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OUT.FEST 2014 | Reportagem

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Dia1

2 de Outubro de 2014 e início de mais um OUT.FEST – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro. A cerimónia de abertura coube ao guitarrista Norberto Lobo e ao duo jazz Peter Brötzmann e Steve Noble.

Numa sala super pequena a abarrotar, Norberto Lobo subiu ao palco para fazer meia hora seguida de magia na guitarra. E nestes minutos algos parcos, tratou de hipnotizar bem o público para que estes não percebessem os seus truques gloriosos. Norberto Lobo provou porque é que é considerado um dos grandes génios musicais de música instrumental do nosso país, pois apostamos que ninguém ficou indiferente à atuação deste senhor.

Já tínhamos avistado Peter Brötzmann enquanto o homem de Fala Mansa atuava, mas só quando este ”dinossauro” do jazz agarrou no saxofone é que percebemos a sua imponência. Acompanhado por um baterista com um currículo tanto ou quanto invejável, Peter Brötzmann e Steve Noble rebentaram com o Be Jazz Café e com as cabeças e corpos das 150 pessoas que enchiam o espaço. Logo de início, este duo mostrou que a idade não importa quanto à potência da música e atacou com cerca de meia hora do jazz mais energético existente no planeta Terra. Contra-tempos, força e rapidez na bateria conjugado com sopros infinitos e efervescente no saxofone resultaram numa potência inimaginável que, arriscamos dizer, se o público fosse diferente, era capaz de se iniciarem alguns mosh pits. Víamos um senhor a dar murros na mesa, incrédulo com o que se passava e a sentir esta força sónica como se não houvesse amanhã. Nós fizemos exatamente o mesmo.

O concerto foi ”curto” a nosso ver, uma hora e vinte não saciou ninguém. Queríamos mais, muito mais, pode ser para o ano, no mesmo dia, no mesmo local e à mesma hora que não faz diferença. Aplausos infinitos para este saxofonista de 72 anos e para o seu companheiro de 45.

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Dia2

Sexta-feira 3 Outubro é dia de mais música exploratória no Barreiro. Desta vez com um dia dedicado ao improviso, à distorção, às sombras… (então mas não são todos?) A sala era diferente e a música e público também.

A começar temos um quinteto de jazz, Peter Evans Quintet entram a dar tudo. Uma hora de olhos vidrados a tentar perceber todos os ruídos e sons, a tentar apanhar tudo o que a banda fazia, desde tocar violoncelo com baquetas a chiar com a trompete. A nossa atenção foi captada do início ao fim. As mãos frenéticas do pianista, a misteriosidade do senhor da eléctronica, a agressividade do baterista, a extravagância do violoncelista e a pujança do trompetista ligavam tudo a uma gigante trafulhada sonora que nos levava a um nível de apreciação artístico extraordinário. O free jazz de Peter Evans podia ser odiado por ser barulho como podia ser apreciado como algo quase transcendente.

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De seguida, vindo de Viena, o Austríaco Fennesz mais uma guitarra e uma parafernália de instrumentos elétricos numa mesa, enche o palco com uma distorção palpável. Numa hora viajou dentro dos nossos sentimentos, dentro da nossa mente e a hipnotizar-nos com temas do último álbum, Bécs, e outros. Levou-nos para uma dimensão cheia de ecos e distorções penetrantes, o melhor a fazer era mesmo fechar os olhos e apreciar a solenidade da brutalidade que ali estava a acontecer.

Um concerto memorável, melhor, só mesmo Dean Blunt a seguir, com o palco e toda a sala envoltas num nevoeiro, breves faíscas e o som da água a escorrer durante 20 minutos marcaram o início do concerto de Dean Blunt, que de forma progressiva “nocauteou” o público presente. A voz de Joanne Robertson não passa indiferente, é penetrante como tudo o resto ali. Com o ambiente da sala a ficar cada vez mais escuro e sombrio, o nevoeiro envolve-se em tudo o que ali existe e após tudo isto, após toda esta alucinação passiva começa a tempestade: os strobes arrasam tudo o que em frente deles se encontra e com uma brutalidade visual e sonora somos empurrados para o clímax da atuação, para o início, do fim.


Dia3

Terceiro e último dia de festança no Barreiro. Esta cidade que dia após dia se revela como a capital da descoberta musical e da divulgação da boa música feita no estrangeiro e que não tem espaço noutros festivais. E este terceiro dia contava com um cartaz de luxo.

Por volta das 22h entram em cena as Putas Bêbadas, um quarteto noise punk vindo dos cantos de Lisboa para encantar as margens do rio Tejo e o já algum público que se encontrava na audiência. As Putas Bêbadas apresentaram-nos o seu noise embriagado e potente, fazendo-nos querer andar à porrada com quem nos bebeu o último cálice de saquê na noite anterior. Pena que o público não tenha entendido a fúria e a revolta vinda diretamente da destilaria mais próxima e tenha permanecido impávido e sereno a falar com os amigos em vez de beber uns copos com a almas penadas que abanavam a cabeça e gesticulavam energeticamente em frente ao palco.

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Seguiram-se os Magik Markers, trio americano de noise rock (agora quarteto), que 7 anos depois regressam a Portugal. Dois rapazes e uma rapariga vieram a terras lusas apresentar Surrender To The Fantasy e incendiaram por completo o pavilhão do Grupo Desportivo Ferroviários, hipnotizando todo o público presente para que fossem absorvidos pelas suas chamas. Momentos únicos aconteceram em “American Sphinx Face” e em “Bonfire” com a vocalista Elisa Ambrogio fazendo ”barulho” com a guitarra atrás da cabeça enquanto batia com uma baqueta nas cordas da mesma. De realçar as bass lines de John Shaw que preencheram por completo todo o noise que acontecia naquele inferno paradisíaco.

Faust, pais do Krautrock, chegaram, viram e venceram. Este foi, na nossa opinião, aquele que traduz exatamente o espírito do festival. Faust mostraram-nos muito mais que um concerto, uma semana depois ainda não percebemos o meteorito que nos caiu em cima. Betoneiras, raparigas a fazer tricô, quadros a serem pintados, martelos em bigornas, berbequins em bidons. Tudo isto enquanto Hans Joachim Irmler “dropava” os melhores beats e as melhores bass lines da história do Krautrock, tudo isto enquanto citava frases alemãs, portuguesas e inglesas ao acaso e atirava baldes de pedras para uma bigorna (colocada estrategicamente do lado direito do palco e a meio do recinto) e pedras para o público. Este foi o concerto mais concorrido de todo o festival e com razão, “Der Kaffe Kocht” e “Ich Sitze” foram momentos dignos de se contar aos netos.

Para encerrar este último dia (noturno) de Out.Fest foram chamados os The Ex, aclamados pela crítica nos anos 90 e fortes influências de Pixies e Sonic Youth. Estes Holandeses foram mais uns a mostrar que quem corre por gosto não cansa. Foi uma hora (com direito a encore e tudo) sempre a abrir. Simpáticos e eficientes, os The Ex apresentaram-nos um alinhamento curto e conciso em que não faltaram os temas icónicos da sua carreira juntamente com os temas do seu último álbum. No encore, “24 Problems”, “Konono” e “Rwanda”, tocadas de rajada, encerraram definitivamente este terceiro e último dia de Out.Fest. A música ao vivo ficou por aqui mas aquele riff de “Konono” ficou nas nossas cabeças até nos irmos deitar.

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E assim passou mais um Out.Fest, um dos melhores festivais que se fazem na atualidade. É bom haver esta descentralização de eventos pois essa é uma das coisas que torna este festival mítico. Nada como apanhar o barco no Terreiro do Paço e andar de ”mapa” na mão a perguntar aos locais pelos sítios onde se realizam os concertos. Fazem-se amigos, conhecem-se bandas e ouve-se boa música. Continua Barreiro, voltaremos a visitar-te em Dezembro.

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Por Diogo Alexandre / 14 Outubro, 2014

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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