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Russian Circles – Hard Club, Porto [11Mar2017] Texto + Fotos

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Why should we be here talking, arguing? Believe me Anna, words are becoming less and less necessary, they create misunderstandings

– L’Avventura, Michelangelo Antonioni

 

Pudera todas as semanas acabarem como esta acabou. Apenas em março e já conseguimos contabilizar danos colaterais nas carteiras dos aficionados da música pesada, especialmente numa altura onde conseguiram entrar em território português os ucranianos Stoned Jesus, os míticos suecos Entombed A.D. e ainda os americanos Russian Circles. Só de imaginar o potencial deste tridente e aquilo que podia vir a ser um final de semana ao nível de tão poucos, verdade é que não chegou nem de perto nem de longe àquilo que esperávamos. Este é um capítulo do nosso cenário musical que não terá paralelos em breve, e tomando em conta a dificuldade que tem havido para dar continuidade à atividade de certos e determinados projetos do norte ao sul do país, ainda conseguimos encontrar nomes, equipas e famílias, caso da Amplificasom, que ainda conseguem reunir condições e apresentar argumentos como se nada fosse. Mesmo excluindo o Amplifest, no ano passado a Amplificasom compôs uma linha de atividade de encher a medida a qualquer melómano – por isso mesmo, as expectativas para o presente ano são mais altas e a dedicação merece essa exigência. Apesar da edição de 2017 do Amplifest ainda não estar à vista, não nos podemos queixar da falta de trabalho por parte da Amplificasom, que tem anunciado desde o final do ano passado nomes que recheiam a nossa consciência com a ideia de que este ano, não vai ser para esquecer. Emma Ruth Rundle em abril, Wovenhand em maio, e Russian Circles que tocaram ao lado dos Cloakroom, neste último sábado no Hard Club.

Só o nome da cabeça de cartaz foi suficiente para nos convencer a marcar presença. Os Russian Circles têm vindo a acumular experiência e peso na discografia de tal forma que cada vez mais os vemos a preservar um estatuto de veteranos nesta última geração de bandas post-rock oriundas dos Estados Unidos. Russian Circles é uma banda que encontra facilidade em explorar linhas de arquitetura em estruturas de escrita efetivamente simples e minimalistas. O poderio do som americano provém principalmente dos flancos enormes de riffs despidos e sublinhados por uma distorção deslavada, isto tudo sem denunciar as discretas influências que a banda tem dos míticos Neurosis e Melvins. Mesmo com o peso, o grupo desenvolve argumentos para se expor de uma forma plena em vulnerabilidade emocional, com a presença de melodia, atmosfera e textura. Algo que ao fim ou ao acabo, será sempre um desafio para uma banda que deseja transpor-se de uma forma puramente instrumental. A discografia da banda é uma evidência clara de que o grupo conseguiu e ainda consegue traduzir uma linguagem que poucos artistas hoje em dia conseguem aprofundar com clareza e segurança. O último álbum do grupo, Guidance, é o motivo pelo qual contamos com esta visita da banda. Um registo que, apesar de não ter sido o mais forte, consistente e sólido dos americanos, continua a dar continuidade à imagem dos últimos seis anos do trio. Enquanto, por um lado, preservámos muita expectativa para um concerto de luxo, por outro, não fazíamos ideia o que esperar.

Referimo-nos, claro, à muito cobiçada banda surpresa, mas que fique aqui esclarecido que se fez justiça quando um casal de guitarrista e baixista muito inesperadamente começaram a tocar no piso do público no arranque da noite. Numa enchente de caras estupefactas e marés de pessoas inesperadamente separadas pelo constrangimento de estar numa sala tão grande e ter os músicos entre o público, deu para perceber que esta trip tresloucada de noise rock e atitude de playboy era proveniente da dupla italo-francesa Putan Club. Mesmo com a sua postura evasiva e independente, comentários sociopolíticos e impropriamente sexuais, é inevitável testemunhar à iluminação crua dos holofotes o suor, o sangue e a pura ausência de receio destes dois campeões. A música tem pouco volume quando os próprios artistas são a exposição, mas encontrámos uma simbiose perfeita, e não há uma cara risonha e um coração rendido ao discurso destes dois, que consiga dizer o contrário.

A entrar noutro campo, voltamos ao palco grande para conhecer os americanos Cloakroom. Para quem os desconhece, estes são um trio de emo/punk de Indiana que se deu a conhecer principalmente pelo EP de estreia Infinity, através da Run For Cover em 2013. Dois anos depois lançam Further Out e recentemente oficializaram contrato com a colossal Relapse Records. Estreiam-se em Portugal para um público que queria peso, portanto notámos em algumas caras a relutância inocente em abrir os braços para ritmos mais parados e melodias que transpiram silhuetas de Smashing Pumpkins e de Mineral. Uma atuação que ficou a ganhar não só pela suposta complexidade estrutural da música, a opor-se à simplicidade do som, mas também pelo puro contraste que se fez entre a banda de abertura e a cabeça de cartaz. Isso ajuda-nos a ver um carinho isolado perante um grupo que não se sente num palco grande, mas sim numa cave na sua cidade natal, e poder recriá-lo numa sala praticamente cheia, é um luxo para quem quer ouvir uma banda genuína.

 

 

Com Russian Circles foi diferente. Houve impaciência aquando da entrada da banda em palco e o arrancar do ruído, mas quer queiramos quer não, isso só ajudou para saciar e entender o quão grandiosa e bem conseguida foi a performance deste trio num Hard Club abarrotado. Com uma setlist a convencer adeptos dos registos menos  recentes, e ao mesmo tempo a insistir no último álbum, esta foi uma entrega de emoção que deixou muito pouca gente insatisfeita. A marcar mais de uma hora de música, os pontos altos foram marcados pela entrada de “Vorel” no início do concerto e o arrepiante e abrasivo riff a meio da “Harper Lewis” que ergueu na nuca de qualquer ouvinte mil e um arrepios dignos de serem sentidos, ou até mesmo “309” que é um claro favorito do público, tal como “1777”, que abraçou um enxame de assobios e palmas por parte das centenas de caras rendidas à beleza crua da melodia do refrão.

Contudo, algo que não é capaz de ser sobreposto por isto tudo, é o encore com a visão de coloridas silhuetas a percorrer o palco e elevar de novo os instrumentos para massajar as cordas e bater a pulsação do ritmo à imagem de “Youngblood”.  Inquestionável, ensurdecedor, intimidante e imperial. Como arquitetura sem visão, livre e despida, as guitarras entram numa espiral de distorção temível. E com uma despedida sem palavras, apenas com um gesto, o do adeus, a banda agradeceu e nós, rendidos a um palco e às encadeantes luzes como pequenas crianças no nosso primeiro concerto, agradecemos a eles.

 

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Por João "Mislow" Almeida / 15 Março, 2017

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