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SEMIBREVE 2016 • A Eutopia da música eletrónica em Portugal

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Se, em 1516 o termo “utopia” (ουτοπία) foi cunhado por Thomas Moore, derivado do termo τόπος (lugar) e do prefixo οὐ (não), significa um “não lugar”. No entanto, o este mesmo título serve um texto que pretende ser ao máximo o mais realista, na aceção mais simples da palavra, que se serve de paratextos na versão final de 1518, para atestar a sua realidade: da obra como um mero relato feito por Thomas Moore de uma conversa entre este, Peter Gilles e Raphael Nonsenso e do lugar descrito por Nonsenso, Utopia. Em “An Introduction to Modern English Word-Formation”, Valerie Adams afirma que “eutopia” foi cunhado no ano seguinte, também do grego, Εὐτοπία, a partir do prefixo εὐ (bom), adquirindo o significado de bom lugar, ou seja, tornando esse lugar num lugar físico, existente e alcançável. Há quem alegue, como por exemplo na edição da obra completa de Thomas More da Yale Press University, que Thomas More tenha, na realidade considerado a sua ilha Utopia como uma verdadeira eutopia: um modelo a seguir.

Apesar de todos os dicionários que foram consultados até agora nos darem a ideia de que nos encontramos perante uma palavra obsoleta, decidimos ressuscitá-la: o Semibreve é a eutopia da música eletrónica em Portugal. Num país que, ainda, carece tanto de oferta no cardápio da música eletrónica, o Semibreve veio ocupar um lugar de destaque e consumado a norte do país. Braga tornou-se a capital dos curiosos, ou dos já versados no assunto; tanto de portugueses como de estrangeiros, de todos os géneros ou escalões etários, Braga torna-se o epicentro da música eletrónica. Tudo é coordenado e organizado com tal mestria que não é de espantar que o festival tenha conquistado um publico fiel, que esgota passes gerais rapidamente ou que até esgota os primeiros passes, mesmo sem ter sido anunciado qualquer nome anunciado: quando existe tal confiança cega na qualidade dos cartazes, é porque existe, já do passado, uma tradição de bons cartazes que nunca desiludem. Tal confiança também se manifesta numa cobertura mediática com algum peso: desde Q&A da publicação The Wire até a destaques nos melhores festivais a decorrer no mês de outubro pela Resident Advisor. 2016 não poderia deixar de ser um desses casos: desde aos ritmos mais psicadélicos de Kaytlin Aurelia Smith, à calculada e quasi-cientifica eletrónica e eximia componente visual de Paul Jebanasam e Tarri Barik, até ao techno arrancado das ruas de Detroit de Laurel Halo, o Semibreve voltou a marcar e a somar pontos.

 

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O mote de partida foi dado por Kara-Lis Coverdale em colaboração com o artista visual MFO, que já trabalhou com grandes nomes como Roly Porter, Ben Frost, Clark e Kode9. O set de Coverdale foi extremamente competente, mas distante e frio. Se a priori encontrávamos já uma distância vincada através da tela colocada à frente de Coverdale e os visuais que ocuparam um lugar primórdio face à americana; a posteriori essa distância foi ainda mais acentuada com uma atuação maquinal e por vezes desprovida de interesse de Coverdale. Teria sido de esperar que as composições urdidas ao pormenor, ganhassem uma nova vida e uma nova dimensão e profundidade, mas, em vez disso as texturas urdidas no álbum soaram mais flat que nunca, num tom de monotonia que nos deixou indiferentes a Kara-Lis Coverdale.

Logo de seguida, e ainda no Theatro Circo, Kaitlyn Aurelia Smith. Já seria de esperar que os seus sintetizadores modulares da Buchla fossem o centro da atuação de Kaytlin já que são uma parte central da composição do seu mais recente álbum, EARS. Mas, nem que se tratasse de um patrocínio, a existência de uma câmara superior que captava o Buchla e o projetava na mesa, não fez qualquer sentido. O ponto fulcral do set de Kaitlyn foi, e sublinho, a sua música. Passando por múltiplos temas de EARS sempre num tom de tropicalismo semi-psicadélico traçado a chamber pop que tanto se aproximava como refutava uma influência de Panda Bear, a americana trouxe uma energia única ao Theatro Circo que poderíamos descrever como uma eletrónica orgânica: nunca uma máquina nos fez estar tanto em contacto com o que é natural, orgânico, humano. Para acrescentar ainda mais a um do que foi dos melhores sets que o Semibreve recebeu nesta edição, Kaitlyn Aurelia Smith apresentou três temas que (ainda?) não foram lançados, estes que se viraram mais para a eteriedade da sua voz, com letras mais intimistas e afastando-se ligeiramente do semi-psicadelismo.

 

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De seguida acorremos à estreia de Andy Stott a norte do Douro, com expectativas quiçá demasiado altas. O americano, que era um dos nomes aguardados mais da noite, perdeu-se na sua própria tentativa de reinvenção, afastando-se completamente do seu trabalho em estúdio. Estivemos perante um set competente mas que, em parte nenhuma, refletiu a eletrónica abrasiva e repleta de comoção de Stott: tivemos perante techno despido de identidade, como uma mera fórmula cientifica que aplicamos vezes sem conta mecanicamente, infimamente e até ao mais pequeno detalhe estudado. E o que faltou a Stott, Nídia Minaj teve em sobra, num DJ set em que passou muito breve e superficialmente no seu Danger, lançado no ano passado. Ainda assim, e como já havia provado no Milhões de Festa, Nídia Minaj sabe exatamente como colocar uma sala em movimento, e não foi com espanto que fomos convidados a sair do GNRation, lá pelas cinco da manhã.

 

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Este ano o Semibreve não descurou o mais pequeno pormenor, e numa tentativa bem-sucedida que devia de ser seguida como exemplo, transpôs um pouco da essência de Braga para o festival. Sendo Braga uma cidade com uma tradição religiosa tão acentuada, com um número avultado de edifícios religiosos, mais especificamente católicos, tivemos o privilégio de ouvir as composições de Christina Vantzou com o Harawi Ensemble na Capela Imaculada do Seminário Menor. Dificilmente encontraríamos um lugar mais adequado para receber as composições voláteis, intangíveis e celestiais de Vantzou, saímos de alma e corpo cheios. Já de volta ao Theatro Circo, palco principal do Semibreve, e de encontro marcado com Tyondai Braxton – mais conhecido como antigo líder dos Battles, mas que o seu “reportório” vai muito para além disso, desde o seu trabalho em nome próprio a composição de obras sinfónicas de grande escala. Braxton teve um inicio fraco, com visuais fracos e com uma faixa demasiado descompassada, energética e com demasiado a acontecer. No entanto, depois deste inicio, o set começou a evoluir para composições realmente interessantes, assim como os visuais: quando demos por nós estávamos perante um dos sets mais cativantes de todo o festival até ao momento. Pena é que, por algum desaire ou por alguma falha técnica nos sintetizadores modulares, o set tenha sido encurtado mesmo quando já nos encontrávamos completamente envolvidos com Tyondai Braxton. Aguardamos um regresso para breve.  Depois de três passagens por Portugal, Laurel Halo regressou a Portugal com dois dos álbuns mais marcantes do acervo da Hyperdub; Chance of Rain e Quarantine e com, provavelmente, material a ser lançado em 2017. Com sonoridades arrancadas das ruas de Detroit e influências das ruas de Berlim, a música eletrónica contundente e lancinante de Halo proporcionou um exorcismo do corpo e da mente através de uma dança completamente descoordenada por parte do público: estivemos, sem dúvida, perante um dos melhores sets desta edição do Semibreve.

 

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Chegados a domingo, último dia do festival, chegámos também à hora mais aguardada de todo o festival:  o set de Paul Jebanasam e Tarik Barri. Depois do lançamento de Rites em 2013, Jebanasam regressou aos discos em 2016 com um dos álbuns mais fascinantes do ano: Continuum é um álbum paradoxal que se foca na potência da natureza que só se consuma sob a direção da ciência, que oscila entre momentos de dureza e hostilidade sonora e de calma tingida de feedback e arranjos minimalistas. E foi nestas forças em que oscilamos durante o set de Jebanasam com uma variável nova nesta equação, nomeadamente a emoção. Triplamente paradoxal, o set de Jebanasam bamboleou nas franjas do que é orgânico, mecânico e emocional, sendo igualmente abrasivo e vulnerável. Os visuais de Tarik Barri, – apesar deste álbum ter sido concebido como uma experiência audiovisual, como um todo, –  tornaram-se quase num acessório, que acrescentou muito ao set de Jebanasam decerto, mas que não se impuseram como estritamente necessários face às composições de Jebanasam. Estas que falam por sim, para si, para todos, para ninguém, sobre tudo, sobre nada, quase numa metafisica pessoana, se Pessoa tivesse tido um cientista do MIT. Em delicados feedbacks ou em graves comoções de energia, Jebanasam fez do Theatro Circo um espaço sem espaço, onde nos fragmentamos, onde nos revisitamos como indivíduos, como espécie moduladora do mundo.

 

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Por Sara Dias / 7 Novembro, 2016
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