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NOS Primavera Sound 2016 – Dia 3 [11Jun]

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Sábado, último dia da semana e último dia de festival, viu os Manel trazerem um pouco de Barcelona até ao Porto ao apresentarem os seus temas diante de uma plateia maioritariamente catalã que sabia as letras de cor e fez questão de os acompanhar. Liderados por Guillem Gisbert, a banda espanhola não teve grande sucesso junto do público português, que preferiu passear pelo recinto e/ou esperar pela atuação dos Linda Martini no outro palco em vez de apreciar o indie rock dos catalães. Porém, a festa foi feita na mesma língua com todos os fãs espanhóis a cantar e dançar defronte do único palco ativo às 17h. Foram 40 minutos solarengos que nos entreteram e mostraram que em Espanha não é só flamenco e “Asereje”, e que há bandas novas de qualidade na terra de nuestros hermanos, terminando com uma dança sincronizada por parte do quarteto. Contudo, comparando estes Manel com os Sensible Soccers ou com os White Haus (bandas de abertura dos outros dias), percebemos quem ganha no campo musical peninsular.

O banner de Sirumba, novo álbum dos Linda Martini, estava exposto desde a abertura de portas do festival mas foi somente às 17h55 que a banda lhe deu natural uso. Com uma plateia bem mais composta do que a dos Manel, mas ainda muito despida comparativamente com os dois dias anteriores, os lisboetas aproveitaram a sua segunda incursão pelo festival para apresentarem o seu novo disco aos festivaleiros, abrindo o concerto com “Dez Tostões” e debitando o single do mesmo, “Unicórnio De Sta. Engrácia”, logo à segunda música. Sem nos querermos debruçar sobre os trabalhos mais recentes desta que era uma das maiores promessas da música portuguesa no final da década passada, resta-nos dizer que estes Linda Martini são uma sombra daquilo que poderiam ter sido. Ainda que não sejam completamente maus, o potencial desvaneceu-se, piorando de álbum para álbum e o single deste Sirumba é a cereja no topo do bolo da mediocridade. Não obstante tudo isso, foram capazes de proporcionar um bom concerto, com uma boa interacção com o público algo disperso deste Primavera, munindo-se de temas infalíveis conhecidos por todos nós, tais como “Amor Combate”, “Belarmino Vs.” e até a própria “Ratos”, que teve honra de mosh pit, apesar de muito criticado por um senhor algo descontrolado que se situava na zona fronteiriça da plateia.

Já sem o valentão dos desacatos (que chegou a oferecer porrada aos rapazes que não faziam mais do que divertir-se) e no encore, “100 Metros Sereia”, fornece o maior mosh pit que o Palco NOS viu nesta edição de Primavera Sound, terminando com grande parte dos fãs a entoarem as suas palavras de ordem (“foder é perto de te amar se eu não ficar perto”) num coro invejável e com Hélio Morais (baterista) e Pedro Geraldes (guitarrista) a aventurarem-se no crowdsurf após o término da mesma.

Bloc Party com Young Fathers? Amigos, os Algiers chegaram e prometem muito! Com apenas um disco lançado, demonstrar esta potência sónica e à vontade em palco é obra. O quarteto usou e abusou das influências negras da sua música, dando-lhes uma nova cara (quase como se o gospel se fundisse com as guitarradas de uns The Gun Club). São quatro e não poderiam ser mais: o baixista/mestre dos sintetizadores e campeão da dança contemporânea, Ryan Mahan, vale por vinte, transmitindo um feeling aos espectadores quase como que a pedir-lhes para se juntarem à festa. Apesar disso, Franklin James Fisher não perde protagonismo e assume papel principal de comunicador, de pandeireta na mão, a controlar os pedais de distorção vocal equilibrados à sua frente, dirigindo-se ao público não só vocalmente como também através da sua linguagem corporal e visual, mostrando-se rei e senhor da multimodalidade de comunicação. Sempre apetrechado com o seu bonito timbre e amplitude vocal, faz-nos lembrar um Kele Okereke do início. O baterista, esse, não só nos faz lembrar Matt Tong como é mesmo o próprio, agora a assumir a camada rítmica nestes Algiers.

Canções como “But She Was Not Flying”, “Blood” e “Games”, esta a fechar o surpreendente concerto dos norte-americanos, ganham um cabedal imensurável ao vivo: muito mais rock, muito mais dançável. No ano em que os Bloc Party gravam o epitáfio chamado Hymns na sua lápide, surgem os Algiers para nos fazer acreditar que ainda há música realmente surpreendente a sair nos dias que correm.

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Em quinze anos de carreira poucos ouviram falar deles, nunca tiveram um grande hype e passaram sempre despercebidos num circuito atolado de lixo pretensioso. Três álbuns depois, curiosamente lançados sempre com um interregno de seis anos entre eles, o trio de Los Angeles, que agora é distribuído pela Columbia, dado que a sua editora anterior (ATP) anunciou o fim após quinze anos de existência, apresenta-se aos portugueses com disco recém-lançado e desconhecido por todos, sendo, mesmo assim, muito bem recebidos. Nem o fraco slot em que foram colocados lhes tirou o público merecido.

Os Autolux mostraram-se bem oleados e capazes de lidar com uma plateia de desconhecedores da sua arte, fazendo uso da dualidade vocal de Greg Edwards (também guitarrista) e Carla Azar (também baterista) em autênticos malhões como “The Science Of Imaginary Solutions”, “Blanket”, “Turnstile Blues” e “Reappearing”, esta encharcada de feedbacks e dissonâncias, encerrando a hora de actuação do melhor modo possível. Nem “Soft Scene”, faixa claramente mais electrónica a lembrar uns Radiohead do Amnesiac (ou até os projectos a solo de Thom Yorke), soou incongruente num alinhamento que passou por todas as fases da banda. Logo após o término da actuação, Eugene Goreshter (baixista) veio falar com os seus fãs e entregar umas boas dezenas de palhetas personalizadas a quem se interessou pela sua banda. Sem dúvida uma das surpresas deste festival.

Permanecemos no local do crime: os Drive Like Jehu preparam-se para apresentar, pela primeiríssima vez no nosso país, grande parte daquele que é considerado um dos discos basilares do pós-hardcore e ainda umas quantas canções do seu primeiro álbum homónimo. Na plateia vemos t-shirts de Fugazi, Dag Nasty, Sonic Youth e até um cap de Madball, e mal se escuta o primeiro acorde de “Super Unison” o público explode num misto de alegria e emoção que nunca mais abrandaria, cantando e saltando durante, praticamente, todas as canções, exaltação essa que viu o seu ponto forte durante os seis minutos impetuosos de “Here Come The Rome Plows”.

drivelikejehu-7Os americanos tiveram uma curta carreira – duraram somente de 1990 até 1995 (cinco anos, dois discos) – influenciando nesses cinco anos uma juventude que mais tarde traria o pós-hardcore às massas (lembramo-nos de uns At The Drive-In e de uns La Dispute). Cinco anos que cravaram os Drive Like Jehu na história da música moderna e que vemos e ouvimos agora em desfile pela maior cidade a norte do rio Guadiana.

Rick Froberg não é homem de muitas conversas, nunca o foi, mas preserva uma atitude em palco devastadora, mesmo apesar dos seus quarenta e oito anos: quando o espírito existe a idade não o mata. Após “Bullet Train To Vegas”, que incendiou o mosh pit que tardou mas chegou, a banda agradece ao público por ter vindo, dizendo que é por eles que conseguem ser chamados para tocar em sítios tão lindos como este, atirando-se, em seguida, para a canção que encerraria o concerto: “Luau”, também de Yank Crime, foi a escolhida. Dez minutos apoteóticos que terminaram com guitarras a voar e uma satisfação visível na cara das largas centenas de pessoas que preenchiam o Palco.. “Aloha, aloha, suit up! Luau, luau, luau, luau” uau!

Ainda com o hardcore no sangue, rumamos ao palco Pitchfork para admirarmos a vinda dos Unsane a terras lusas. A banda liderada por Chris Spencer despejou um noise-rock bruto, oriundo do hardcore dos anos 90, com potentes bass lines e riffs de guitarra capazes de levantar os mortos do chão. “Against The Grain” foi libertada logo no início, antecedendo um set seco, furioso, passando por todos os singles da banda lançados durante a sua fase Relapse Records e ainda uma incursão a um cover dos Flipper, deuses do noise-rock dos 80s, “Ha Ha Ha” foi a escolhida. Não houve pit (o público era demasiado escasso para tal) mas o som elevadíssimo compensou a falta de movimento. Neste caso o mosh foi i
nterno: aconteceu nos nossos tímpano e perdurou até ao final do concerto seguinte.

O asteróide Shellac não se privou de mais uma passagem pelo festival, um festival que em cinco anos os viu actuar por cinco vezes, demolindo, mais uma vez (nunca falha!) a cabeça, o tronco e os membros daqueles que no epicentro do impacto se encontravam.

O que há para dizer de Steve Albini que ainda não tenha sido dito? O homem é um exímio produtor, engenheiro de áudio, conta com um currículo invejável, tem uma editora (Touch And Go) composta apenas por edições acima do incrível, aventura-se (ou aventurou-se) oficialmente em bandas como estes Shellac, Big Black ou Flour e não-oficialmente noutras tantas (mais do que aquelas que imaginamos), e, aparentemente, um animal de palco e stroyteller nato, capaz de conduzir uma plateia inteira (que superou em números aquilo que estávamos à espera) por todas as emoções desejadas, desde o silêncio mais devastador até ao frenesim truculento em faixas nunca acabadas ou então bem acabadas, é como o ouvinte quiser interpretar.

Os norte-americanos visitaram toda a sua discografia, focando-se, obviamente, em Dude Incredible, o seu último registo, mas passando também por clássicos como “My Black Ass” (de At Action Park, o seu debut), “Squirrel Song” (de 1000 Hurts) e “Copper” (única de Terraform). Albini não se assume estrela destes Shellac que vivem não só da sonoridade sacada das guitarradas do vocalista, mas também das fortíssimas linhas de baixo de Bob Weston e do espetáculo rítmico proporcionado por Todd Trainer. É da simbiose dos três elementos que se cria a máquina sónica que estes Shellac foram, são e serão durante os próximos anos. Prova disso é “The End Of Radio” que tem tanto de minimal como de genial, transportando o público para universos paralelos sobre uma bass line de três notas que ecôa pelo recinto durante mais de dez minutos, sem nunca fastidiar o ouvinte. Isto é difícil de se fazer, porra!
“This microphone turns snare drum into electricity” ouvimos Albini proferir, enquanto Todd eleva a sua tarola e lhe bate (sim, é este o verbo a aplicar) com uma baqueta na mão direita, virado de costas para o público e fazendo-a ressaltar para o mesmo. Não sabemos quem foi o feliz contemplado mas a tarola não foi de certeza.

De realçar que o volume do som, por esta altura, já se encontrava acima dos limites humanos, não sabemos se propositadamente ou não, mas acreditamos que sim. O trio quis marcar território dentro e fora de portas e nós aceitámos de braços e ouvidos bem abertos. Um concerto em crescendo tanto em energia como em volume sonoro. Se há banda merecedora de ser residente em qualquer festival que sejam os Shellac, nunca desiludindo de ano para ano. Venham mais cinco!

A terminar a nossa estadia no festival vemos um australiano aos pontapés a garrafas de água e a gesticular freneticamente de um lado para o outro do palco, de olhos fechados e algo recatado, apoiado por mais três músicos que pouco se manifestaram durante o concerto. O mais efusivo e sempre com uma atitude algo apressada e de quem não quer saber do público (temos avião para apanhar e só viemos aqui pelo guito) era mesmo Shogun, vocalista dos Royal Headache, que lá ia cantando, muitas vezes desafinado, em cima de um proto-punk raçado de garage. Com um set de 1 hora disponível, despacharam o assunto em 35 minutos, despedindo-se de uma plateia ainda meio atordoada com o que se passava com um simples “thank you”, antes de desaparecerem, tão rápido como chegaram, pelas laterais do palco. É triste mas foi assim que o festival terminou.

Para trás ficaram três dias onde se viu grandes concertos de grandes bandas, muita diversão e, acima de tudo, um bom ambiente (mesmo com os espanhóis a quererem comentar tudo o que vêem) e um bom clima (tal como afirma o nosso Rui Reininho). Para o ano há mais.

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Por Diogo Alexandre / 18 Junho, 2016

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