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[Reportagem] NOS Alive'16

17 de Julho, 2016 ReportagensDiogo Alexandre

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NOS Alive

Hellfest 2016 - Day 3 [19Jun] Photo Galleries

Damien Rice - Casa da Música, Porto [12Jul2016] Foto-reportagem
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7 de julho, dia 1.


 

Vindos de um dos muitos comboios vestidos de modo alusivo ao festival e que faziam viagem (quase) diretas desde a estação do Cais do Sodré até à de Algés, onde o mesmo quase se esvaziava, e ao som de um dos funks do momento (não, não foi o MC Bin Laden: a escolhida caiu sobre Bumbum Granada dos Mcs Zach e Jerry – obrigado rapazes de abadá e toalha ao ombro!), chegamos ao recinto para sermos surpreendidos por um cancelamento à última da hora dos espanhóis Nudozurdo. Em seu lugar colocaram uma banda de covers dos Tame Impala (se não era de covers era aspirante a tal) dos quais nem nos lembramos do nome (e, muito sinceramente, nem vale a pena referir). Aguentámos cinco músicas (e mesmo assim foram muitas) até trocarmos o Clubbing pelo Heineken. De um lado tínhamos os Tame Impala, do outro os Stereophonics. Rock radiofónico agradável que soa a tudo o que já vem a ser feito desde os anos noventa, mas que não soa necessariamente mal. Os L.A., que para espanhóis falam muito bem inglês, esforçaram-se por entreter um muito apático palco Heineken, onde a cerveja parecia mais importante do que a própria música, arriscaram um cover de Ryan Adams e quando o concerto começa, finalmente, a aquecer, termina. “Outsider” foi a escolhida para encerrar um concerto com a qual deveria ter sido aberto.

Ainda menos sorte tiveram os portugueses The Happy Mess que se depararam com um palco Heineken ainda mais vazio do que aquele com que os nuestros hermanos se haviam despedido minutos antes. Com um pop/rock igualmente radiofónico, os The Happy Mess mostraram saber executá-lo bem ao vivo mas, convém dizê-lo, as músicas de Half Fiction deixam muito a desejar comparativamente às de Songs From The Backyard, disco que tão boas canções pop forneceu no ano de 2013. Com crescendos previsíveis e refrões repetidos até à exaustão, os portugueses tocaram para serenos curiosos que, por vezes, lá soltavam o chapéu da NOS (oferecido à entrada do recinto) e se aventuravam numa dança em 4/4, não conseguindo elevar a fasquia ainda algo baixa deste primeiro dia de festival.

 
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Seguimos rapidamente para o Palco NOS (onde permaneceríamos até ao fim do mesmo) a fim de ainda apanharmos os Biffy Clyro desde início. Conseguimos e somos logo surpreendidos com uma intensíssima “Living Is A Problem Because Everything Dies” ainda no aquecimento. Nesta que é a terceira vez que os escoceses pisam este mesmo palco (2010, 2013, 2016) os Biffy Clyro pouco têm a provar aos portugueses (e aos muitos britânicos) já rendidos ao seu rock alternativo e mostraram-se bem corajosos no ato de apresentar canções atirando-se, inclusive, a uma “Machines” totalmente em acústico. Simon Neil, sempre sem t-shirt e do alto dos seus 36 anos revela-se num verdadeiro animal de palco, instigando o público à mais veroz movimentação e ainda brincando com o facto dos Chemical Brothers encerrarem o palco, dizendo que se o público quiser mais eles não se importam de substituir o duo, terminando, sorrindo e dizendo que a música dos ingleses “não é para eles”.

Houve mosh, na maior parte das vezes despropositado, e muita entrega por parte de um público rendido desde o início de “Wolves Of Winter”, primeiro single de Ellipsis, já decorada por todos, até o término com “Stingin' Belle”, logo após “Many Of Horror”, melosa balada que serviu para que os jovens casais de namorados pudessem trocar afeto sem medo. Misturadas novas canções com os velhos trunfos e uma grande quantidade de energia em palco, os Biffy Clyro provam que dão tudo ao vivo e que já mereciam um concerto em nome próprio no nosso país.

 
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Se me dissessem, a priori, que os Biffy Clyro iam ter mais público que o Robert Plant, eu não acreditaria, mas a verdade foi essa nua e crua. O ex-Led Zeppelin deu um dos melhores concertos desta edição do festival para para uma plateia desconhecedora do seu reportório e, aparentemente, do seu nome: ainda estamos a tentar perceber se aqueles gritos por “Roberto Planta” eram a sério ou a gozar. De qualquer modo nada disto foi preocupante face ao espetáculo apresentado.

Esquecendo o facto de termos uma lenda-viva do rock à nossa frente, aquilo que mais nos surpreendeu foi a facilidade com que Robert deu a volta àquilo que o povo queria, não comprometendo as expectativas e mostrando que apesar de já ter a vida feita e de não ter que provar nada a ninguém, ainda tem alguma coisa a dizer. Foram tocadas músicas dos Led Zeppelin sim, mas nenhuma do modo como a conhecemos, ganhando aqui uma roupagem mais próxima da world music do que do rock clássico. Tirando o abuso excessivo do riff e refrão de "Whole Lotta Love" (o povo queria e Robert não fez a desfeita), todas as outras canções dos Zeppelin apresentaram-se de modo irreconhecível com uma notória influência africana, mesclando instrumentos ocidentais clássicos (guitarra, baixo, bateria) com o banjo e instrumentos tradicionais da África Ocidental (ritti, bendir e djembe), revitalizando os seus velhos clássicos de uma forma que só alguém como Plant o poderia conceber. Isto tudo intercalado com covers de Joan Baez, Bukka White, Etta James, Bo Diddley e da tradicional “Little Maggie”.

Robert, de cabelo encaracolado entre o grisalho e o louro, mostrou que apesar dos seus 67 anos ainda tem uma voz invejável e proporcionou-nos uma autêntica viagem pela história da música, viagem essa que o público do Alive não soube aproveitar da melhor forma. Parece estranho dizer isto mas Robert Plant enquadrava-se melhor no FMM do que neste, cada vez mais massificado, NOS Alive.

 
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Os Pixies cumpriram com o esperado: debitação de canções nonstop, sacam três hits, rejubilam a plateia e fecham o estaminé quinze minutos mais cedo porque amanhã há mais em Espanha, não dirigindo uma única palavra ao público português. Nada que comprometa o espetáculo que, como já dissemos, cumpriu com o mínimo exigido, mas gostávamos de poder apontar uma particularidade deste concerto, no entanto, tal é-nos impossível. Não por falta de vontade nossa mas por falta de vontade dos norte-americanos. Frank Black não esconde o enfado, nem precisa, a plateia vibra de qualquer forma ao som de clássicos como “Bone Machine” (que abriu o concerto), “Monkey Gone To Heaven” ou “Debaser”, para não mencionar as óbvias “Where Is My Mind?” e “Here Comes Your Man”, e os Pixies lá vão em modo slot-car, nas calhas, sem arriscar muito e sem grandes malabarismos, metralhando temas contra as pessoas que os recebem de braços abertos, eu próprio incluído.

Houve ênfase feliz para Surfer Rosa, e incursão infeliz em Indie Cindy e em mais quatro canções novas, não deixando grande entusiasmo para Head Carrier, álbum a ser lançado no final deste ano. Depois de um Robert Plant que se mostrou esforçado em reviver os clássicos dos Led Zeppelin e em mostrar que ainda tem algo a dizer, ver estes Pixies é ver uma banda sem atitude, não aproveitando o potencial das suas canções e sobrevivendo de êxitos passados. Não, o concerto não foi mau, mas poderia ter sido muito melhor caso o quarteto de Boston estivesse disposto a tal, resvalando assim para a categoria vasta da mediocridade.

O que tornou este concerto diferente dos outros três que vimos deles em Portugal? Só o alinhamento (destaque para a cover de “Head On”, original dos The Jesus & The Mary Chain, e “Hey”, por incrível que pareça, de fora do set). O que tornou este concerto diferente dos do resto da tour? Nada, arriscamos. E é isto que se retém. Nada de novo vindo de uma banda que já não lança nada de verdadeiramente novo desde 1991.
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Os The Chemical Brothers chegam com um set muito bem equilibrado que percorreu, praticamente, todos os momentos dos seus já longos vinte anos de carreira e munidos de um hipnotizante aparato visual que acompanharia todos os temas de forma empolgante e exímia: falamos de um storytelling em imagens 3D quase ao nível de realidade virtual. Se a música não valesse a pena, o cenário valia e o melhor do tudo é que valeram os dois.

“Hey Boy Hey Girl” é servida bem no início, espevitando um público contemplativo, e em “Chemical Beats”, editada há precisamente 21 anos, piscamos o olho aos pastilhados anos noventa e quase que nos aventuravamos na arte do breakdance. “Do It Again”, lançada de seguida, interrompeu o sonho mas lançou uma sede de dança coletiva. Intercaladamente, Ed e Tom saem da mesa para cumprimentar e espalhar alguma energia pelo público, voltando de seguida ao trabalho em palco. Sem pausas, o duo de Manchester prossegue debitando temas do novo Born In The Echoes, lançado e apupado no Verão passado, que é apresentado pela primeira vez ao vivo nesta edição de Alive (tal como sucedera com Further, em 2011) e “Go”, primeiro single do mesmo, prova resultar muito bem ao vivo.

“Swoon” é dedicada aos namorados e “Elektrobank” lembra-nos toda a química por detrás da músicas destes “irmãos”. Pelo meio somos brindados com um remix de “Temptation” dos New Order. “Galvanize” levanta a plateia e “Block Rockin' Beats” arrasa-a, terminando assim a mais de uma hora de boa música electrónica. A idade aqui não pesa e os Chemical Brothers mostram saber fazer dançar quem tiver disposição para tal.

 
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E que melhor maneira de fechar o dia se não com um concerto dos Throes & The Shine? Já o tínhamos feito na edição passada do festival concorrente organizado para os lados do Parque das Nações e fizemo-lo aqui de novo, sem arrependimentos. Arrumámos a eletrónica pura e partimos à descoberta do Rockuduro.
“Dombolo” abre de rompante um concerto que nunca mais pararia. Apologistas da festa grossa, há poucas bandas que consigam transmitir o nível astronómico de energia que este quarteto consegue, dançando, cantando, em suma, mexendo-se, transpondo para o público o mesmo tipo de emoção impresso na sua música. Às 3 da manhã de quinta-feira pareceram 10 da noite, tal era a predisposição da plateia em receber a banda. Não havia cansaço nenhum, somente uma sede de curtição, culminada com o aparecimento de um moshpit de média dimensão aquando de “Ndele”, onde Diron sai do palco direto para o meio da plateia em delírio, fechando com chave de ouro um dos melhores concertos do dia.

 

8 de julho, dia 2


 

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Num dia esgotadíssimo largos meses antes, facto verificado pela quantidade de pessoas dentro do recinto nas horas mornas da tarde comparativamente com o dia anterior (e outras edições do festival), o primeiro grande momento do segundo dia de NOS Alive aconteceu com a atuação dos australianos Jagwar Ma, que chegavam como banda suporte dos, igualmente australianos, Tame Impala, usando e abusando do conhecimento live que já detêm de Howlin, único álbum de originais lançado até à data, já apresentado no nosso país em outras duas ocasiões (a primeira ao entardecer e a segunda de madrugada). Voltam assim ao slot das seis da tarde para pontuarem aquela que foi, sem dúvida, a melhor das três passagens pelo nosso país, mostrando uns Jagwar Ma mais soltos e confiantes, capazes de já atraírem uma corpulenta moldura humana num horário não muito favorável à dança desenfreada. “Come And Save Me” é faixa titã nesta festa crepuscular e “The Throw”, na plenitude dos seus oito minutos, termina de modo eficiente um concerto onde também pudemos dar uma primeira olhada àquilo que soará o seu novo longa-duração.

 
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Courtney Barnett subiu ao palco de seguida, acompanhada por mais dois cavalheiros, um na bateria e outro no baixo. Este trio abrasivo provou que o grunge continua bem vivo nas mentes jovens e que os anos noventa ainda causam saudade, como se o dia de ontem não tivesse chegado para isso ter ficado provado. Courtney apresenta-se diante de um palco estupidamente cheio e sedento de rock à séria, apto a iniciar as hostes do bailarico mosh e do crowdsurf. Vários cartazes foram mostrados à cantora australiana, respondendo sempre de forma algo tímida: Courtney não estava ali para conversar mas sim para arremessar autênticas bujardas como “Nobody Really Cares If You Don't Go To The Party” (a fechar a atuação num quase encore) e “Pedestrian At Best”, esta última demolidora, com direito a tudo o que um concerto de rock merece, incluindo uma avalanche de copos de cerveja meios-cheios a voar sobre a plateia. Até a balada “Depreston” pareceu resultar bem num clima quente desde início e, posteriormente, apaziguador, acalmando os ânimos do público (que se esforçou por acompanhá-la em todas as canções) durante uns pequenos instantes. Esquecemo-nos do sítio onde estávamos e das passagens de modelos em Algés, aqui respirou-se rock, relembrando-nos por meros instantes aquilo que o Alive já foi: um festival de rock.

 
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Saídos suados e já meios roucos do palco Heineken, seguimos para o coreto com curandoria G-Star Raw para conhecermos os The Loafing Heroes, banda que se divide entre Lisboa e Dublin, e darmos de caras com a pacificidade ideal para descansarmos e metermos a cabeça em ordem depois de despendida grande parte da energia reservada antes do jantar. Os The Loafing Heroes são um quinteto folk com uma grande variedade de instrumentos utilizados em palco (dos quais destacamos a concertina, o clarinete e o violino) e com melodias capazes de nos fazer sonhar acordados. Não contaram com muitas pessoas a vê-los mas quem lá estava prestou atenção e recebeu-os de cabeça erguida, sentados no asfalto que circundava o coreto. Sem dúvida os vinte minutos mais apaziguadores desta edição do Alive.

Estamos em 2016 e é a quinta vez nos últimos seis anos que os Tame Impala vêm a Portugal. Se há uns anos atrás Kevin Parker sonhou que viria a ser mestre de uma banda capaz de ser headliner de muitos festivais europeus, capaz de atrair milhares de pessoas aos seus concertos e, pelo meio, ainda ver uns quantos seios adolescentes, certamente foi chamado de egocêntrico pelos seus amigos próximos, mas a verdade é que esse sonho (ou uma parte dele, já que a digressão é grande) foi concretizado na sexta-feira em Lisboa. Os Tame Impala já não sabem o que hão-de fazer mais: recorrem aos confetis (quais Coldplay), ao falsete (quais Bee Gees), ao pop psicadélico (quais Beatles), faltando apenas os efeitos visuais de um Hardwell, e, porventura, só não os houve devido ao facto de ainda ser de dia. Enfim, recorrem a tudo não sendo nada, mostrando-se moribundos em termos estéticos e musicais.

Se Innerspeaker e Lonerism são peças fundamentais para se compreender esta vaga psicadélica mais popular que domina os festivais e o circuito musical underground de muitos países há já uns bons anos, Currents não mais é do que uma amostra rasca (desculpem, não há outro adjetivo) daquilo que uma banda é capaz de fazer para chegar ao mainstream. E o pior é que o conseguiram. Mau para os amantes de música, bom para quem gosta de ir a festivais pelo ambiente e define um bom concerto pelas luzes, fumo e confetis lançados (três vezes? Não havia necessidade...). O refrão interminável e incrivelmente piroso de “Let It Happen” (como se o resto das letras não o fossem), que nos perseguiu ao longo do festival através dos seus spots publicitários, define bem esta alienação coletiva que se vive nos dias que correm. Mal a febre passe, é ver cada coisa no seu sítio certo. O próximo passo é a queima das fitas. Preparem-se!

 
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Ao mesmo tempo dos Tame Impala, no Coreto, os Youthless lutavam contra todos os desaires técnicos e davam o máximo de si para entreterem o pouco público, mais português que estrangeiro (contrariando a tendência atual do festival), presente. Cantou-se maioritariamente temas do seu recém-lançado This Glorious No Age com Alex Klimotivski a dispensar a bateria para se dedicar a tempo inteiro às vozes e sair disparado do palco para a plateia a fim de partilhar o seu microfone com os presentes, aquando de “High Places”, primeiro single do trabalho. “Monsta” termina de forma aparatosa um concerto pleno em energia e diversão, e mesmo a tempo do início de Father John Misty.

Com o palco NOS a abarrotar e o Clubbing bem composto, será que ainda havia gente para o Heineken? Sim, havia, e muita, pois mal chegados ao local do crime deparamo-nos com uma multidão maior do que a que imaginávamos, tal era a proximidade horária com os cabeça de cartaz (aqueles que esgotaram o dia).
Defronte a um pano vermelho que tapava toda a parte traseira do palco, Joshua Tillman mostrou-se dono e senhor desta edição do festival, potenciando um concerto em tudo memorável capaz de converter os mais leigos no que toca a esta arte sonora a que se dá o nome de música. E não, na plateia não predominavam os curiosos ou aqueles que, de alguma forma, tentavam evitar a banda principal, a plateia compunha-se sim, maioritariamente, por fãs deste pai, cantando temas e incitando o músico ao movimento (como se ele precisasse disso...). Josh dominou o público do início ao fim, atribuindo ao espetáculo aquela dose teatral que tem faltado a boa parte dos recentes espetáculos musicais, cativando não só auditivamente como também visualmente pela forma como se desloca em palco: deita-se, salta, agita-se, ajoelha-se, corre, desce do mesmo... faz trinta por uma alinha sem nunca perder a classe e sem falhar uma nota.

O folk de bar chegou e bem para enfeitiçar os presentes, foi só ver a quantidade de braços estendidos em “I Love You Honeybear” e os abraços coletivos em “Bored In The U.S.A.”. Uma guitarra voa em “Chateau Lobby #4” e um magricela barbudo desce do céu para abraçar os seus seguidores durante “True Affection”, era Ele, o pai de todos nós, e no fosso permaneceu durante largos minutos até voltar, pela última vez, a visitar Fear Fun.

Sentimos uma emoção quase mística, uma felicidade inexplicável: “que se fodam os Radiohead”, ouvimos um rapaz dizer quando o seu grupo de amigos anuncia que vai abandonar o palco para conseguir um bom lugar para ver a banda britânica. Não fosse ele a dizê-lo, seríamos nós, que isto que se vê aqui não há “Creep” que o valha! Father John Misty não precisa de dirigir grande palavreado ao público para garantir a sua empatia: “este gajo nasceu para isto”, mais uma tirada de um completo desconhecido ao nosso lado com a qual também concordamos afincadamente. “The Ideal Husband” termina a melhor hora de concerto deste NOS Alive com Tillman a descer, novamente, ao público enquanto grita “I'm tired of running, tired of running, tired of running...” quase a roçar a confessionalidade do hardcore mais emocional. O público, que percorria as faixas etárias dos 18 aos 50 anos, salta, canta, diverte-se de forma verdadeira e controlada. Continuamos no mesmo festival? Depois do rock cru da Courtney Barnett poucas horas antes, Joshua Tillman revela-se sendo a rockstar.

 
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O momento chegara: “Burn The Witch”, single que revoltou todas as redes sociais há cerca de dois meses, abriu o concerto mais aguardado de 2016 em terras lusas. O palco era constituído apenas por seis ecrãs elevados alguns metros acima dos músicos, nada mais nada menos. Ecrãs laterais desligados ou em constante intermitência (quem estava mais atrás sofreu com isto) e a banda, que conta agora com mais um baterista ao vivo, a dar o melhor de si sem grandes rodeios, mantendo uma postura descomprimida, não comprometedora, como que dizendo “nós fazemos o que queremos e vocês vão sair daqui satisfeitos”. As danças características de Thom Yorke foram frequentes, a concentração de Colin Greenwood (irmão mais velhos de Jonny) enquanto se debruçava sobre o seu baixo foi, igualmente, agradável de se apreciar tal como as frequentes trocas de olhares entre os dois irmãos e a titânica estabilidade de Ed que não se diluiu a cada pancada dada na bateria, muito pelo contrário. Cabe a Thom assumir o papel de líder e comunicador, não se esforça mas fá-lo com uma convicção invejável, sabendo ler a plateia e quando tem que agir (lembramo-nos das palmas sugeridas em “Decks Dark”). Sem precisarem de dizer nada, os Radiohead passam a mensagem.

O quinteto despachou A Moon Shaped Pool quase todo de início, guardando apenas mais um trio de canções a serem tocadas de seguida, separando os derradeiros clássicos “Exit Music (For A Film)” (recebida sob um silêncio arrebatador) e “Everything In It's Right Place” um do outro. Funcionou. O disco desconhecido pela maioria encaixou no alinhamento às mil maravilhas e nem foi necessário uma grande adaptação dos seus temas ao vivo para que este funcionasse. A surpreendente “My Iron Lung” é a primeira antiga a aparecer e a agitar o público, hoje pendido para as malhas mais rockeiras dos ingleses. E é aqui que vemos o primeiro momento esquizofrénico de Jonny Greenwood enquanto este toca guitarra e se lança nos seus solos igualmente esquizofrénicos.

As eletrónicas e fantásticas “Everything In It's Right Place” e “Idioteque”, únicas de Kid A (onde ficou “The National Anthem”?) puseram as mais de 50 mil pessoas presentes no grande recinto do festival em puro desvario, contagiados certamente pelo vocalista que não se inibiu de uns “Uh! Uh! Come on!”, durante a última das quais, e de fazer a introdução que ficará na memória de todos os presentes quando decide soltar uns grunhidos (“abla bla bla da ba da bla”) enquanto gesticula com as mãos simulando um comando(?) antes de “Bodysnatchers”. Não sabemos o que foi mas gostámos. Pessoal, é assim que se comunica em Oxford.

O silêncio volta aquando do primeiro acorde de “Street Spirit (Fade Out)”, música arrebatadoramente triste que encerra o alinhamento regular. Para o encore ficaram a “rapsódia” chamada “Paranoid Android”, antecedida por três “Yes's” de Thom, que motivou mais uma descarga de energia nos presentes, e os goodies de Hail To The Thief (“2+2=5” e “There There”) que encerraram um concerto que nós julgávamos terminado.

Não sucumbindo à ânsia de nos pôr-mos a andar, a fim de conseguirmos ver as atuações dos outros palcos que já se haviam iniciado, esperámos, sem muita esperança de que a banda regressasse, só para ver no que aqueles apupos iam dar: deu num novo regresso ao palco e numa sempre surpreendente “Creep” a ser tocada em vez de “Million Dollar Question” (vimos na setlist) e que fez o concerto (feliz ou infelizmente) a muitos dos presentes. “Karma Police”, balada imperial de OK Computer que foi inacreditavelmente deixada de lado na sua atuação de há quatro anos, concluiu de vez um concerto que já passava das duas horas de duração, deixando, finalmente, no ar uma sensação de dever cumprido. Gostávamos de ter ouvido algo de Amnesiac (mais propriamente “I Might Be Wrong”) mas lá terá que ficar para uma próxima vez... esperemos que seja breve.

 
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Quando “Undercoven Martyn” explode no PA do Palco mais alternativo deste NOS Alive, somos imediatamente transportados por uma data de emoções que marcaram a nossa vida no ano de 2010. Sim, ouviram bem, os Two Door Cinema Club já se estrearam há seis anos e Tourist History ainda serve como porta-estandarte de uma carreira que já conta com mais dois registos discográficos, não sendo nenhum deles tão marcantes como o seu debut. É verdade, os irlandeses pouco se alteraram sonicamente desde então, mantendo-se fiéis ao indie rock que tão bem os caracteriza, tendo a capacidade de intercalar temas novos e antigos de uma forma tão coesa como ninguém. Temas esses sempre pautados pela rapidez e boa-disposição, cativando os miúdos e graúdos que aproveitaram o término do concerto mais aguardado do dia para viver glórias passadas ou, simplesmente, espreitar aquilo que o trio tinha para oferecer.

Com um palco a rebentar pelas costuras (de longe o concerto com mais gente naquele palco nesta edição de NOS Alive), o trio manifestou agrado em regressar a Portugal, sempre com Alex Trimble muito comunicativo e a contar as peripécias das novas canções. As antigas já todos sabiam e foi com os trunfos antigos que conquistaram uma plateia assumidamente fã que rondou a faixa etária dos 20-25 anos. “What You Know” encerra em completo delírio um concerto que se mostrou melhor do que aquilo que esperávamos. Os Two Door Cinema Club, com toda a fragilidade inerente à sua música, deram tudo o que podiam e uma coisa é certa: quem dá o que que tem, a mais não é obrigado.

 
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A festa prosseguiu passados vinte minutos, com cada um dos sete membros dos Hot Chip a posicionar-se no seu respetivo lugar e a dar início a mais um grande concerto neste dia 8. Se Father John Misty foi o melhor concerto do festival, este foi o melhor concerto dos afters.

Sem dar particular ênfase a Why Make Sense?, como seria esperado a priori, e com um alinhamento bastante diversificado, composto não só pelos maiores sucessos da sua restante discografia como também por alguns covers, os londrinos souberam dar ao público do Alive aquilo que este precisava: música de dança calorosa e plena em energia, sem quebrar o ritmo deixado a pairar no ar desde a banda anterior.

O dia (e a noite) já ia longo e os Hot Chip fizeram-nos esquecer que já passavam das 3 da manhã quando saltamos desenfreadamente após primeira nota de “Over And Over”, com direito a moshpit mais do que justificado. Há dança sincronizada em “Flutes” e, no meio da plateia, uma “torre” de três pessoas com a bandeira da União Europeia a esvoaçar no cimo da mesma, crítica clara ao Brexit, aquando de “I Feel Better”, cantada em uníssono pelas milhares de pessoas que não arredaram pé do palco Heineken.  “Dancing In The Dark”, cover de Bruce Springsteen (segundo cover da noite após “Erotic Lights” de Prince), deixa o público algo surpreso e fecha a noite como só estes Hot Chip o sabem fazer, guiando-nos de novo à estação de comboios com um largo sorriso no rosto.

 
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9 de julho, dia 3


 

Foi com um concerto curtíssimo de cerca de meia-hora que Little Scream se apresentou aos portugueses. Com um palco Heineken a meia casa e com um novo longa-duração por apresentar (Cult Following, editado pela Merge Records), Laurel Sprengelmeyer esforçou-se por tentar animar um público ainda em clara recuperação, tanto da semana de trabalho como dos anteriores dias de festa, não conseguindo atingir a sua missão principal. Detentora de um pop que ora roça a subtileza de uma Zola Jesus ora a ousadia de uns Scissor Sisters, conseguiu entreter os presentes o suficiente para que estes alinhassem nuns coros e ainda brinda-los com a participação de Richard Reed Parry (guitarrista dos Arcade Fire) em “Evan”. “The Kissing” encerra uma prestação agradável mas não surpreendente. Valeu pela boa-disposição da canadiana.

 
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Com tempo de sobra, rumámos ao Coreto para vermos a banda portuguesa do momento. Apesar da sua curta duração os Galgo já contam com três atuações neste mesmo festival, sendo esta a terceira e aquela em que, realmente, provaram o porquê de terem sido chamados. Com um público conhecedor da sua música, o quarteto da linha de Cascais mostrou-se eficiente no ato de tocar ao vivo, apresentando tanto canções já algo rodadas como “Torre De Babel”, que abriu o concerto (ou showcase, visto ter sido tão curto) e “Dromomania”, como outras ainda não lançadas que mostraram uns Galgo em clara auto-descoberta, afastando-se progressivamente das suas referências base e aproximando-se da sua particularidade enquanto banda. “Skela”, o single mais recente, acabou a festarola onde até água caiu do céu para os benzer.

Animados, seguimos diretos (não há que fazer grandes desvios) para o palco Heineken onde os Calexico se preparavam para transportar Algés para o deserto do Chihuahuan através da sua música tejana (ou Tex-mex), passando também pelo son e pela cumbia. Enfim, uma viagem pela cultura hispânica sul-americana onde até covers de Manu Chao, Los Galleros e Buena Vista Social Club se escutaram.

Com um banner representativo da capa do seu novo disco, Edge Of The Sun, os americanos do Arizona (e não da Califórnia como o nome pode induzir) revelaram-se na banda mais desenquadrada de todo o festival, quem por ali passasse a caminho da Pizza Hut ou de outra das muitas companhias de restauração poderia pensar que estava noutro festival: secção de metais, vibrafone, contra-baixo, surf guitar, músicas cantadas em espanhol... custa a crer que um pouco mais adiante estava a cantar o Agir. Nada contra, é disto que se quer num festival: diversidade, e é isso que tem faltado nos últimos anos não só neste Alive como na maioria dos restantes festivais de maior nome em Portugal. Faltam uns Calexico para acreditarmos que a música é mais do que os mesmos ritmos, os mesmos instrumentos, os mesmos trajes... para nos fazer ver que há mais música no mundo, mesmo que a música que estes Calexico interpretam não seja, propriamente, a do mundo deles.

Passando por quase todos os seus nove registos discográficos, falhando apenas um, Hot Rail, o mais jazzístico, pode-se dizer, os americanos vieram a Portugal para nos fazer dançar e conseguiram. Vimos, inclusive, um par corajoso a experimentar uns passos de salsa numa plateia bem composta mas com espaço para este tipo de brincadeiras. Só lá esteve quem quis, nós quisemos e não nos arrependemos. E, confessemos, nunca pensámos ouvir “Soledad” (dos Los Galleros) nem “El Cuarto De Tula” (dos míticos Buena Vista Social Club) no NOS Alive. Felizmente, há uma primeira vez para tudo.
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Também dos Estados Unidos da América chegaram os Band Of Horses nesta que é a sua terceira passagem pelo nosso país (segunda pelo festival) e, certamente, a menos bem conseguida. Sejamos francos, os Band Of Horses conseguiram chegar às massas? Sim. São uma banda de massas? Não. Tirando o fortíssimo single “The Funeral”, muito bem guardado para o fim, que recebeu airplay infinito fruto das muitos filmes ou séries americanas que estiveram ou ainda estão na berra, e uma não menos melosa “No One's Gonna Love You”, mesmo esta soando arriscadíssima em contexto de palco principal de festival, o quinteto não tem mais por onde agarrar uma plateia composta por fãs de ocasião como é a generalidade deste NOS Alive e, calculamos, dos restantes festivais europeus. Os Band Of Horses pedem frio, lareira, manta, sala escura e muita predisposição em chorar os desaires da vida, um nível de intimidade completamente ausente deste palco NOS.

Não obstante, e totalmente contra-corrente, o grupo conseguiu fornecer um concerto competente onde as novas canções (leia-se, canções pós-Infinite Arms) claramente mais fracas quase não constaram no alinhamento e onde se viu e ouviu uma sempre bela “Cigarrettes, Wedding Bands”. Ben Bridwell e companhia mostraram-se felicíssimos nesta sua nova passagem por Portugal e não se pouparam nos elogios ao nosso país e público, porém o sentimento não era claramente recíproco. Custa ver uma banda com a qualidade e potencial ao vivo dos Band Of Horses ser desperdiçada desta forma, mas é o que há.

 
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Num dia igualmente esgotado como o anterior, os Arcade Fire assumiam-se como a banda forte da noite, aguardando-lhes mais de 50 mil pessoas mal pisassem o palco grande deste festival que celebrava a sua décima edição. E foi com “Ready To Start”, tema que parece ter sido criado para ocasiões como esta, que iniciaram a sua prestação, conseguindo desde logo sacar os primeiros coros de um público assumidamente difícil, mas nada com que os canadianos não estejam habituados a lidar após os seus mais de dez anos de estrada.

Por incrível que pareça, foi durante as faixas de Reflektor que o público mais se manifestou, provando que os Arcade Fire deram um passo enorme após o lançamento do seu mais recente álbum, o passo mais importante de uma carreira muito bem construída e sem nenhum momento mau. Algo de que poucas bandas se podem orgulhar, ainda para mais surgidos já depois do novo milénio. Serão eles a melhor banda da nossa geração? A pergunta é demasiado sensacionalista e relativa para ser respondida, mas depois do que vimos, tanto neste concerto como noutras tantas ocasiões, caímos na tentação de responder afirmativamente.

Questionários à parte, os canadianos souberam entrelaçar as suas melhores canções num alinhamento tocado todo de seguida, sem converseta e sem encore, prontos para o que os trouxe cá. Após uma sempre sentimental “Afterlife” vemos Win Butler dar um ar da sua graça cantando “All Apologies” dos Nirvana antes de se atirar a “We Exist” e, pouco depois, fazer o mesmo com “Intervention”, retirada do não tão amado Neon Bible, e “God Save The Queen”, dos Sex Pistols, esta a servir de outro. “My Body Is A Cage” teve hoje direito a versão integral e “Ocean Of Noise” contou com participação especial da fantástica secção de metais dos Calexico, tornando os Arcade Fire numa banda ainda maior. Sucedesse isto num dos outros palcos e os músicos não caberiam lá todos.

As faixas de Funeral foram guardadas para o fim, qual sobremesa após uma deliciosa refeição: “Neighbourhood #1” e “Neighbourhood #3”, a inspiradora “Rebellion (Lies)” e “Wake Up”, intercalada com “Here Comes The Night Time” que teve direito a “cabeçudos” e a chuva de confetis, a matar de vez um concerto que, mais uma vez, roçou a perfeição. Pandeireta entregue, trabalho feito e um “obrigado” a ecoar pelo recinto.

 
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Longe vão os tempos em que os M83 eram uma banda de nu-gaze/dreampop e apesar de um Saturdays = Youth a demonstrar uma abordagem mais pop e um Hurry Up We're Dreaming, este assumidamente pop e álbum que o levou às bocas do mundo, muito bem conseguidos, não nos conseguimos esquecer de obras-primas como Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts ou até mesmo do disco homónimo. Felizmente houve espaço para tudo, não na quantidade que desejaríamos, é certo, mas Anthony não se deixou ficar mal e promoveu uma bonita viagem em torno da galáxia M83, guiando o público espaço fora, umas vezes auxiliado por Mai Lan, outras apenas pelos seus sintetizadores e companheiros de guerra.

“Reunion”, música com uma vibe algo nostálgica, vibe essa comum ao disco inteiro (aqueles anos 80!!), abre de rompante o concerto, usando e abusando dos ohohoh's aqui bem explorados diante de uma plateia já habituada a tal, ou não tivessem os Arcade Fire atuado minutos antes. A surpresa acontece quando a bonita “Sitting”, resgatada do seu primeiro disco, é interpretada para regozijo dos fãs mais antigos. Não esperávamos. “Midnight City” não termina: abre caminho às faixas ambientais como “Coleurs” e “Lower Your Eyelids To Die With The Sun” para brilharem no escuro, fechando assim o set com a primeira e única incursão a Before The Dawn Heals Us, com o francês acenando e despedindo-se de braços abertos dos fãs portugueses sob fortes apupos, deixando saudade, outro sentimento tão predominante na sua música, a pairar no ar.

Sentimos falta de uma “Teen Angst” ou de uma “A Guitar And A Heart”, mas para isso eram necessários, no mínimo, mais vinte minutos de atuação, tempo que Anthony Gonzalez não lhe viu concedido. Aguardemos então pelo regresso em nome próprio.

 
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Depois de uns Throes + The Shine demolidores e de uns Hot Chip super competentes, há que dizer que acabar o último dia de Alive com Ratatat não foi a melhor das jogadas. O duo bem tentou aquecer os presentes com "Loud Pipes” lançada logo de início, mas Magnifique não dá para mais do que uma contemplação taciturna de algo que vai decaindo com o passar dos anos. Foi com esse disco que chegaram, disco que não dá para mais do que aquilo que foi apresentado. É pena.

A fórmula de composição não é alterada desde 2004, fazendo com que não exista uma mudança muito significativa quer na sonoridade quer no sentimento transmitido pela própria música no ouvinte, causando a sensação de estarmos a caminhar sem sair do mesmo sítio. O concerto terminou com o mesmo impacto com que se iniciou e nem “Shempi”, guardada para o fim, salvou a honra do convento. Era ver o palco Heineken a esvaziar-se a cada música que passava até terminar com menos 1/3 das pessoas com que o concerto se iniciou. Mais sorte para a próxima.

 
por
em Reportagens
fotografia Mariana Vasconcelos

[Reportagem] NOS Alive'16
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