas e encadeantes, não houve confetis, não houve excessivo movimento, não houve qualquer instrumento para além da voz e do beat. Um punk à século XXI, raçado de hip-hop, portanto. No final de cada punchline, Jason passava com a mão, algo violentamente, pela lateral da sua cabeça e Andrew continuava balbuciante, fumando a sua e gritando os refrões que retratam temas como o desemprego, criticando a cultura pop e a sociedade no geral. Posto isto, os ‘piqueniqueiros’ do palco Heineken rumaram a outros recantos do festival, deixando a plateia repleta de ingleses old school já conhecedores da banda, acompanhando-a nalguns temas de Divide and Exit, álbum de 2014. Foram 40 minutos que nos fizeram lembrar um Alive antigo, aquele que trazia bandas praticamente desconhecidas e cheias de garra para atuarem nos palcos secundários.

Corremos para apanhar os Pista no coreto, situado no cantinho mais remoto do recinto e onde os horários dos seus concertos coincidiram, propositadamente, com os intervalos do palco Heineken. Os Pista vieram apresentar o seu rock tropical às massas e as massas receberam-no lindamente, respondendo com saltos, palmas e muita alegria. O verão ouviu-se no sábado e foi no coreto que se fez a festa.

De regresso ao povoado onde passámos a maior parte deste terceiro dia, vemos Tó Trips e Pedro Gonçalves, acompanhados por um baterista e um percussionista, a interpretarem “Cacto” para menos de metade do público que os observou em 2013.

O duo (aqui quarteto), durante o pouco tempo que dispunha, transportou-nos para um daqueles westerns dos anos 60: temas como “Rodada” ou “Waits”, juntamente com os chapéus à cowboy que a NOS distribuiu aos festivaleiros, causou um ambiente engraçado. Faltou Mr. Eastwood para ajudar à festa.

Após a apresentação de “Povo Que Cais Descalço” pelo carismático guitarrista da banda, ouvimos alguém exclamar “agora é que vai ser!” em antecipação àquele que foi o tema mais faduncho que os lisboetas escolheram para o seu alinhamento. Fez-se silêncio na tenda alternativa.

Guardando os singles para o fim e conseguindo meter todos a saltar em “A Bunch Of Meninos” e, principalmente, em “Lisboa Mulata”, obtiveram assim a confiança do público para tocarem, nada mais nada menos, do que “Zorba, O Grego”, mítica canção grega retirada de um musical com o mesmo nome, adaptado de um livro dos anos 40. Os Dead Combo mostraram de que lado estão da barreira nesta europa em sobressalto, interpretando o magnífico tema em crescendo, como só eles o poderiam fazer, defronte a uma bandeira grega projetada na tela do palco.

Terminou da melhor maneira, com uma grande surpresa, a quase uma hora de pura vadiagem que tomou de assalto este palco secundário. Os Dead Combo, apesar do público não tão recetivo como o da sua última passagem, mostraram-se à altura dos acontecimentos e quiçá melhor que muitas bandas estrangeiras que pisaram aquele mesmo palco em horas mais tardias.

Interrompemos a nossa estadia no palco secundário para rumarmos pela primeira e última vez ao palco NOS, encabeçado não se sabe por quem, para vermos a grande revelação Pop do ano transato. Sam Smith, sem muito mais a apresentar do que aquilo que apresentou na edição anterior deste mesmo festival, deu, possivelmente, o melhor concerto que vimos acontecer neste palco o festival inteiro.

Com uma plateia sedenta por ouvir a sua música, o inglês, último a subir ao palco, entra e agarra-a logo com “I’m Not The Only One”. Escusado será dizer que praticamente todos, incluindo nós, sabiam grande parte das músicas de Sam Smith, ou por serem fãs verdadeiros ou devido ao extremo airplay que as suas músicas detêm nas rádios mais populares do nosso país, sendo uma delas a sponsor do próprio festival.

Sam Smith, apesar dos seus 23 anos, mostra a maturidade que tem ao tecer um espetáculo algo simples, as 21h de verão não dão para grande coisa, mas que valeu pela sua presença e atitude em cima do palco, não se limitando apenas ao “Olá Lisboa, obrigado”, ao “the next song is…” ou a todos os outros clichés de popstar romântica. Sam Smith é bem mais que isso, explicando a razão pela qual escreveu este álbum, sem ter qualquer medo em assumir a sua homossexualidade e o que retrata cada uma das suas músicas. Ainda houve tempo para o clássico “quem já amou alguém que não o amou de volta ponha a mão no ar” antes de “Leave Your Lover”.

Tendo um reportório ainda curto para o estatuto de que goza, ouvimos não apenas temas do jovem britânico mas também covers de Amy Winehouse (“Tears Dry On Their Own”) e passagens ligeiras por “Ain’t No Mountain High Enough”, de Marvin Gaye, “Can’t Help Falling In Love”, de Elvis Presley, e “Le Freak”, dos Chic, que transformou a gigante plateia principal do NOS Alive numa grande pista de dança, retirada do mais profundo dos 70’s. Sucessos de parcerias com os Naughty Boys (“Lalala”) e com os Disclosure (“Latch”, esta em versão acústica), que atuariam mais tarde nessa noite, foram acompanhados integralmente pelo público, que, de resto, sempre se fez ouvir com gritos e cartazes de apoio ao cantor. “Stay With Me”, a famosa balada, foi a última a ser interpretada com os fãs a cantarem-na sem ser preciso qualquer ajuda do cantor ou das três cantoras que se empenhavam nos coros. Um concerto com atitude e garra, ganho a todos os níveis. Aquilo que esperávamos que os Muse ou os Prodigy fizessem chegou pelo “dark horse” dos headliners.

Após o término do espectáculo, observamos que o recinto se esvaziou e as pessoas que de lá saiam não se dirigiam para verem os The Jesus & Mary Chain que tocavam a seguir, viravam imediatamente à esquerda para a saída do festival. Concluímos assim, por imposição do público, que o verdadeiro headliner deste terceiro dia era o cantor inglês e não nenhuma das atuações que lhe seguiriam. Palmas.

Ainda com tempo para bebermos uma cerveja e arranjar bom lugar, observamos o público que se situava dentro do palco Heineken e reparamos que a quantidade de indivíduos com mais de 40 anos de idade era superior aos de 20 ou menos, algo incomum nas últimas edições deste festival de Oeiras.

Não há muito a dizer destes The Jesus & The Mary Chain se não que, como o nome indicava, tocaram Psychocandy (um dos álbuns mais aclamados da sua carreira) integralmente e sem falhas. Já esperávamos um Jim Reid pouco comunicativo e em aborrecimento aparente, foi o que se viu. Com músicas daquelas seria impossível o concerto ser mau. O simples facto de estarmos a olhar para uma das bandas mais influentes dos anos 80, por si só, já é avassalador. No entanto, apenas nas últimas três músicas é que sentimos os verdadeiros Jesus & The Mary Chain dentro de nós, tendo os escoceses embrulhado todo o Psychocandy em papel vegetal (ou vegetativo) e atirando-o pela janela, deixando toda a diversão e impacto sonoro para “Head On”, “Some Candy Talking” e “Reverence”. Esta última devastadora, fazendo-nos esquecer por completo os anteriores 45 minutos onde o doce se revelara amargo demasiado ornamentado. O concerto valeu mais pela sobremesa do que pelo prato principal.

Permanecemos “acampados” no sítio do costume para presenciarmos a maior enchente de todas do palco Heineken no regresso de Azealia Banks ao nosso país, desta feita já com álbum editado. Demorou mas conseguiu. A rapper mostrou que não são precisas grandes artimanhas para meter o público em euforia: um DJ e dois bailarinos em part-time foi o necessário para dominar a plateia e explodir de vez com o Heineken Stage num festim sem precedentes.

Azealia, apresentou-se bem mais vestida, comparativamente à primeira vez que cá veio, e um alinhamento mais bem coeso, LPs fazem milagres, evitando o enchimento de chouriços com remixes de músicas da moda (cof Harlem Shake cof). Dois anos decorridos e a artista nem parece a mesma: bem mais segura de si própria e bem mais solta. Apesar do novo disco estar bastante interessante, foi com as músicas do EP que o público se soltou mais, primeiro em “Liquorice” e, a acabar, em “212”, agitando totalmente este palco secundário que, de repente, se tornara no principal.

Coube aos Flight Facilities a ingrata tarefa de atuarem “em cima” de uma das bandas eletrónicas com mais buzz da atualidade, os Disclosure. Podemos afirmar que este Alive esteve muito bem representado no que toca à nova escola da house music: no 1º dia Flume e Julio Bashmore, neste 3º dia Disclosure e Flight Facilities, e pelo meio uma série de atuações interessantes com potencial para crescer, nomeadamente LOUISAHHH!!!.

O duo de produtores australianos contou com dois vocalistas ao vivo (um homem e uma mulher) para a interpretação das suas músicas que exigem vocais e iniciou concerto a meia casa. Mais para o final da atuação começariam a chegar mais pessoas vindas dos Disclosure, o que foi interessante para compor mais a “casa”, no entanto esteve longe da enchente do concerto anterior.

Hugo & Jimmy apresentaram-se ao vivo, pela primeira vez em Portugal, em cima de uma mesa personalizada com o logotipo da banda, tocando praticamente tudo de Down To Earth, primeiro e único disco da banda.

Os destaques vão para “Clair De Lune”, “Crave You” (música que quase todos no público conheciam) e para uma interpretação de “Lady” original dos Modjo – o momento mais revivalista deste NOS Alive, anos 90 em peso, tanto na audiência como no sistema de som. “Stand Still” concluiu a atuação bastante agradável que os australianos proporcionaram ao público português. Um regresso para o Lux não seria mal pensado.

Saímos de um duo e voltamos para outro: os Chromeo foram a banda encarregada de fechar este NOS Alive. Supostamente, fariam o mesmo no ano passado só que o cancelamento impediu que o grupo viesse a terras lusas apresentar o seu mais recente trabalho White Woman. Regressam agora um ano após o seu lançamento e já com os fãs a terem as novas canções imaculadamente decoradas.

Os ritmos funky contagiaram todos os que permaneceram no recinto até mais tarde, a dança descontraída prevaleceu nesta última hora de Alive. Todos nós nos rendemos à energia do Nu-disco dos canadianos. O público percorria quase todas as idades e todos dançavam ao som de uns Chromeo endiabrados que soltavam basslines super-gingonas não nos deixando parar quietos. Os sintetizadores, sobre umas pernas de saltos altos luminosas, iluminaram o caminho. “Jealous”, uma das novas, foi entoada em plenos pulmões e quando “Needy Girl”, a mais antiga do alinhamento, começa, é o delírio.

Os Chromeo fecham o Alive em grande perante um público rendido e ansioso por mais. Quem se encontrava já meio adormecido, devido às horas tardias em que nos encontrávamos, acordou de certeza. Onde há Chromeo há festa e da boa!

O Alive redime-se de um dos seus mais fracos cartazes de sempre ao apostar em bandas novas excelentes e verdadeiras repescagens. Um cartaz muito pouco original e apelativo revelou-se minimamente interessante e foram as bandas que menos estávamos à espera aquelas que, realmente, valeram a pena. Num festival em que já atuaram bandas importantíssimas do panorama musical como The Cure, Radiohead, Rage Against The Machine, The White Stripes, Alice In Chains, Bob Dylan, Neil Young, por entre diversas estreias que hoje são headliners de festivas (ex: Florence & The Machine), sucumbir à moda rápida e ao rock fácil não é o que se deseja. Esperemos que o ano vindouro traga um Alive renovado, com nomes chamativos e com mais qualidade, agregado a um público decente e respeitador, coisa peca nos últimos 2 anos. Afinal a esperança é a última a morrer, não é verdade?

 

Destaques do dia:

  • Sleaford Mods
  • Sam Smith
  • Chromeo

 

Imagens de outros concertos:

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Por Diogo Alexandre / 18 Julho, 2015

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