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NOS Alive’17 [6-8Jul] Texto + Fotogalerias

 

Mais uma vez, chegou um dos fins-de-semana do ano em que pessoas de todos os cantos do país (e não só) se deslocam à capital sob a promessa d’”O melhor cartaz, sempre!” e, embora esta afirmação seja altamente discutível, o NOS Alive consegue sempre entregar nem que seja algo como “tudo à grande, sempre”. Desde o entusiasmo, boa energia, quantidade de performances e variedade musical até aos preços, filas, multidões, selfies entre outras coisas, tudo aqui é feito à grande. Comboios esgotaram, autocarros atrasaram e uma quinta-feira solarenga tornou-se num autêntico desafio para quem se deslocava ao Passeio Marítimo de Algés no dia 6 de Julho. Tudo isto resultou num atraso de cerca de duas horas e meia que tornou impossível a comparência em You Can’t Win, Charlie Brown e alt-J, mas salvando-nos da fila infernal de entrada no festival, e poupando-vos um parágrafo sobre uma experiência possivelmente traumática.

Toda a curiosidade quanto à capacidade dos Phoenix traduzirem a sua discografia num espectáculo ao vivo de interesse foi saciada nos primeiros segundos de “Ti amo” e subitamente todos perceberam que estavam prestes a assistir a algo fenomenal. A banda francesa apresentou o seu indie rock com a pitada de synth pop habitual de uma forma energética e cativante que aqueceu perfeitamente o público, preparando-nos para o que se seguia.

 

 

Não sendo, este que vos escreve, o maior conhecedor de The XX, tornou-se prudente a escolha de um local de escuta numa posição o mais central possível da plateia. Tornou-se imediatamente evidente que a química incrível entre Romy Madley Croft e Oliver Sim seria o ponto alto da performance com os contrastes tímbricos e de registo vocal de ambos a sublinhar a forte carga emocional que a música da banda oferece. A fusão entre percussão electrónica e restante produção de Jamie xx e a forma orgânica com que eram tocadas a guitarra e o baixo resultou perfeitamente, contribuindo para uma envolvência musical extremamente prazerosa que acabou por ser destruída por um dos maiores males deste tipo de eventos. Refiro-me obviamente às pessoas, e isto porque as pessoas no NOS Alive têm uma capacidade extraordinária de competirem e superarem a intensidade sonora do PA com as conversas mais aleatórias e despropositadas de sempre. Não me levem a mal, até acho interessante que o Salvador tenha traído a Margarida com a Gabriela, mas não. A incapacidade das pessoas se calarem durante um concerto pode nem ter feito diferença durante as performances mais fortes e efusivas do festival, mas num concerto que vive de emoção e de variações dinâmicas como este, tudo se perdeu.

No fim de contas, tudo isto foi irrelevante porque a intenção era abandonar o palco principal antes do fim do concerto, rumo ao palco Heineken, assistir ao que acabaria por ser, talvez, o melhor espectáculo deste primeiro dia de festival. Os britânicos Royal Blood atacaram o palco secundário como se mandassem naquilo tudo: com um plano de fundo luminoso e uma atitude feroz fizeram com que a tenda ganhasse vida. Com apenas dois LPs no bolso o duo conseguiu apresentar todos os singles bem conhecidos pelo público geral e ainda foram capazes de oferecer umas prendas aos fãs. A resposta da plateia foi tão intensa que Mike Kerr não resistiu a agradecer várias vezes o calor típico de um bom público português e o concerto seguiu, faixa após faixa, com uma mistura fabulosa (coisa rara no palco Heineken) e uma pujança invejável.

 

 

Ainda nem estávamos em plena “Out of the Black” e já se sentiam os subgraves vindos do palco principal, a indicar que The Weeknd tinha já começado o seu set. Sabíamos então que assim que a última nota de baixo fosse tocada teria de haver correria para o outro lado do recinto, ainda que o mal estivesse feito e já fosse impossível apanhar “Starboy”, uma escolha interessante para início de concerto. Após “Party Monster”, estava instalado e pronto para o que seria uma série de singles tocados e cantados na perfeição perante um público que sabia todas as letras, e milagrosamente pôs a conversa de parte. A voz foi exactamente como se esperava que fosse e a banda acompanhou-a perfeitamente, adicionando variações nos temas e  elevando a intensidade do concerto a níveis ridículos. O fogo metafórico que se sentiu ao longo do set ganhou vida com a pirotecnia em “The Hills”, a última faixa do concerto que quase fez tremer a terra com subgraves e colocou a multidão aos saltos.

Quando chegou a hora de sair e preparar o corpo para mais dois dias, é que um dos piores factores do festival se tornou evidente: a saída. Creio que neste ponto já todos ouviram falar na autêntica missão que é sair do NOS Alive, mas neste primeiro dia a caminhada infernal ganhou proporções inimagináveis, com milhares de pessoas a fazer a travessia do viaduto a passo de pinguim. Havia obviamente fila para todos os meios de transporte e, esta espera, aliada ao sono e ao cansaço, foi o suficiente para perder anos de vida. Se retirarem algo desta reportagem que seja isto: nunca saiam do NOS Alive na janela de 60 minutos após o fim do concerto do cabeça de cartaz.

 

© Arlindo Camacho / Everything is New

 

7 de Julho, dia 2

 

O atraso do dia anterior foi compensado com a chegada pontualíssima a Algés, que ardia com o sol das 16h. Refrescamo-nos ao som de Killimanjaro, que não mereciam a fraca lotação do palco NOS Clubbing. Foi um desafio beber cerveja devido ao abananço de cabeça que era incutido durante todo o concerto. A forma descontraída com que foram entregues estes 45 minutos de rock puro e duro provou ser o perfeito aperitivo para o banquete que seria este segundo dia.

Ficou a cargo de Tiago Bettencourt a abertura do Palco NOS, um local que não o favoreceu de todo, mas cuja dificuldade de preenchimento foi compensada por uma quantidade impressionante de fãs sentados no pseudo relvado a disfrutar do cantautor coimbrense. O clima sereno serviu que nem uma luva num concerto que visitou muitos cantos de  uma discografia que não passa despercebida ao público português. A performance foi decente e bem recebida pelo público que não parecia estar muito exigente (nem acordado) neste ponto da tarde.

 

 

Foi necessária a chegada de Savages para que finalmente o palco Heineken ficasse composto e foi de facto esta abertura estrondosa do quarteto britânico que deu início a uma performance surpreendente. Tudo neste concerto fazia sentido, desde o groove impactante de Fay Milton à performance hipnotizante de Gemma Thompson e Ayse Hassan (na guitarra e no baixo respectivamente) e sobretudo a presença da vocalista Jehnny Beth. A atitude foi crua e intensa, a música foi tocada de forma frenética e a voz era abrasiva e penetrante. Jehnny fez o melhor crowdsurf desta edição do festival e nem os saltos altos a impediram de pular e preencher o palco com um espírito avassalador. Savages foram bem dignas do seu nome e elevaram a fasquia deste segundo dia de tal modo que temi por quem fosse subir ao palco depois do que se passou.

Felizmente quem as sucedeu na programação do mesmo palco foram as Warpaint, e quem as conhece quase que pode saltar este parágrafo. A tenda estava cheia e no entanto estar no meio da multidão durante este concerto era o mesmo que estar a pairar em vácuo. O quarteto americano trouxe o seu dream pop e criou um ambiente de completa abstracção com os coros, os sintetizadores e as guitarras encharcadas de delay. A iluminação era minimalista e os painéis de fundo acentuaram o contexto místico onde se tocou “Heads Up”, “The Stall” e as obrigatórias “Love is to Die” e “New Song”.

 

 

A caminho do jantar foi possível apanhar aproximadamente metade do concerto dos veteranos britânicos The Cult, uma banda com uma discografia quase tão extensa como a lista de ex-membros. Embora tenham conseguido instalar o ambiente de rock’n’roll no Palco NOS, notou-se um evidente cansaço e até uma falta de esforço na performance de clássicos como “She Sells Sanctuary” e “Love Removal Machine”, flagrante sobretudo na voz de Ian Astbury. Foi definitivamente uma boa oportunidade para jantar e apreciar o bom ambiente, mesmo que o resultado sonoro não estivesse a par das expectativas.

O resto da noite seria passada no meio da multidão do Palco NOS, onde muitos fãs esperavam o concerto de The Kills e muitos outros faziam aquela coisa irritante de simplesmente estarem a guardar lugar para o cabeça de cartaz, passando todos os outros concertos ao telemóvel ou a olhar para o infinito. O espectáculo em si consistiu numa verdadeira lição de “how to Rock and Roll” com a professora Alison Mosshart e companhia. Percussão agressiva, guitarras cheias de groove e precisão e uma frontwoman de excelência que arrasou com a sua voz e presença, dominando todo o espaço deste enorme palco enquanto fumava casualmente. O concerto incidiu principalmente em Ash & Ice, o mais recente LP da banda, mas não deixou para trás clássicos como “No Wow”, “Tape Song” e “Love is a Deserter”, culminando numa experiência perfeita de preparação para o cabeça de cartaz.

 

 

Entre empurrões e aplausos a esmagadora maioria do público do festival esperava ansiosamente pelo regresso dos Foo Fighters, que prometiam recompensar a ausência de seis anos em território nacional com um concerto longo e especial. A expectativa era alta e qualquer fã da lendária banda norte-americana sabia que a chance de desilusão era practicamente nula, duvido no entanto que alguém estivesse minimamente preparado para as duas horas e meia que se seguiram. “Are you ready? It’s been a long time, we are gonna do it tonight!” foram as primeiras palavras de Dave Grohl para o público português antes de arrancar com “All My Life” para o que seria um concerto fora do normal até para o standard dos Foos. Vinte temas, muitas piadas, uma interacção absolutamente inacreditável com o público e uma jam session colaborativa entre uma das maiores bandas de rock da actualidade e 50 mil vozes de apoio, da qual saíram hits como “E salva Dave e salta Dave olé olé”, entre outros. Este concerto teve de tudo, desde músicas extraídas do álbum de estreia da banda aos hits do habitual, desde o single mais recente à apresentação de “La Dee Da”, uma faixa inédita (com colaboração de Alison Mosshart dos The Kills). Com uma intensidade constante tivemos “The Pretender”, “Learn to Fly” e ” Congregation”, não faltando momentos de pura beleza em faixas como “Wheels”, “Best of You” e “Everlong” para uma experiência absolutamente indescritível.

 

© Hugo Macedo / Everything is New

 

8 de Julho, dia 3

 

O terceiro e último dia do festival ofereceu um decréscimo na temperatura e na exposição solar muito bem-vindo para pessoas que assam com facilidade. No entanto Benjamin Booker foi capaz de aquecer o Palco Heineken com a sua fusão de blues, rock e soul que recebeu uma resposta bastante positiva de uma tenda a meia casa. O concerto incidiu no mais recente LP Witness, que reside no ponto de equilíbrio entre um rock quase psicadélico e o gospel que expele quaisquer demónios interiores. Sem apertos e incómodos foi possível apreciar uma visão de puro talento, num palco e hora perfeitos para a exibição intimista mas arrasadora de Booker.

Após um pequeno passeio pelas zonas mais periféricas do recinto chegámos ao Palco Coreto (no qual ainda não tínhamos estado, shame on me) para fechar um pouco os olhos e flutuar ao som de Filho da Mãe. Foi um momento de uma beleza quase celestial no qual assistimos ao típico sapateado sobre a parafernália de pedais de efeitos que elevam a guitarra de Rui Carvalho a algo fora deste mundo. Infelizmente o vôo foi curto pois o concerto só durou quinze minutos, devido às restrições temporais características do próprio palco e da sua próxima localização face ao Heineken, mas foi o suficiente para descansar e limpar o palato.

Os Imagine Dragons subiram ao Palco NOS para ocuparem aquela janela de tempo gloriosa em que o concerto começam de tarde e acaba durante a noite. A exibição foi (à semelhança da discografia da banda) bastante esquecível. Com “Demons”, “Believer” e “Radioactive” como pontos altos, aquela música da Vodafone (cuja existência me deixa perplexo como ponto baixo), solos de guitarra e bateria bastante decentes e um resto de concerto bastante “meh”.

 

 

Estava agora na hora de me dirigir ao concerto que antecipava mais no festival e que teve lugar no Palco Heineken: Fleet Foxes, o colectivo de indie folk norte-americano que regressou de um hiato com o estrondoso Crack Up lançado em Junho. Quem visse aquele concerto não saberia que estava no meio de um festival por todas as boas razões. A conversa despropositada foi trocada por um público atento e curioso e as exibições energéticas que tinham sido feitas até então deram lugar a um momento de pura expressão musical.  Este concerto foi a forma mais pura de celebrar a tristeza e uma excelente oportunidade de assistir a um nível de musicalidade que raramente tem lugar num festival de verão. Tudo o resto foi maravilhoso e portanto o máximo que posso fazer é aconselhar não só toda a discografia da banda, mas também a presença num futuro concerto que esperemos estar para breve.

Estando Depeche Mode fora da nossa lista de interesse ficámos pelo Palco Heineken, que se encheu para os Cage The Elephant e deparámo-nos com uma daquelas situações terríveis com as quais acho que muita gente é capaz de se identificar. Assistir ao concerto de uma banda que se conhece superficialmente e perceber que se teria usufruído muito mais desse concerto se se tivesse dado mais tempo e atenção à banda. As faixas obrigatórias “Cold Cold Cold” e “Come a Little Closer” serviram de clímax para a performance suada e mexida que compensou a falta de precisão nas vozes e por vezes nas guitarras, com uma interacção de excelência com uma plateia que não mostrava sinais de cansaço. Foi um final extremamente adequado para um festival recheados de boas surpresas, com uma performance energética que foi só superada pela intensidade do público a cantar as letras na íntegra e de coração.

 

 

A melhor descrição desta edição do NOS Alive passaria por mencionar o caos autêntico que se vive dentro daquele recinto e a sobre-lotação de um local que em si não oferece um cenário desejável para uma experiência de festival. Passaria por falar numa grande parte do público que claramente não podia querer saber menos da música de fundo mas veio pela conversa, pelo convívio e para dar nas vistas. Até poderia incluir um pequena crítica à feira da ladra composta por estruturas repletas de neons e todos os concursos e actividades insignificantes que lá têm lugar. No entanto, e no fim de contas, o cartaz ecléctico e de qualidade fala mais alto. A variedade musical e a forma eficaz e profissional com a qual toda essa música é entregue faz com que tudo valha a pena e o NOS Alive por muito que não tenha “O melhor cartaz, sempre!” oferece uma experiência musical diversa e de interesse. Neste festival temos não só o melhor da actualidade no panorama musical mundial como temos também uma constante alternativa viável e que pode em muitos casos surpreender o espectador aventureiro. Se isto não é razão para voltar nos anos futuros não sabemos que outras razões poderiam haver, até porque se não fosse pela música, não haveria Alive (pun intended).

 

Nota: o autor não utiliza o novo acordo ortográfico

 

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Por Ricardo Rodrigues / 21 Julho, 2017

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