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Peter Broderick – Casa da Música, Porto [3Nov2016] Texto + Fotos

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3 de novembro de 2016 foi a data marcada para um regresso mais que aguardado de Peter Broderick ao Porto – passados seis anos da primeira passagem pela invicta, dessa feita no Passos Manuel. Apesar de estarmos na Sala 2 da Casa da Música, e o nome de Peter Broderick ainda ser demasiado pequeno em comparação à grandeza da música que compõe, a sala estava bem composta. Talvez estivesse mesmo cheia se não se sentisse no ar ainda um cheiro pérfido a recessão económica, assunto também endereçado pelo próprio Broderick que entre sorrisos e na sua imensa simpatia nos disse: “I will play whatever you want, I mean you paid 20 euros to be here tonight”.

Apenas com um piano de cauda e dois microfones em palco, a espera agudizou-se traduzindo-se em pequenos murmúrios de ansiedade ou de desconhecimento simplório do que estaria prestes a acontecer. Broderick subiu para o palco pouco passava das nove da noite e agradeceu a nossa presença, na primeira das múltiplas vezes que o fez ao longo do concerto, numa humildade tão genuína que nem tinha começado o concerto em si e já nos havíamos rendido à presença de Broderick. Com o inicio do concerto, que teve o volume mais baixo do que aquilo que é habitual e ao longo do qual tivemos vários momentos de silêncio absoluto, também começaram os disparos dos fotógrafos contrastados com a peça de piano que Peter se encontrava a tocar. Este, com a boa disposição e charme habituais, disse num tom de brincadeira, mas com um quê de seriedade: “I wrote this piece for piano and camera shuters”.

Tendo em conta que as composições de Broderick se inserem num espectro mais variado de instrumentos, que normalmente também incluem violino e a guitarra, não sabíamos muito bem com o que contar: sem metade dos instrumentos disponíveis, o reportório de Broderick fica consideravelmente reduzido. Então, não foi com surpresa que ouvimos composições de outros pianistas como “In a Landscape” de John Cage ou uma canção folk da tradição irlandesa, país para onde Peter se mudou há uns meses atrás. Broderick entregou uma versão na sua maioria vocal de “As I Roved Out”, que cantou pelo meio do público com uma emoção indiscritível através de palavras. Broderick pode não ser um cantor soberbo, mas é um cantor honesto, e o que lhe falta em técnica, compensa com uma entrega emocional a cada palavra raramente encontrada nos dias de hoje.

No entanto, e como seria de esperar, o foco central da setlist foi o trabalho a solo de Peter Broderick. De entre os quais destacamos “Human Eyeballs On Toast” – aqui Broderick explicou o contexto em que escreveu e compôs a faixa, que à primeira vista pode ter um título tão estranho, explicando que era vegetariano nessa altura e que se imaginou na perspetiva de uma galinha a ser criada apenas com o intuito de ser comida; – “Sideline”, “Planes” – uma faixa colaborativa com Machinefabriek, que já devia ter data marcada em Portugal o mais rápido possível– e “It’s a Storm When I Sleep” descrita por Broderick como um “childish bashing of the piano”.

Como em cima já foi referido, Peter não estava a brincar quando disse que tocava o que quiséssemos, e no segundo encore, perguntou ao publico o que mais queriam ouvir:  entre várias respostas ressaltou “Sometimes”, faixa com a qual Broderick deu como encerrada noite, entre vários agradecimentos e “obrigados”. No fundo, somos nós que temos que agradecer. Não foi um concerto completo ou soberbo, sentimos falta de outras dinâmicas em termos instrumentais, mas tudo isso foi compensado por Broderick; desde a mestria ao piano ao sentimento inculcado na voz, Broderick conquistou-nos até ao âmago, tocou-nos como poucos artistas conseguem tocar. Aguardamos com muita ansiedade uma nova passagem por Portugal.

 

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Por Sara Dias / 6 Novembro, 2016

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