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Rodrigo Leão – A Vida Secreta das Máquinas @ CCB – Lisboa [24Mar2015] Texto + Fotos

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Cá estamos nós outra vez, de volta ao CCB, desta feita, para ver o novo projeto de Rodrigo Leão. O músico dispensa apresentações mas este seu novo projeto ainda necessita de algumas: “A Vida Secreta das Máquinas” surgiu numa viagem que o músico fez a Goa (Índia), captando sons de diversos eletrodomésticos com o seu telemóvel. A ideia ganhou maior impacto aquando do Festival Lisb/On Jardim Sonoro (que ocorreu nos jardins do Parque Eduardo VII) e onde a estreou ao vivo.

Agora, já após um disco lançado (de 12 músicas), o músico decide trazer a ideia para mais junto do seu público nas grandes salas do país. Dia 24 foi a nossa vez de comprovarmos como soa ao vivo, esta sua nova aventura.

Sala escura, com os músicos a tocarem em contra luz atrás de um pano translúcido. É o início da viagem! Em “Fábrica Em G#” e “Muv” encontramo-nos já rendidos à genialidade do músico e percebemos o quão ambiental e trip-hop (quase chill out) é este novo projeto do ex-Sétima Legião. O músico pouco fala durante a atuação, apenas quando é estritamente necessário. E ainda bem.

A viagem continua pelas planícies desconcertantes de “Nocturnos”, onde o trombone faz a sua primeira aparição. A maneira como estas músicas se encaixam entre si é soberba, tornando este disco como uma autêntica experiência de vida, como uma longa viagem de comboio, à noite, pelo interior da Europa de leste.

Sensivelmente a meio do concerto, o músico interrompe a viagem e a maquinaria toda para tocar “três músicas das mais antigas”, proposta que o público aceitou com ânimo. “Alma Mater”, “Estrada” e “Comédia de Deus” foram as composições escolhidas para recordar os seus antigos trabalhos. O concerto, regressado às ambientalidades mais eletrónicas, prosseguiu suavemente, como se quer, enfeitiçando os presentes com as melodias compostas em palco. “Biometria” (com o quarteto das cordas a fazer milagres) e “136”, ambas acompanhadas por vídeos das mais diversas maquinarias antigas e/ou modernas (industriais e utilitárias) encerraram, indefinidamente, o concerto.

A surpresa da noite aconteceu no encore, com o músico, de forma homenageante, a tocar “Minha Cabeça Estremece”, poema de Herberto Hélder musicado por Rodrigo Leão, em 1997, e dedicado ao escritor após ter falecido na manhã daquele mesmo dia. Sem dúvida uma perda importante para a cultura portuguesa.

O espetáculo terminou, por fim, com uma segunda interpretação de “Fábrica Em G#” que nos dissolveu num transe profundo ao longo dos seus mais de 5 minutos de duração para depois acordarmos e reagirmos como se nada tivesse acontecido.

Fomos limpos auditiva e psiquicamente. Chegámos ao paraíso, encontrámos Deus e regressámos à Terra. Se esta é mesmo a vida secreta das máquinas então esperemos que Rodrigo Leão continue a desvendar todo o seu secretismo, de modo a podermos disfrutar mais algum do seu encanto num futuro próximo.

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Por Diogo Alexandre / 30 Março, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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