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O Hip-Hop no Primavera Sound Barcelona

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Vince Staples © Primavera Sound / Dani Canto

Até há uns anos atrás, o Hip-Hop foi muitas vezes visto como “música chunga” e era quase senso comum grande parte dos festivaleiros portugueses preferir qualquer banda alternativa ou de rock a um bom artista de hip-hop. Se há algum grande festival generalista que teima em apostar em artistas capazes de acabar com esse mito, esse festival é o Primavera Sound. Este ano ficou desde cedo marcado pelo cancelamento de Freddie Gibbs – por uma alegada acusação de violação -, o que coloca em risco o concerto do mesmo no festival irmão, no Porto.

Vince Staples trouxe o seu mais recente álbum a Barcelona: Summertime ’06, e que álbum é esse! Se já em estúdio é bom, então ao vivo torna-se absolutamente delicioso e um excelente aperitivo para o que ainda se avizinhava do mesmo estilo nos dias seguintes. O artista trouxe os seus instrumentais e a sua lírica que, goste-se ou não, passa uma mensagem bem clara e contagiante para todos os ouvintes, já que é verdadeiramente impossível ficar indiferente a músicas como “Señorita” ou “Lift Me Up”. Sempre muito mexido e interativo, o californiano mostrou com uma energia fora do comum e um coração repleto de soul que não é um rapper qualquer, reconhecendo-se a alma que impõe ao seu trabalho em quase todas as músicas. É precisamente numa das em “Summertime” que se melhor reconhece esse tom, sendo também aí que o concerto encontra o seu ponto mais alto. Engatada a maquinaria da faixa supracitada, nem trinta segundos depois o rapper muda radicalmente para “Blue Suede”, numa passagem completamente genial para o último tema do concerto.

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Pusha T © Primavera Sound / Dani Canto

A jornada pelo hip hop prosseguia e encontrávamos Jay Rock. Rapper da Top Dawg Entertainment, com já imenso trabalho editado, contando pelo meio com excelentes colaborações com artistas como Kendrick Lamar ou Schoolboy Q, acabando por ser talvez a desilusão do festival no que ao Hip-Hop diz respeito. Para além de ter durado menos de 45 minutos, quando seria de esperar que atuasse cerca de uma hora, o concerto ficou basicamente limitado a algumas canções, precisamente de Kendrick Lamar e Schoolboy Q (a dúvida ficou mesmo quanto a tudo aquilo ser um concerto ou um DJ Set). Jay Rock lá acabou por apresentar alguns dos seus temas, todos de 90059, álbum lançado em 2015, à exceção de “Hood Gone Love It”. Mas, mesmo nestes temas, o artista lá fazia a sua parte e depois ficava quase como parado enquanto o seu DJ deixava tocar o resto da música. Fraquinho, fraquinho.

Se por um lado Jay Rock foi uma desilusão, Pusha T arrasou a concorrência. Amigo de Kanye West, e uma das grandes apostas da Pitchfork no seu palco, tinha uma plateia completamente em êxtase e ansiosa para o ver, e nem com um concerto de  PJ Harvey quase em simultâneo foi razão para aquela multidão  desistir de o ver. Veio apresentar o seu mais recente álbum, “King Push – Darkest Before Dawn: The Prelude”, aproveitando ainda durante a atuação para apresentar o seu novo disco – do qual já se conhece single -, que acabou também por ser apresentado ao vivo neste espetáculo. Num palco extremamente elaborado visualmente, com duas cruzes penduradas e com o texto em néon: “Sin will find you out”, o rapper deu um verdadeiro show de carisma, atitude e interação com os fãs, não sobrando nada que se lhe pudesse apontar. Sempre com o apoio do seu DJ, mas claro, com o seu trabalho instrumental no trap inconfundível, foi fazendo a delícia de todo um palco que estava completamente a rebentar pelas costuras, havendo pessoas num parapeito ali perto, na ânsia de conseguirem espreitar alguma coisa para o palco. E como se excelentes canções tais como, “M.F.T.R”, “M.P.A” ou até mesmo “Untouchable” não bastassem, o rapper ainda deixou os fãs na total loucura quando puxou do microfone para cantar “So Appalled” (de Kanye West), havendo ainda um espacinho para um pouco do que é a sua parte na icónica “Runaway”. Sem margem para dúvidas, este foi o concerto que mais encheu as medidas a quem procurava hip-hop no festival.

Como última paragem tivemos no palco Primavera o albano-americano Action Bronson. Foi logo a seguir a Pusha T, portanto se já havia fãs expectantes no palco Primavera, os outros vieram do palco Pitchfork. Com um estofo e uma carreira já bastante sólida, o rapper apresentou ao público o seu mais recente trabalho Mr. Wonderful. No que foi cerca de uma hora e num estilo mais simplista e sem excentricidades, o rapper foi sempre interagindo com o público, metendo todos a mexer e a dançar bem mais do que em qualquer outro concerto a que assistimos. Foi uma performance recheada de momentos em que Bronson ordenava ao seu DJ que parasse de forma a poder arriscar o seu freestyle, este que por sinal deliciava o público. Foi tempo depois de colocar o público a cantar, puxando Bronson a terminar com um dos seus melhores trunfos: “Actin Crazy”, num momento incrível, com um grande agradecimento ao seu DJ que deixou o instrumental com uns baixos fortíssimos. Faltava só tocar “Baby Blue” e o artista acedeu tranquilamente ao pedido dos fãs e, quase que como sobrando apenas o instrumental, virou o microfone para a plateia e deixou o público cantar. Agradeceu e prometeu voltar.

A aceitação destes géneros musicais neste festival é um excelente exemplo do crescimento que tem tido nos últimos anos. Palcos cheios, boa receção e um estilo diferente que cai muito bem à noite, antes ou depois de um cabeça de cartaz mais tradicional.

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Action Bronson © Primavera Sound / Xarlene

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Por João Neves / 9 Junho, 2016

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