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Pixies - Coliseu do Porto [21Nov2016] Texto + Fotos

24 de Novembro, 2016 ReportagensJoão Rocha

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Coliseu do Porto

Wrekmeister Harmonies - Passos Manuel, Porto [24Nov2016] Foto-reportagem

White Lies - CCB, Lisboa [18Nov2016] Foto-reportagem
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Imortalizado pela mais famosa socialite portuguesa, “estar vivo é o contrário de estar morto”. Este, digamos, lema de vida tem tanto de La Palice como de verossímil. A ridicularidade da afirmação abafa a pesada dose de verdade que a mesma carrega, e bandas como os Pixies em momentos como os de segunda-feira, fazem-nos olhar para ela num diferente prisma recheado de muita mais seriedade.

Para percebermos o que se passou no Coliseu do Porto no dia vinte e um de novembro, temos primeiro de fazer uma pequena análise do novo álbum que estes Imortais do alternativo nos apresentaram este ano. Head Carrier é um álbum onde a ausência de criatividade e o egocentrismo confundem quem o ouve. Sinceramente não se consegue perceber se os Pixies simplesmente desistiram de fazer algo novo, ou se acham a sua música tão grandiosa que a voltam a repetir vezes e vezes sem conta. Este novo trabalho viaja por faixas que repetem velhas glórias da banda de Boston, não se limitando a usar os mesmos conceitos, mas a repetir também à descarada os acordes que lhes deram a glória, situação que o público portuense viria a experienciar e que abordaremos mais tarde. É difícil de digerir que uma banda que já nos deu tanto e que deixou uma marca tão grande no panorama musical, fique a viver de apostas seguras que a sua fama ainda permite.

Se não bastasse um álbum de revisita a si próprios, presentearam um Coliseu do Porto bem composto a nível de público, com uma banda de abertura que os revisita também. Arriscamos dizer que os Fews eram desconhecidos para a totalidade de quem marcava presença pelas oito e meia na Rua Passos Manuel. Numa sala onde reinava o cheiro a Old Spice, subiram ao palco quatro miúdos a tresandar a hormonas características da juventude, atirando-se às guitarras com a pujança de quem não vive para o amanhã. O que foi de estranhar foi a total indiferença de quem lá estava para viver o ontem não ter reparado nesta banda londrina. Ofereciam-se e bebiam-se cervejas, metia-se a conversa em dia, e pouco se escutava algo que mais que soar a Pixies, transbordava influências da maravilhosa era de Trompe le Monde. Foi um concerto cheio de energia e entusiasmo, com a agressividade da guitarra a domar todo o Coliseu, abafando os erros de sincronização que se faziam sentir na bateria. Não obstante do vigor punk, quase que podemos jurar que todas as músicas começaram exatamente com o mesmo acorde, atirando-nos à cara, mais especialmente ao ouvido, a semelhança sonora entre os Fews e os Pixies. E pior que isso, a homogenia musical da banda que pareceu tocar durante mais de meia hora sempre a mesma música. A atenção era necessária para desvendar as semelhanças de música para música e essa estava a ser guardada para os reis da noite. Tocam as últimas notas e, ainda a pousar instrumentos, já o público lhes virava as costas para ir buscar mais cerveja e tratar dos xixizinhos. Nesse momento alguém ao nosso lado dizia que “isto não é música para a nossa geração”, enchendo-nos de uma sensação de revirar olhos tão profunda que acabámos mesmo por o fazer. Pular e ter energia tornou-se um género musical exclusivo de gente nova, ou essa seria a ideia que pelo menos nos iria ficar na mente, não fosse o contrário acontecer momentos mais tarde.

Com um público tão apático, passamos a temer o concerto que todos estávamos lá para ver. Apesar de as últimas prestações dos Pixies no nosso país não serem merecedoras de entusiamo, o seu historial e peso emocional mereciam um público bem mais entregue do que os Fews receberam. Subiram ao palco num louvor que apenas Deuses merecem receber. Não disseram uma única palavra ao público (situação que se manteve até ao fim do concerto), dirigindo-se imediatamente aos respetivos instrumentos, enquanto ouviam gritos eufóricos de “vamos”, aludindo a uma das mais célebres canções de 1988. Entre várias hesitações em começar o concerto, o certo é que o hit de Surfer Rosa, foi deixado para o fim, num concerto onde se despacharam trinta canções em pouco mais de hora e meia. Despachar é mesmo o termo certo para descrever a prestação de Black Francis e companhia em palco, situação que não incomodou ninguém exceto a própria banda, que se viu na “obrigação” de mudar a empatia ao longo do concerto. Fãs de todas as gerações, mas maioritariamente nascidos na década de 70, não estavam ali para receber simpatia, estavam ali para assistir ao melhor que a cena alternativa lhes ofereceu durante a sua juventude. Nesse aspeto, os Pixies arrasaram com o seu profissionalismo e forma exímia de dar música. Joey Santiago e David Lovering continuam a ser contagiados pela raiva juvenil que a guitarra e a bateria lhes dão respetivamente, não deixando nunca a desejar e até mesmo a conseguir surpreender com alguns improvisos, como o que assistimos no final; a voz de Black Francis continua única como sempre, não se notando o peso do tempo nela; e até mesmo a mais tímida Paz Lenchantin (que integra a banda apenas desde 2014), não conseguindo substituir uma Kim Deal, ocupou essa lacuna duma forma que encontrou na discrição o tom certo.

Cá em baixo, o delírio tomava conta do público, que progressivamente via a idade a recuar dentro deles, movendo as articulações em pulos entusiastas que resultaram até em alguns moshes e crowd surf. De facto, a energia crescia quanto maior fosse o sucesso tocado, e se em “Hey” a comunhão espiritual acontecia com todo o público a entoar em uníssono o famoso “uh uh”, em momentos de combo como foi o caso de “Monkey Gone to Heaven” e “Velouria” o lado primitivo e físico de cada um tomava conta e deixavam-se guerrear ao som da música. Essa necessidade era tanta que os Pixies tocaram “Wave of Mutilation” por duas vezes e ninguém se pareceu importar. Foram estas velhas glórias que os fizeram apaixonar pela banda, e era a elas que estavam ali a demonstrar o seu afeto. Quando era a vez de novas criações, os ânimos abrandavam drasticamente, sendo o momento mais notório quando fizeram-se ouvir os primeiros acordes de “All I Think About Now” e um grupo alargado de pessoas re-começa a entoar o “uh uh” pensando tratar-se da faixa que imortalizou Doolittle e a banda em 1989. Essa exultação rapidamente se transformou em desânimo, ou simplesmente apatia para com as novas músicas.

Os Pixies é que não ficaram apáticos à entrega do público portuense e, com uma ovação gigante no final do concerto, o encore tinha de acontecer. Black Francis, como tinha pressa de ir para o aconchego do seu lar, nem deixou os colegas sair do palco e logo deu indicações para que todos retomassem os seus lugares. E siga, “Vamos” para o encore. O delírio foi monumental e como teste de paciência ao vocalista da banda, Joey Santiago cede ao amor do seu público e dá aquilo que um fã de Pixies sempre pediu: show e empatia. Entrega-se aos riffs de guitarrra, deixa-a cair no chão, fica a brincar com os sons que um jack pode fazer, atira baquetas entre ele e David (enquanto este continua a tocar sem sair do ritmo), e o público delicia-se e desfaz-se com a mesma velocidade com que o Francis retomaria a cantar “vamos a jugar por la playa”. Para o fim ficou “Into the White” libertando para a sala todo o conteúdo que ainda estivesse na máquina de fumo. De repente tudo ficou branco e não se via nem palco, nem quem estava ao nosso lado, mas a sensação de “bom trabalho” já nos tinha assolado, e meio intoxicados, meio em transe, começávamos a ganhar consciência de que foi um belo concerto. Despedem-se ao som de uma ovação triunfal e visivelmente felizes e gratos, conseguimos reparar, ou pelo menos queremos acreditar que sim, que agora lhes custava abandonar o palco, e consequentemente a nós.

Os Pixies são uma banda que apesar de não estarem mortos, não estão vivos também. Existem e são infalivelmente capazes de continuarem a tocar da mais bela forma. Apesar de o tempo lhes preservar a habilidade e a voz, a criatividade ficou algures lá para trás em 91. O que é certo é que quem se dirigiu ao Coliseu no dia vinte e um de novembro não foi à procura de ver a vida dos outros, ou encontrar os ídolos da juventude de forma imaculada. Prova disso eram as alternâncias de ambiente entre sucessos e novas músicas. No Porto, assistiram a um concerto brutal que lhes deu um término passageiro na procura de re-viver e agarrar-se a um passado que se fez jovem e louco de uma forma desmedida. Agarrar a juventude é algo que todos almejamos, e se alguns, como a autora da citação com que começamos esta reportagem, recorrem a intervenções cirúrgicas para o fazer, que continuemos a ser muitos os que procuram manter os 18 da alma através do prazer da música. E nisso não há nada de errado. Não se trata de estar o oposto de morto, mas sim em saber como viver.

 

 

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