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Reverence Santarém 2017 [8-9Set] Texto + Fotogalerias

22 de Setembro, 2017 ReportagensJoão "Mislow" Almeida

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Reverence Santarém

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É sempre mau sinal quando a hesitação aumenta dentro de um recinto que segura o nome que outrora mais prometia ao público português. Mesmo sendo um mercado com grande promessa e rendimento artístico em Portugal, os festivais caminham sempre numa linha ténue que tanto os pode manter com um renome de invejar, como pode ser a morte do artista. Hoje falamos num caso que quase nos obriga a mudar de discurso pela gravidade de alguns dos acontecimentos com que nos deparámos no fim-de-semana do Reverence em Santarém. A começar por uma bilheteira que supostamente estaria aberta desde as 10 da manhã, surgem-nos várias dúvidas acerca de como tudo isto funciona afinal de contas, e mesmo com o benefício da dúvida, acabamos sempre mais desiludidos com todo o projeto ao do decorrer dos concertos.

Já seria de esperar um plano diário fisicamente exigente, provavelmente só ao nível dos mais experientes na caminhada dos festivais, mas ninguém compra um passe geral para o Reverence sem querer ver tudo. Para que todos consigam ver tudo o que desejam, os horários, os recursos, a funcionalidade da equipa técnica de som e algum senso comum no que toca ao controlo geral, têm de estar calibrados e em perfeita sintonia para que tudo corra bem e dentro de horas. Apesar das fileiras na bilheteira nos ter impedido de ver a primeira banda, prosseguimos o percurso para o recinto, e é com alguma surpresa que reparamos no espaço que nos aguardam mais de 10 horas de música. Qualquer um ficou desapontado ao notar na franca falta de verdura e carinho na organização das coisas que fazem de um festival uma experiência. Tanto os palcos pequenos, como a escassez de opções na restauração, o muito limitado mercado de merchandising e absurda decisão de enfrentar os dois palcos em direções cruzadas. Não há muito para ressalvar, tomando até em conta o que se ouviu das condições assustadoras do campismo e das instalações de luz a decorrerem enquanto uma banda tocava.

Há coisas que não escapam à consciência de quem apoia um festival com um historial desta dimensão. Evita-se mencionar nomes porque cada edição tem a sua personalidade, mas um espaço como este não cativa qualquer fã, esteja este a compará-lo com edições passadas como a festivais no geral, indiscutivelmente sem salvação. Havendo esta dificuldade, todos tentam redimir as suas considerações com a música e, francamente, deixa de haver muito por onde agarrar a partir do momento em que as dificuldades técnicas passam a viver em conformidade com todo e qualquer concerto que passa pelos dois palcos. Se calhar é-se demasiado exigente ao pedir um plano diário com mais de 10 horas de música sem que metade do tempo seja gasto em ouvir falhas técnicas no som. Quase faz parecer que a teimosia da equipa técnica matou a vibe do palco. São inúmeros os momentos, como nos arranques de concertos de Mono e Oathbreaker, onde mesmo que as bandas estejam no seu auge em palco, caso de Löbo, Névoa, Chinaskee e Os Camponeses e os The Underground Youth, as equipas de som simplesmente não deixaram os concertos fluírem com clareza e distinção, minimizam o impacto e, no final do dia, é a banda que sofre.

De ressalvar as grandes contribuições de espetáculo onde podemos mencionar os The Gluts, Desert Mountain Tribe, Oathbreaker (apesar de não se ouvir a voz da Caro, problemas técnicos, outra vez!), Cows Caos, I Am The Ghost Of Mars, The Underground Youth, Pás de Probléme e Hills. Num patamar diferente, elevam-se com imensa força os belgas Amenra que conseguiram uma fusão anti-térmica entre o frio arrasador da Ribeira de Santarém com o calor demónico de todas as malhas que tocaram. Como arquitetura divinal, é difícil não encontrar nesta banda uma aura de excelência quase que religiosa. É no ímpar de distorção catártica que sentimos como uma chicotada de sangue embelezado a ostentação de iluminação através da dor. Com a exploração constante dos graves pujantes e da dissonância penetrada pelo peso do crucifixo de três pontas.

A estaca elamina-se como um corte insustentável quando nos apercebemos que ao lado de uma performance tão curta para a sua intensidade, surgiu uma banda portuguesa à qual estamos mais do que familiarizados, a espantar-nos com o facto desta conseguir a seu direito um espetáculo de duas horas e tal, em comparação com a subestimada hora do mamute presencial que os antecedeu. Evitam-se comparações, certamente, mas passa-nos pela cabeça a ideia de que se calhar Moonspell poderia ter tocado menos e Amenra mais, sem rebaixar aqueles que ajudaram a colocar Portugal no mapa. É uma questão de medida. O que preferem todos ouvir? Uma banda que promete e que raras são as vezes que ganham oportunidade de nos visitarem, ou a banda que todos nós conhecemos e ao som da qual nos encostamos à sombra da bananeira, cuja identidade e atitude não condiz com aquilo que tem sido representação do festival desde o seu surgimento? Com um set tão ostensivamente longo, é impossível não atrasar tantas das outras bandas que havia desejo para ver. Depois de uma absurdidade daquelas, o público começou a dispersar e a encaminhar-se para o descanso, em troca de ver nomes como Bo Ningen, Sinistro e 10000 Russos. Na verdade, é humanamente impossível viajar, caminhar num constante, sem grandes opções para descanso, deixar acontecer o que aconteceu com Moonspell e aguentar até às 7 da manhã para ver tudo na programação. Infelizmente, todos têm limites e o público merece mais.

No segundo dia pudemos contar com uma presença quase paradisíaca dos veteranos suecos Träd, Gräs Och Stenar a ritualizar as tribos da espiritualidade do rock’n’roll, e em plano absoluto podemos observar em grande panorama a redenção dos japoneses Mono daquilo que foi uma atuação não tão memorável na última edição do Amplifest. A simplicidade dos instrumentais e grande elaboração de textura e cor são alguns dos motivos pelos quais podemos chamar a estes japoneses os patrões do segundo dia. Mas mais uma vez, é inevitável mencionar o quão desmedido este tempo de antena se torna quando ainda sobram cerca de 6 outras bandas. É do conhecimento de todos que a tradição dos concertos tardios pertence à genética do Reverence, mas isto até poderia funcionar com mais fulgor se o desenho do projeto e a filosofia do trabalho contasse com mais amor e a carinho na sua dedicação.

Com uma despedida algo ansiosa e bastante desiludida, é com algumas palavras de apreço pelos antigos cartazes e projetos do Reverence que pedimos com um tom construtivo para que redimam esta edição e dêem luz àquilo que é a verdadeira cultura do cartaz. Saudades do antigamente.

 



Galeria com The Gluts, Gossamers, Desert Mountain Tribe, Oathbreaker e Zarco
 

Galeria com Amenra, Moonspell, Névoa, Bo Ningen, Sinistro e 10000 Russos
 

Galeria com The Underground Youth, Siena Root, Träd Gräs Och Stenar e Cows Caos
 

Galeria com Gang of Four, Pás De Problème, Mono, Hills, LÖBO e Esben and the Witch
 
por
em Reportagens
fotografia Daniela Jacome

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