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OUT.FEST 2017 [4-7Out] Texto + Fotos

18 de Outubro, 2017 ReportagensRafael Baptista

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OUT.FEST

Process of Guilt - Cave 45, Porto [6Out2017] Foto-reportagem

Swans - Hard Club, Porto [8Out2017] Texto + Fotos
This Is Not This Heat

 

O OUT.FEST já não é novidade para muitos. Há 14 edições que o pequeno festival de música exploratória do Barreiro, conhecido pela música e espaços menos convencionais, cresce mantendo-se fiel à sua essência. Este ano contou com a Igreja de Santa Maria (30º espaço diferente utilizado pelo festival), com o Museu Industrial da Baía do Tejo e os já habituais Auditório Municipal Augusto Cabrita e a ADAO (Associação Desenvolvimento de Artes e Ofícios).

 

Dia 1, 4 de outubro


A igreja de Santa Maria mostrou-nos um Jonathan Uliel Saldanha mais afastado da bass music e mais dado aos campos das músicas ambiente e concreta. Em colaboração com os grupos corais TAB e B-Voice, lançou a sua eletroacústica sobre mantos de vozes que cirandavam pela igreja.

Apesar dos muitos avisos – “Desligue o telemóvel”, “Não fotografe”, “Mantenha o silêncio”, Não fique de pé” – ouviram-se telemóveis, pessoas a falar, gargalhadas, um “mais valia vir à missa”. Enfim, Jonathan e os couros do Barreiro estão de parabéns, o público não.



 

Dia 2, 5 de outubro


Sei Miguel, extraordinário músico português que tem vindo a dar que escrever no que trata à história do jazz desde há praticamente três décadas, apresentou um quarteto do qual diz gostar muito. Com Fala Mariam no trombone, Pedro Lopes na percussão e Bruno Silva na guitarra elétrica, apresentou cinco belas peças para um museu com lotação esgotada.

Sei diz ter raízes com esta terra da margem sul e revelou-se muito satisfeito por nela tocar, apenas preocupado com o eco tremendo da sala. A sua acústica de pavilhão desportivo deformou por completo as suas peças. Soaram a dementes baladas de ballroom ou misteriosas mussetes francesas tocadas com sopros, a desintegrarem-se ao vivo. As notas, sem pressa de se fazer ver pelas costas, ficavam suspensas no ar enquanto eram bombardeadas com outras tantas igualmente teimosas. A percussão minimal de Pedro Lopes, ecoando por tudo o que era aresta, foi complemento perfeito dessa suspensão de sons. Nunca um infortúnio foi tão bem-afortunado.

Sei Miguel ficou impedido de empregar o silêncio como lhe é costume. A salva de palmas final mostrou que isso pouco ou nada significou. Foi valente e só não o foi mais ainda por interrupção do próprio Sei Miguel dizendo que se estava a tornar pretensioso.

Seguiu-se a eletrónica modular da italiana Caterina Barbieri. O som começou denso e ruidoso, como se quer. Com o passar do tempo foi-se diluindo e o ruído deu lugar a um estilo mais banda sonora sci-fi (“bleep bloop bleep bloop”), quando, numa passagem com uns acordes esparsos, o som pára subitamente. Um pouco depois, Caterina solta um tímido “My computer just died”, recebendo aplausos de volta. O que quer que se tenha passado ficou resolvido enquanto o diabo esfregou o olho. Não se viu nada de muito diferente daqui para frente. De um ponto de vista musical, não foi nada de especial, set composto de loops com melodias banais. De um ponto de vista mais técnico, é de facto admirável como ela consegue desconstruir os mesmos loops que constrói, por vezes até surpreendente.

Charlemagne Palestine, foi Charlemagne Palestine. Uma voz, um drone e um copo de vinho. No final discutia-se: “Foram 20 minutos”,”foram 30”, “foram 15”. Quantos foram ao certo, ficou por saber. A verdade andará entre os dois extremos, a única certeza é que ficou a saber a pouco.

 

Dia 3, 6 de de outubro


O trio luso-sueco Casa Futuro abriu forte o dia com o seu free jazz desgrenhado. Gabriel Ferrandini e Pedro Sousa são músicos jovens com um talento incrível, foi um orgulho vê-los tocar.

Com a fasquia elevada cabia a David Thomas guiar a sua Moon Unit pelos mesmos bons caminhos. O concerto foi fruto de uma colaboração com o trompetista Andy Diagram e resultou numa performance única que contou com versões alternativas de alguns dos seus clássicos avant-garage, mas principalmente temas dos seus dois últimos álbuns – Carnival of Souls (2014) e 20 Years in a Montana Missile Silo (2017) – e muita improvisação. Entre aplausos, Martin agradece ao público para logo depois perguntar “Why should I thank you?”. Algo pertinente para refletir, de facto. Como deve ser a relação entre o público e os artistas? Têm os artistas algum dever para com o público e vice versa? Independentemente de qualquer opinião, ele que faça o que entender, é isso que se quer.

Para acabar o 3º dia em grande eis Lolina, heterónimo mais recente da russa Alina Astrova (Inga Copeland, ex-Hype Williams), que resulta num 2-step esquelético incompreensivelmente dançável (como se dança ao som de Lolina? Como se quiser) e claramente comunicativo de algo – ganância, o “cash and carry”, intimidade, domínio, medo, o que é ser imigrante numa Grã-Bretanha progressivamente mais hostil. Alina pendurou loops de baixo e pintou-os com pancadas sujas e efeitos. Emoldurou-os com pianos brinquedo discordantes, linhas de sintetizadores Wiley style, loops de percussão off-kilter ou outra maluqueira qualquer, demonstrando a sua capacidade de polifonia súbtil e harmonia – uma harmonia muito própria. No entanto, foi a sua voz abrasiva e descentrada que colou tudo, criando uma corda bamba de ressonâncias, afastando-a da normalidade musical, como se quer – não se tratasse isto de um festival de musica exploratória.

 

Dia 4, 7 de outubro


A ADAO é, desde 2015, o palco do dia maior do OUT.FEST. Com uma dúzia de concertos em meia dúzia de horas, o antigo quartel de bombeiros – agora unicórnio das artes – é um corrupio de pessoas das mais variadas faixas etárias e de arte dos mais variados campos criativos. É bonito de ver. Muito bonito!

A abrir as hostilidades esteve o techno/2-step vaporwavesco de Dj Problemas na Sala de Jantar e, na Sala das Colunas, o rock/power electronics de Simon Crab que não fugiu muito ao que os seus Bourbonese Qualk já nos tinham habituado. Pouco depois, enquanto o Salão Nobre era lugar para mais uma visita do ambiente negro de Nigel Ayers (que é como quem diz da música concreta de Nocturnal Emissions), na Oficina preparava-se a estreia em Portugal de (This Is Not) This Heat.

This Is Not This Heat é sinónimo de selvajaria sónica além do imaginável. Isto não é de facto This Heat, as musicas tomaram uma vida própria. A essência está lá, não me interpretem mal, mas evoluíram, cresceram, amadureceram, é sobre humano e, como tudo o que é sobre humano, é um tanto ou quanto indescritível. Comecemos pelo início. Pouco passava das 22h00 e Merlin Nova (violino, melódica, sampler e voz) entra em palco, põe o drone da Test Card e logo abandona novamente o palco. Durante vinte minutos é o que se ouve, muito baixinho. À medida que os membros foram entrando em palco, o drone foi aumentando de volume e só é interrompido pelo primeiro pulsar da bateria de Charles Heyward. Era o inicio de Horizontal Hold, que abuso! A propulsão, a dissonância, a garra, a audácia, tudo soa fresco com praticamente 40 anos! Sim, 40! É ridículo, sobre humano tenho-o dito! Em "A New Kind of Water" ouve-se “We were told to expect more / And now that we've got more / We want more /... /This welfare state is our progress / The size of it all carries us along / More equals better, it's what we want” e logo a seguir “This nuclear state is our demise / … /Who can watch as the Earth burns, shatters, and dies? /Fail-safe, foolproof, we've heard that before / Good sense is needed”, somos tão perturbadores que não mudámos em 40 anos? Ou a história repete-se como sugere Cenotaph? O sentimento que as letras de This Heat despertam é o mesmo que Aldous Huxley me despertou quando li o “Regresso ao admirável mundo novo”(1958) em pleno século XXI. Vamos sempre falhar? Durante quantos anos vão músicas de This Heat e livros de Huxley parecer atuais? Qualquer que seja a vossa opinião, não deixa de ser assustador como música após música as suas letras captem tão bem a essência humana tanto tempo depois de ter sido escritas.

Para além dos temas já referidos, até ao final ouviu-se "Not Waving", "Twilight Furniture", "The Fall of Saigon", "24 Track Loop", "Sleep", "Paper Hats", "S.P.Q.R.", "Makeshift Swahili" e "Independence", em mais de uma hora de concerto que acabou com a música sobre e dedicada ao nascer do sol, "Health & Efficiency", pináculo do positivismo. É impossível enfatizar o suficiente o quão bonito foi este espetáculo e o quão importantes os This Heat foram e continuam a ser, mesmo já não sendo This Heat. Com o concerto ainda a decorrer na Oficina, era a vez de Hungtai/Maranha/Ferrandini tomarem conta do Salão Nobre.

Numa noite a meio de maio do ano passado tive o privilégio de assistir ao primeiro (e até à data único) concerto de RAHU* (a cabeça de Svarbhānu, o demónio criador de eclipses), que é como quem diz Hungtai/Maranha/Ferrandini em esteróides (“em esteroides” leia-se “com Pedro Sousa e Júlia Reis”). Diz-se por aí que não se deve olhar diretamente para um eclipse, e bem. Eu olhei e agora quando os vejo só aos três sabe a pouco. Então depois de um concerto de TINTH, não havia saciar possível.

Até ao final da noite, a cargo de Rogério Brandão (aka Nigga Fox aka gajo cujo techno é um abuso e não te deixa parar de mexer assim que ouves), houve espaço para o Colectivo Vandalismo e o seu negrume sónico de cortar a respiração, para uns Black Dice pouco convincentes, para umas Putas Bêbedas e as suas putas de carcaçadas, para o desafiante punk eletrónico de Gyur e techno mutante de Bookworms. Foi fortíssimo, tudo à beira da linha de comboio, para fechar em grande mais um OUT.FEST, que se reafirma como um dos melhores festivais de música do país.

*Ico Costa vai apresentar em estreia mundial no Doclisboa a sua primeira obra Barulho, Eclipse que documenta este mítico concerto nos próximos dias 22 e 23 de Outubro. Podendo, é ir.

 

por
em Reportagens
fotografia Daniela Jacome

OUT.FEST 2017 [4-7Out] Texto + Fotos
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