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NOS Primavera Sound 2016 - Dia 2 [10Jun]

17 de Junho, 2016 ReportagensDiogo Alexandre

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NOS Primavera Sound 2016 – Dia 3 [11Jun2016] Fotogalerias

NOS Primavera Sound 2016 – Dia 2 [10Jun2016] Fotogalerias
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O segundo dia de Primavera Sound começou com João Vieira (que havia tocado com os X-Wife no warm-up do festival dois dias antes) e os seus White Haus a mostrar o quão bem se encontra a música feita em Portugal. As influências Disco dos anos 80 são notórias, tão notórias como aquelas existentes na música de uns Daft Punk ou LCD Soundsystem (que nada têm em comum, ou têm?), mas nada disso importa quando escutamos verdadeiros malhões como “How I Feel” ou “All I Ever Wanted”, dignos de representarem o nosso país nas maiores e mais populares pistas de dança mundiais. Foi aproveitada a deixa para se estrearem novos temas que, desde já, aprovamos.

O público do festival, claramente, não fez jus à qualidade do que ali se escutava, permanecendo sentado ou falando convulsivamente com os seus amigos do lado. É verdade que ainda era cedo mas quando a música é boa é impossível ficar quieto, aqui esse princípio não se aplica: é melhor ficar quieto quando a música é boa. Nós não ficámos, condenem-nos!

whitehaus-9 White Haus

Seguimos para o palco do lado, de modo a apreciar o regresso de Cass McCombs que já começa a ser presença assídua no nosso país. Depois de um NOS Alive, em  2014, e de mais uns quantos concertos em nome próprio pelo país nesse mesmo ano, calculámos que Cass viria apresentar maioritariamente Mangy Love, com lançamento previsto para daqui a, sensivelmente, dois meses, mas de Mangy Love apenas se escutou a bela “Opposite House”, primeiro single do álbum e único conhecido até ao momento. Em vez disso, McCombs aproveitou para “reciclar” temas antigos, dando-lhes novas roupagens com frequentes jams pelo meio.

Cass é um frontman discreto, parecendo não ligar à quantidade de pessoas com t-shirts de Brian Wilson envergadas na frontline (nem à bateria da banda suporte de Brian por detrás da do próprio), movimentando-se, calmamente, pelo palco grande do festival e de guitarra envergada, fazendo-nos lembrar, vagamente, em alguns temas, um David Gilmour mas sem chegar à mestria do britânico. Fita os portugueses, canta e volta à elaboração de bons instrumentais. Foi isto o que aconteceu nas seis canções apresentadas. “Country Line”, que tem pouco mais de 5 minutos em estúdio, ganhou uma duração de mais de 9 minutos ao vivo, encerrando a sua aprazível atuação. O público estava ali por outro. Agradou mas não convenceu.

destroyer-3 Destroyer

Falando em longas canções, é com a inesperada “Bay Of Pigs”, épica faixa final de Kaputt, magnum-opus destes Destroyer, na plenitude dos seus 11 minutos, que Dan Bejar conta a história da sua vida: “I was 20 years old in 1992”. E remata para golo concretizado, diga-se, um concerto impecável, terminando com a dupla de metais a guiar o espírito das muitas almas que dançavam na encosta do Parque da Cidade e com o próprio Dan, munido de toda a sua classe, a soltar o corpo face às boas vibrações que provinham tanto de palco como da plateia. O concerto percorreu tanto Poison Season, Kaputt, como também Destroyer's Rubies, aquando da interpretação de “European Oils”, cantada em uníssono por um público que se mostrou sabedor de grande parte do reportório. Revivalismo da pop sofista dos anos 80 com todo o seu charme e com qualidade lírica Wildiana à séc-XXI, ao pôr-do-sol, cantado e assumido por um vocalista experiente de 43 anos que parece ter 30. Era disto que o Primavera precisava e foi isso que teve, felizmente.

Ainda com as boas vibrações do concerto anterior no ar (sim, que aqui os intervalos de palco nem sequer dão para se fumar um cigarro), deslocamo-nos para aquelas que, supostamente, seriam as boas vibrações assumidas. Brian Wilson e a sua big band (qual José Cid) entram em palco às 20h em ponto para nos mostrar como era a época áurea da música analógica, gravada em fita, e do LSD legal.

Poucos dias antes foi transmitido no canal Odisseia um documentário intitulado Soundbreaking, que falava sobre a importância dos gravadores de quatro, oito, dezasseis pistas para a elaboração de obras-primas plenas em overdubs como Pet Sounds (The Beach Boys) ou Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (The Beatles), e do quão influentes foram, não só mas principalmente, estes discos para a música pop a ser realizada posteriormente. A expectativa estava em alta, portanto, e poder ouvir um disco tão definidor como Pet Sounds, ao vivo, foi algo que nunca nos passou pela cabeça. A verdade é que este concerto viveu sobretudo disso: a expectativa concretizada de podermos não só cantar as canções do tal álbum, mas também hinos surfistas que todos conhecem, desde a pessoa mais jovem até à mais idosa.

Brian Wilson serve como mestre de cerimónias para que a sua banda suporte interprete quase na perfeição os clássicos outrora tocados por ele, mas a idade já não dá para mais. As dificuldades de Brian Wilson em cantar, tocar, andar, falar ou fazer qualquer outra coisa foram perceptíveis, não que isso interferisse com o concerto em si, mas porra, saímos do espectáculo com a sensação de estar a ver uma banda de covers super competente a interpretar temas por detrás do maestro, sentado num suposto piano e sem sequer marcar o tempo. Al Jardine, também ele ex-Beach Boy, mostrou a sua competência enquanto guitarrista, centrando em si as atenções enquanto Brian quase adormecia ou se limitava a observar calma e serenamente aquilo que se passava em seu redor.

Temas como “I Get Around”, “Wouldn't It Be Nice”, “God Only Knows” (apresentada como uma canção de que o Paul McCartney gosta muito, trouxe-nos uma lágrima ao canto do olho), “Good Vibrations” e “Surfin' U.S.A.” foram capazes de meter as mais de vinte mil pessoas - dos 5 aos 75 anos, como já foi referido, que encheram o recinto para poder apreciar o dinossauro da música pop americana - ao rubro, a cantar e a saltar como se estivéssemos em 1966. A divertirem-se. “Fun Fun Fun” foi espelho disso e termina da melhor maneira a hora e quinze de concerto. Se ficámos frustrados? Sim, um pouco. Mas não nos arrependemos: vimos de perto dois Beach Boys acompanhados por uma banda suporte competentíssima (aqueles falsetes estavam no ponto). Recordámos, cantámos e divertimo-nos. No final de contas é isso que importa.

brianwilson-10 Brian Wilson

De regresso ao palco Super Bock, damos de caras com uma Jehnny Beth endiabradíssima, mexendo-se desenfreadamente de um lado para o outro, instigando o público português à dança, dizendo para nós (portugueses) dançarmos o que ela não poderia dançar devido a uma dor nas costas. A verdade é que com dor ou sem ela, Jehnny foi rainha da noite, aventurando-se no crowdsurf por diversas vezes e durante longos períodos de tempo, num dos quais chegando mesmo a cair desamparada no meio do chão, levantando-se pouco tempo depois para mais uma sessão de crowdsurf.

As Savages não olham a meios para passarem a sua mensagem, dirigindo-se direta e abertamente ao público, servindo-se de linhas de baixo pesadas e rápidas, de uma bateria em apoteose estéril, de uma guitarra controlada q.b. e de uma voz feminina grave: tudo aquilo a que o pós-punk tem direito. As londrinas gozam já de uma espécie de culto no nosso país, estando cá diversas vezes por ano e, inclusive, tendo escolhido o LX Factory, em Lisboa, para gravarem o video de “The Answer”. O público português já é conhecido das inglesas e elas sabem o que podem fazer por cá, demonstrando-se tão à vontade que nem os problemas físicos da cantora a impediram de vir cantar e cumprimentar os seus fãs, no meio destes.
“(Don't Let The) Fuckers (Get You Down)”, dez minutos intensos, escritos e tocados pela primeira vez quando o quarteto passou pelo mesmo festival há três anos, confessa Jehnny, encerrou a atuação de modo enérgico, tão enérgico que optámos por nos manter fiéis às britânicas até ao final do concerto, perdendo a atuação dos Floating Points que, calculamos, tenha sido igualmente fantástica mas não tanto como o que acontecera aqui. Está provado: em Portugal as Savages jogam em casa!

savages-29 Savages

A nossa primeira incursão do fim-de-semana ao Palco agora denominado por “.” aconteceu durante o regresso dos Mudhoney ao nosso país - nove anos após a sua estreia no Paradise Garage, em Lisboa - e debitaram aquilo que de melhor o grunge tem para mostrar, equilibrando novos clássicos com os antigos.

Os Mudhoney são quatro, os mesmos quatro desde há dezasseis anos e os mesmos três desde há vinte e oito. São figura-proa, frequentemente olvidada, de um dos movimentos mais badalados do século passado, o já referido grunge. Subiram ao palco sem grandes cerimónias, postura rock (fuck it!), e só param quando são obrigados a parar, avançando música atrás de música, levando o ouvinte até aos limites do mosh pit aceitável, obrigando-o a sujar-se (e só não nos sujámos mais porque o piso estava molhado). Passaram por temas como “Suck You Dry” (logo a abrir, assim de surra!), “I Like It Small”, “Touch Me I'm Sick” e terminaram tudo com o encherto de porrada que é “The Only Son Of The Widow From Nain”, do seu mais recente Vanishing Point, em que Mark Arm grita que vai voltar para mais (“I'm coming back for more!”). Mas não voltou, com muita pena nossa.

_MG_7307_DONE Mudhoney

Das pessoas despenteadas à procura dos seus pertences desaparecidos durante a ebulição dos Mudhoney (que ganham o prémio de maior e mais intenso mosh pit deste segundo dia de festival), passamos à fineza do público de Tortoise. Um nicho de público foi criado à uma da manhã que por ali ficou até ao término do concerto mais de uma hora depois. Não houve mudança significativa de público, o mesmo não podemos dizer da banda, em que os seus membros estavam constantemente a trocar de instrumento e, consequentemente, de posição em palco.

Quando John Herndon e John McEntire se sentam, frente a frente, cada um com o seu respetivo drum kit e iniciam “High Class Slim Came Floatin In” somos transportados para os clubes de jazz em Chicago, frequentados por nomes tão díspares como Rob Mazurek e Chad Taylor, Anthony Braxton ou até o próprio Pharoah Sanders, mas aqui estamos no Porto observando aquele que é um dos mais importantes coletivos jazz a sair de uma área tão prolífica nesses campos como é o estado de Illinois. Os Tortoise não são jazz puro, nem eletrónica, nem rock, são catalogados como pertencentes à primeira fase do pós-rock (compreende-se: o próprio “Spirit Of Eden” dos Talk Talk é influenciado por Miles Davis), mas não nos limitemos ao género (até porque eles não se devem preocupar muito com isso), os americanos são incatalogáveis, tão nómadas musicalmente que conseguem ter discos lançados pela Thrill Jockey, Warp e até mesmo pela Domino. Terminam este ano com o interregno de sete anos a que forçaram os seus ouvintes, voltando em força com The Catastrophist, lançado no passado mês de janeiro. O álbum foi peça central da primeira parte do concerto em temas como “The Catastrophist”, “Shake Hands With Danger” e “Gesceap”, todas tocadas para uma plateia atenta, mesmo apesar de todo o transtorno sonoro que vinha do palco um pouco mais abaixo onde tocavam Kiasmos, incomodando não só o público como também a própria banda que fez pausas maiores do que as habituais na esperança de que o duo islandês terminasse rápido a sua atuação. Lá acabou por terminar e a partir daí foi sempre a abrir, sem grandes conversas, só a música importa, a mesma música que uniu umas boas centenas no Palco ex-ATP para apreciar as brincadeiras musicais e desafios rítmicos propostos por estes Tortoise.

Em constante alteração de posições e com uma incrível panóplia de instrumentos disponíveis, dos quais se destacava o vibrafone (que tão bem ecoou na encosta mais alta do recinto), os americanos passaram por quase todos os seus discos de estúdio, sempre com a classe a que nos habituaram, guardando os trunfos para o fim: “In Sarah, Mencken, Christ and Beethoven There Were Women and Men” e a espantosa “Crest” finalizam magistralmente a hora fornecida pela organização ao quinteto, fazendo-nos suspirar por mais e sair meio na lua meio na Terra diretos para o meio da floresta. Deitámo-nos, que já se fazia tarde, pensámos e levantámo-nos para recuperar energias e aguentar as restantes atuações que ainda por aí vinham, não só nesse dia como no dia seguinte. Mas garantimo-vos uma coisa: nenhuma das quais terá sido tão apaziguadora e desafiadora como esta. Percebemos na altura e concluímos agora. Venham milhões de Tortoises para o meu jardim que eu não as deixo morrer.

_MG_7422_DONE Toirtoise

Os live-acts terminam no palco Pitchfork com a atuação de Roosevelt, nome artístico de Marius Lauber (acompanhado por um baixista e um baterista ao vivo), detentor de um Chillwave que, como é habitual no género, se inspira nas batidas sintetizadas da pop dos anos 80, tornando-as um pouco mais sonhadoras e adocicadas. Ainda sem nada editado (o LP sai dia 19 de agosto), o trio fez dançar as muitas pessoas que ainda não se sentiam prontas para rumar às suas habitações e aproveitou-se do término do concerto dos Beach House para angariar mais um bom número de curiosos, antecedendo The Black Madonna que encerrou, em definitivo, este dia de festival com o seu house de Chicago. A dança só pararia às 6h.
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