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SEMIBREVE 2017 • A convergência entre passado, presente e futuro

05 de Novembro, 2017 ReportagensSara Dias

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Semibreve

And So I Watch You from Afar - Hard Club, Porto [29Out2017] Texto + Fotos

Black Lips - Maus Hábitos, Porto [28Out2017] Foto-reportagem

Come as closer as you can to the stage, this is about sound and your body. Everybody will have a different experience (…) even though we’re all different we’ve come together to share this experience, this is solidarity through sound.

Esta é a essência do Semibreve, e não poderíamos encontrar melhores palavras para a descrever que as do incontornável compositor australiano Lawrence English. O Semibreve ergue-se como um santuário de reverência ao som na sua faceta multi-disciplinar, uma solidariedade que se estende para lá da religiosidade, mas que assenta na sensibilidade individual. Do ostensivo Theatro Circo, à beatífica Capela Imaculada do Seminário de Nossa Senhora da Conceição ao semi-hodierno gnration, o festival continua a demarcar-se pelas exímias condições acústicas das salas e pelo seu formato único: não há filas, não há correrias, não há sobreposições; há tempo para tudo, até para conhecer os restaurantes típicos de Braga (apontem para a próxima edição: Adega Malhoa!) e para visitar o Sameiro ou o Bom Jesus, ou até os dois, quiçá.

O festival regressou com um programa que se destaca pela convergência do passado, do presente e do futuro, desde a colossal e já histórica Beatriz Ferreyra, até às batidas arrítmicas e futuristas de Kyoka. Findada a sétima edição, o festival bracarense reafirmou-se como um dos eventos mais importantes no panorama nacional, com um público altamente fidelizado e com a devida projeção internacional.

A já histórica Beatriz Ferreyra surgiu-nos como uma octogenária vinda do futuro: manipular um sistema de difusão de oito canais não é para qualquer um, muito menos com a mestria que testemunhámos no Pequeno Auditório do Theatro Circo. Sempre afável e sorridente, Ferreyra apresentou as três peças que nos tinha preparado, Dans un point infini, Echos e L’autre rive. Este foi um set coeso, demarcado pela desconstrução do espaço sonoro, pela imprevisibilidade e pela evidência do silêncio. Echos, uma peça extremamente orgânica e com uma delicadeza sui generis, acabou por ser o ponto alto. Esta peça foi composta a partir de vários temas populares da América do Sul, na voz de Mercedes Cornu, fragmentada em pequenos fonemas fulminantes ou prolongados, tosse, respiração, risos e silêncios - numa peça que se centra na fragilidade e na espontaneidade do que é ser humano.

Beatriz Ferreyra © Semibreve / Adriano Ferreira Borges


Também na categoria dos pesos históricos desta edição do festival encontrava-se GAS, considerado um elemento chave da disseminação do minimal techno na Alemanha dos anos 90. Munido de um computador, Wolfgang Voigt apresentou um set que ficou parado no tempo. Se a parte visual ficou aquém, uma vez que se colou à estética das suas capas dos álbuns, o mesmo podemos dizer do set de Voigt: pouco coeso e demasiado colado ao que já ouvimos em Narkopop, não teve dinamismo, tornando-se um set previsível, e, por vezes, mesmo aborrecido. Esperava-se mais, uma ambiência mais cinematográfica e uma envolvência mais orquestral, mais imponente, mais desconstruída, que nos desse outra perspetiva sobre o álbum - mais rico, mais detalhado e mais denso do alemão.

Na abertura das hostes estiveram os Visible Cloaks, que entre o que nos pareceu uma flauta e um vibrafone eléctricos, computador e alguns synths analógicos deram o set mais colorido e descontraído, feito da matéria dos sonhos e da impalpabilidade do inconsciente. Este foi um set delineado pelo exotismo e excentricidade manchado por influências de vaporwave e ambiente (ou, quiçá, vice-versa), e pelos visuais sarapintados e multidimensionais de Brenna Murphy. As portas da perceção foram abertas. Na mesma panóplia de vanguardismo traçado a psicadelismo, Karen Gweyr assumiu o controlo da pista para encerrar o primeiro dia do Semibreve, no gnration. Apenas com synths analógicos, Gwyer construiu um set para os animais da pista, com o seu quê de psicadélico e com ritmos em loop, cíclicos e para quem tem os pés leves. Dançámos que nos fartámos. Já Steve Hauschildt deixou a kosmische de lado, para nos apresentar um set despido, minimalista, muito mais aproximado ao ambient de um Tim Hecker do que ao kraut de uns Tangerine Dream. Ainda assim, o imaginário de Hauschildt impôs-se pela sua subtileza, assim como a sua competência, aproveitando o melhor possível a acústica da Capela Imaculada.

Visible Cloaks © Semibreve / Adriano Ferreira Borges


No polo oposto da tenuidade de Hauschildt encontramos a hostilidade de Rahbi Beaini. A figura de Beaini perfilava obscurecida e escondida por uma parede de amplificadores como um aviso ostensivo da sova que iríamos levar. Difícil de situar, o set de Beaini assemelhou-se a um pós-tudo que incluiu tudo - desde o kraut à darkwave e com uma afinidade especial com o industrial. Os synths analógicos e a voz distorcidos ao núcleo, numa passivo-agressividade que irrompe como um soco na pança a cada kick. Também um soco na pança foi o set de Kyoka: a grande surpresa desta edição. Entre o noise e o techno fodido, e com nuances de dub e pop, Kyoka trabalha os beats com uma perícia incomparável, numa arritmia dilacerante, mas com uma sustentação dancável qb.

Da nova escola de "emotional engineering", que tem vindo a convergir em torno da Subtext (label encabeçada por Paul Jebanasam e Roly Porter, dois nomes que passaram em edições passadas do festival), chegaram-nos, em estreia nacional, Oliver Peryman e Yair Elazar Glotman.

Acompanhado de Jovan Vucinic, FIS foi um dos grandes vultos e destaque desta edição, pela completude e coesão do seu set, que foi o único que teve os visuais a ser manipulados ao vivo. Esta foi a melhor performance audiovisual, não só devido a este último ponto, mas também porque foi a única que se afirmou categoricamente como uma entidade una e indissociável. Dentro de uma lógica binária entre o homem e a máquina (não vamos esmiuçar analogias ao Blade Runner, ainda que fosse possível), entre o orgânico e o construto – na qual os visuais corresponderam ao natural entre sequências da ondulação do mar ou close ups de flores ou insetos. No entanto, este é um pensamento binário que não diverge, mas que se toca e que se confunde. Se a imagem mostra a natureza, a própria câmara é um instrumento. A construção desde set insistiu na desconstrução e exploração de From Patterns to Details, fragmentada, dilacerada, quase humanizada, como uma materialização mecânica da emoção pura.

Blessed Initiative © Semibreve / Adriano Ferreira Borges


Dentro de uma mesma lógica de fragmentação está Blessed Initiative, mas que aqui assume uma exploração do som por si. Glotman é um alquimista do som: a relação do som com o espaço e com a percepção é sentida de uma forma física, como uma presença palpável na sala.

Que têm em comum Lawrence English e Deathprod? Para além da admiração mútua, a jarda filha da puta. Deathprod despiu-se da orquestração da última trilogia de álbuns, e puxou de influências noise, para nos dar um dos melhores serões que já tivemos na vida. Num jogo de contrastes entre silêncio e som, entre partes contundentes e fleumáticas, a agressividade foi a única constante. De tal forma agressivo que, quando chegamos ao Pequeno Auditório para ver Blessed Initiative, ouviu-se entre as conversas do público: “meu… deathprod foi muito intenso, tive de sair ao fim de 20 minutos”.

Ainda que a fasquia estivesse elevada, Lawrence English conseguiu superá-la: chamou-nos para os lugares mais avançados, convidando mesmo os seus discípulos do workshop “Radical Listener” para se deitarem no palco - a proximidade desempenhou um papel importante. Esta performance centrou-se no impacto do som no corpo, na sua percepção sensorial, no limbo dos limites e das limitações de um corpo face a uma forma bruta e extrema como podem ser o som e o barulho. Foi um set memorável, facilmente um dos melhores do ano, quer pela exigência física, quer pela exigência mental. Sentíamos as vibrações do som na garganta, na cara, no peito: uma experiência multi-sensorial, com todas as facetas da violência, até a mais sedutora. Para English o som tem várias facetas*, mas no Semibreve o som assumiu-se como uma auto-consciencialização máxima e como uma forma de solidariedade (“solidarity through sound”). Apesar de termos percepções diferentes - e aqui já extrapolamos do set em si para algo mais universal - juntámo-nos todos para partilhar uma experiência. E também isto faz parte da essência do festival.

Quem vos avisa, vosso amigo é: comprem os bilhetes para a edição de 2018 o mais cedo possível. Mais vale um bilhete na mão, do que dois a voar.

© Semibreve / Adriano Ferreira Borges


*A relembrar o ensaio publicado na FACT “The Sound of Fear: The history of noise as a weapon”, em que English equaciona o som como uma arma.

 
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