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O Sol Da Caparica 2015 • A música lusófona bem viva

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Falhada a primeira edição, chegou a vez de nos estrearmos à segunda. O festival da Lusofonia Sol da Caparica revelou-se um sucesso, tanto em termos da relação preço/oferta como em termos das vendas, já que, pela informação que nos foi transmitida pelo Presidente da Câmara, o último dia esgotou.Uma excelente indicação de que a música portuguesa está bem viva e em grande forma.

Logo no primeiro dia deparamos-nos com concertos incendiários: o senhor Paulo Furtado, mais conhecido por Legendary Tigerman, incendiou o palco Blitz com uma atitude bastante “Fuck Off!” (citando Cramps), divagando pelas faixas de True acompanhado por um baterista (Paulo Segadães), um saxofonista (João Cabrita) e um teclista (Filipe Costa). Não se olvidou contudo de verdadeiros clássicos como “Gonna Shoot My Woman” e “& Then Came The Pain”, sabiamente intercalados com as mais recentes malhas. “21st Century Rock ‘n’ Roll” revela-se cada vez mais um hino e a versão extendida da canção (com direito a microfone atirado estrondosamente ao chão) foi entoada de alma e coração pelos que por ali permaneceram. Paulo Furtado avisara “se vocês não gostam de blues e rock ‘n’ roll vai ser uma noite fodida”. Só ficou quem quis, e fizeram bem.

Pouco antes atuara Camané, tendo o fadista com já mais de 20 anos de carreira provado que o fado pode marcar presença em festivais. Com um público que, claramente, não era o dele (algo desrespeitador inclusivé), potenciou um bom concerto, perante os possíveis, interpretando canções não só da sua carreira como fadista, mas também outras mais ligadas à cultura pop. Foi o caso de uma versão de “Ouvi Dizer”” do seu amigo Manel Cruz e de duas canções dos Humanos, projeto no qual, a par de David Fonseca e Manuela Azevedo (Clã), contribuiu com a sua voz. “Adeus Que Me Vou Embora” encerrou, na perfeição, um curto mas bom concerto. Gabamos a coragem da organização em agendar um fadista tão conceituado para abrir o palco principal de um festival de verão. Afinal, nada melhor do que abrir um festival de música portuguesa com a música mais portuguesa de todas.

Recuamos 30 anos no tempo para vermos uns dos pioneiros do Rock português: os UHF. Com pouco mais de uma hora de atuação e o palco já atrasado, os hits vieram todos ao de cima, faltando apenas “Sarajevo” e “Modelo Fotográfico” para a panóplia ficar completa. Com extensas intervenções políticas e de teor social pelo meio, os UHF são das bandas ativas que mais fiéis às origens permaneceram… contrariamente aos seus contemporâneos do boom do rock português, o espírito não se perdeu. Ouviram-se covers de José Afonso (“Vejam Bem”) e Vitorino (“Menina Estás À Janela”), sempre com o seu cunho sonoro. Prova-se que os UHF já atravessaram a barreira das gerações, podendo observar-se pais e filhos cantando “Rapaz Caleidoscópio”, “Cavalos De Corrida” ou “Rua Do Carmo”, que encerrou o concerto. Quem tem saudades de 1981? Nós tivemos e nem sequer éramos nascidos na altura.

No segundo dia, à mesma hora dos rockeiros do primeiro dia, surgiam outros amantes do rock, estes de teor mais experimental, chamados PAUS e Linda Martini. Os primeiros ainda apalparam terreno na plateia que, estranhamente, os desconhecia quase por completo. Com dois álbuns na calha e a hora cedida da praxe, os PAUS fizeram o que de melhor sabem fazer, intercalando simetricamente as canções desses mesmos dois discos. Uma nova, uma antiga, uma nova, uma antiga, até acabar na mais antiga de todas: “Pelo Pulso” fechou a festa, talvez cedo demais, pois o concerto terminou no momento em que o público começou a aquecer. Algo insólito, quiçá devido ao facto do baterista (Hélio Morais) também pertencer à banda seguinte e necessitar de algum tempo para descansar. Tudo são suposições, mas a verdade é que os PAUS nem à hora de atuação chegaram. Pelo meio vemos a mãe de Hélio exibindo um cartaz de motivação ao filho, que muitos sorrisos soltou na plateia. Foi curto mas convenceu.

Os Linda Martini provaram que são cada vez mais uma banda para as massas (como se o disco lançado pela Universal não chegasse), contribuindo para a maior enchente daquele palco até então. Por incrível que pareça (ou não), foram as malhas de Turbo Lento as que mais se entoaram na noite. Das antigas, a única que superou as faixas do seu último registo discográfico foi, como é óbvio, “Amor Combate”: a faixa que introduziu a banda ao mundo.

Não querendo fazer pré-julgamentos, tendo em conta a idade dos presentes e as músicas mais cantadas, parece que a antiga fanbase se dissolveu com o passar dos anos, contando agora com uma nova base mais virada para a Rádio Comercial do que para a Antena 3. O mosh, sempre exagerado, marcou presença em quase todo o concerto mas foi em faixas como “Cem Metros Sereia” (que terminou o set regular) e, no encore, “O Amor É Não Haver Polícia”, que tomou maior proporção, onde os presentes teimaram em abrir o pit ou nas partes mais melódicas ou, precisamente, quando a música termina, demonstrando um total desconhecimento das canções. Apesar disto tudo, os lisboetas provam porque razão são tão amados e providenciam um bom concerto deixando o público sedento por mais. O público bem pediu outra mas já não havia tempo.

Por volta das 20h, no Palco SIC/RFM Paulo Flores trazia o espírito dos PALOP ao recinto do Sol da Caparica. Com a forte comunidade africana presente, dançando e cantando, este foi um dos concertos mais prazerosos de assistir, com uma verdadeira comunhão entre o artista e o seu público. Ouviram-se verdeiros clássicos da música angolana, sembas e kizombas (os verdadeiros e não os zouks) foram frequentes ao longo do espetáculo. “Mar Azul” (aqui sem Yola Semedo), “O Povo” (resgatada de 1990) e “Poema do Semba” meteram todos a dançar o melhor que podiam mas foi com a rápida “Isua Ioso” que o músico encerrou o concerto. Uma hora das mais bem passadas de todo o festival. É África, é música!

Mantendo as raízes em África (e já no terceiro dia) chegam-nos os Batida (ou o Batida, já que é como que um projeto a solo de Pedro Coquenão), trazendo uma forte mensagem política que, infelizmente, passou despercebida a grande parte parte do público. Ironia das ironias, visto os Xutos & Pontapés trazerem o mesmo tipo de mensagens políticas no início de carreira. Coquenão intercalou grande parte da sua música com vídeos explicativos sobre o sistema capitalista (Pobre e Rico) e, mais incisivamente, sobre o cativeiro de 15 jovens ativistas angolanos suspeitos de tentativa de deposição do governo e destituição do presidente da república, declarando também que o seu colaborador Ikonoklasta estava entre os 15 presos nos subúrbios de Luanda. No final do concerto trouxe máscaras com as caras dos tais jovens, preenchendo o palco com as suas figuras.

Após “Alegria” e brincando com o cliché dos encores, Batida remata com “Querem mais uma? Não, sim, não, sim… então vá, vai ser tipo democracia: quem está no poder decide”, atirando-se a “Luxo” e encerrando em definitivo a sua atuação no Sol do Caparica, uma das melhores do festival que pecou apenas pelo público #YOLO do recinto. “Que se lixem os problemas do mundo, queremos é beber e curtir”, dizem eles. Ao que respondemos: Pessoal, “Menos Cuca, Mais Água!”. Nota máxima para Pedro Coquenão e companhia.

Falar do Sol da Caparica sem se falar dos Xutos era ignorar o que não pode ser ignorado: os Xutos & Pontapés revelam-se já como uma instituição da música portuguesa. Mais que uma banda são uma marca. Todos os conhecem, fãs ou haters, todos sabem as letras e isso é sinal que o trabalho está (ou foi) bem feito! Com “casa” cheia para os ver, os experientes portugueses dominaram o público de início ao fim e até as mais recentes “Salve-se Quem Puder” e “Tu e Eu” são entoadas como se fizessem parte da vida dos presentes desde os anos 80.

É incrível ver a transgressão de barreiras geracionais que estes Xutos & Pontapés lograram fazer. Vemos famílias inteiras (do bisneto à bisavó) a cantarem as músicas desta que é a banda rock mais bem sucedida em Portugal. Para além dos velhos clássicos como “Contentores”, “Não Sou O Único”, “Homem Do Leme”, etc, estas três tocadas de seguida, (é incrível a quantidade de hits impregnados na cultura musical portuguesa), também houve espaço a surpresas como por exemplo a interpretação de “Se Me Amas” – “a música que os Xutos nunca deveriam ter gravado nem editado”, diz Tim, o recordista de atuações no festival da margem sul (ou Lisbon South Bay para os modernos).

Quem já viu um concerto dos Xutos (e acredito que tenham sido muitos) já sabe o que esperar: uma eterna comunhão entre o público e a banda, cantando os hits na ponta da língua. É incrível a quantidade de hits que a banda detém, tirando algumas músicas de Puro, o seu último disco, as outras canções eram todas conhecidas da generalidade do público e algumas bem recentes: “Ai Se Ele Cai” é de 2004 e parece que está na nossa vida desde sempre. “Maria” e “Casinha” terminaram aquele que foi um autêntico concerto de consagração. Onde quer que os Xutos toquem (pelo menos em Portugal), há casa cheia e há festa e comunhão familiar. Não é por acaso que estão (sempre) de 2 em 2 anos no Rock in Rio Lisboa, a família Medina não brinca em serviço.

Quanto à eletrónica, o rei e senhor foi DJ Marfox que no primeiro dia mostrou aos DJs da atualidade como se fazem bons sets de música de dança, esta mais pautada em ritmos mais afrohouse, deixando o público presente numa verdadeira apoteose. Não é necessário passar os êxitos do verão nem mandar fumo e confétis para se meter uma plateia ao rubro, basta apenas uma boa dose de criatividade e boa música. Soube bem ouvir Funk Em Kuduro em céu aberto. Os restantes DJs que aprendam que ele não dura para sempre.

Estes foram para nós os melhores momentos de todo o festival, um festival que tem uma enorme margem de progresso e promete muito. A área de restauração é enorme e permite aos mais esquisitos terem a oportunidade de escolherem diferentes tipos de pratos ao longo do dia (ou fim-de-semana). O festival também tem um half-pipe para os aventureiros que preferirem andar de skate durante algumas das atenções que acharem menos interessantes e como já foi referido a relação entre preço/oferta convence qualquer um. Um festival que tem uma grande versatilidade musical, dentro dos possíveis e que conjuga bem os nomes fortes do mainstream português com outras bandas em ascensão. Fomos bem tratados e divertimo-nos ao longo do fim-de-semana.

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Por Diogo Alexandre / 22 Setembro, 2015

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