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Super Bock Super Rock 2017 [13-15Jul] Reportagem

26 de Julho, 2017 ReportagensRafael Baptista

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Super Bock Super Rock

Hellfest 2017 - Day 3 [18Jun] Live Report + Photo Galleries

NOS Alive'17 [6-8Jul] Texto + Fotogalerias


 

São praticamente 18h00 quando entro no recinto, o primeiro concerto já começou. Demora-se para entrar, a policia vasculha todos os compartimentos de todas as malas de toda a gente. Para que servem os detetores de metais afinal? Aquando da minha entrada, ao preparar-me para tirar a bolsa que tinha à cintura, o policia diz-me para não o fazer, pergunto se não vai apitar, a resposta foi simples: “vai”. Passo, tudo apita, sou revistado e entro. Detetores de metais para inglês ver, como se o festival já não tivesse coisas suficientes só para os ingleses verem. Nem eu sabia bem o que me esperava.

Desde o seu inicio que o SBSR é um grande festival mas, verdade seja dita, há muito que deixou de ser um bom festival – se alguma vez o foi, boas edições teve-as, mas consistência nunca foi o seu forte. Andou aqui e ali na marginal Lisboeta, para depois andar aqui e ali na península ibérica, andou uns anos pelo parque das nações e foi 50-50 com o Porto. Entre estas mudanças espaciais trouxeram grandes intemporais como Bowie, Rage Against The Machine, Spiritualized ou Tool, mas também grandes merdas como Kean, Nouvelle Vague, Wednesday13 ou Duffy. Em 2010 mudou-se de malas e bagagens para Sesimbra, adquirindo pela primeira vez o formato de festival de verão.

A Herdade do Cabeço da Flauta, próximo da Aldeia do Meco, foi o local escolhido na altura por la ter sido realizado o Hype@Meco também pela Musica no Coração. Apesar da herdade já ser conhecida pela organização, o festival teve os seus problemas, era fodido arranjar lugar para estacionar e para montar a tenda, ao mínimo bater de pés era pó por todo o lado por exemplo, não se entende. Estes problemas acabaram praticamente por desaparecer, quer por aumento de espaço ou decréscimo de publico nuns anos, quer por plantação de relva noutros, ou a humedecer a zona dos palcos em todos. O que desapareceu também foram os cartazes outrora. Iggy Pop, Slayer, Mastodon, Audioslave, New Order, Prodigy, System of a Down e Incubus no mesmo ano, por 75€, nem isto nem nada parecido. Agora paga-se 109€ para ver Red Hot Chili Peppers. Tal como ouvi uma rapariga dizer: “já me mentalizei que paguei 100€ para ver Red Hot”. Sim, porque o passe do festival esgotou como esgotariam os bilhetes para os ir ver ao pavilhão atlântico pelo mesmo preço. As pessoas não compraram passes para o Super Bock Super Rock, compraram bilhetes para os Red Hot. Então e Future ou Deftones? Viriam a ter tanto ou menos publico que Capitão Fausto, um pavilhão atlântico a meio gás.

Enquanto o festival foi no Meco fui lá 4 anos. Em 2015 voltou ao parque das nações,  discordei da decisão como a maioria das pessoas, jurei que enquanto aí fosse não daria mais dinheiro ao festival. Voltei atrás na minha palavra e três edições depois estou a ver o pouco que resta do concerto de abertura com uma cerveja na mão. Como se não bastasse a mudança de local, com ela veio uma mudança no conceito do festival. “Ativação de marcas” é o novo slogan, antes “Meco, sol e rock&roll”. Ao meu lado está uma banca onde se pintam pessoas com brilhantes. A fila é gigante, barulhenta e essencial para um festival que gastou o budget dos concertos numa só banda. Não se preocupem se os concertos não vos agradarem, o festival disponibiliza filas para os mais variados brindes e divertimentos, para que não pareça que estás sem fazer nada.

A jusante, Salvador Sobrar e companhia, apresentando-se como um heterónimo de Fernando Pessoa – Alexander Search – deram-nos de beber, entre gritos e murmúrios, um fresco rock indie, ora meio jazzy, ora meio psicadélico. Não vi muito do seu concerto, fiquei a querer tê-lo feito.
São quase 18h40, é hora de Boogarins, uma banda em constante crescimento, mas da qual me desliguei nos últimos tempos. Este concerto é um abre olhos, o seu som está tão doce como sempre e mais exploratório que nunca. Dão nos todo o seu psicadelismo carinhoso ao qual já nos habituaram num concerto onde houve lugar para tudo. Ouvem se temas de As Plantas Que Curam (2013), Guia Livre De Dissolução de Sonhos (2015) e da mais recente surpresa Lá Vem E Morte (2017). Grande destaque para o fecho do concerto com uma versão de Auchama completamente diferente da do álbum, onde o baterista (que parece o mano Julião, que vai ser pai, não posso deixar passar esta oportunidade; Parabéns Julião!) foi o grande rei, com seus compatriotas deu a uma musica banal uma performance com tanto de cativante com de inconstante – num bom sentido claro.

Seguiam-se The Orwells, a imagem que os anuncia e que fica à sua retaguarda durante o concerto foi feita no powerpoint com o nome da banda abaulado e uma forma automática de um raio por baixo. Quando os oiço tocar percebo que faz todo o sentido, imagem amadora, banda amadora (apesar dos 6 anos de existência), imagem enfadonha, musica enfadonha (soa garage rock americano, igual ao garage rock de sempre), imagem genérica, banda genérica (com direito a persona de menino mau por parte do vocalista), enfim, estava a começar bem demais o primeiro dia, tinham de haver uns Orwells – que a maior parte do tempo soam a uma banda de covers de Strokes. O gajo que canta mexe-se muito, que giro. Vou jantar.

De barriga e bexiga cheias vou à casa de banho do pavilhão esvaziar a segunda e aproveito para ver como vai o concerto da “banda do Prince” – como toda a gente a chamava. O Prince é o Prince, os The New Power Generation (com Bilal na voz) são uma tentativa da Musica no Coração de fazer render a morte de uma lenda. Resultou num pavilhão atlântico quase vazio, sobressaindo a terrível acústica. As musicas deformam-se. Os artistas não têm possibilidade de dar ao publico o que vieram para ouvir. Isto é mau, muito mau. Não aguento estas poucas vergonhas muito tempo, vou me embora e não ficarei a ver concerto nenhum nestas condições.

Kevin Morby, o homem que não se cansa de cá vir. Não gosto muito, por isso nunca tinha visto, havia sempre qualquer coisa melhor para fazer. Este festival disponibilizou-me o tempo morto que eu precisava para o ir ver. O piano estava baixo, ainda assim deu um dos concertos mas interessantes do dia, não era difícil. Se tiverem tempo morto como eu, deem-lhe uma oportunidade.

São 22h20, tocam duas bandas portuguesas em simultâneo. Enquanto os Capitão Fausto entretêm quem espera pelo grande concerto da noite, os Throes + The Shine dão a festa do costume, com direito a uns minutos de concerto no chão, no meio da plateia, como o pessoal gosta.  Não vou ficar muito tempo que daqui a nada começa o lendário homem tigre.

The Legendary Tiger Man toca o seu próximo álbum na íntegra para quiser ouvir, poucos querem. De nome Misfit, só sai no próximo ano. A maneira como eu vejo isto é a seguinte: O Paulo anda nisto há muito tempo e sabia que a maior parte das pessoas à hora do seu concerto estariam já à espera dos cabeças de cartaz. Quem fica é quem o quer ver o artista desajustado e merece ser recompensado por isso. “Tomem la um álbum com 6 meses de antecedência! Vocês merecem.” disse o Paulo – não disse, mas fez. “Obrigado tio Furtado” devolveu o publico em aplausos. Cada um pensa o que quer, eu penso que o Paulo Furtado é um homem às esquerdas! As direitas são o problema.

Esta parte talvez mereça disclaimer: lembrem-se, isto é uma review de um festival, não da performance de que falo a seguir.

A MEO Arena estava cheia – valha-nos pela qualidade acústica dos corpos humanos – para um concerto dos Red Hot Chili Peppers que foi o que um concerto de Red Hot Chili Peppers deve ser, um concerto para todos. Com pelo menos uma musica que cada álbum deste 1989 a compor a setlist. Agradam-me praticamente todas as suas musicas até ao By The Way (2002), mas o que eu realmente gosto é dos freek-funks da altura Freaky Styley (1985) - Mothers Milk (1987). Achava que não haveria nada disso, mas houve uma jam acidificada logo ao arrancar do concerto e mais tarde Nobody Weird Like Me, não saí mal servido. À performance da banda, nada a apontar, deram tudo o que tinham para dar. Falaram com o publico, dançaram, saltaram, no fim despediram-se afetuosamente – Chad Smith manda um: “see you soon” para fechar em beleza. Mas foi pouco tempo de concerto. Ainda por cima depois de se andar por aí a dizer que os Foo Fighters tinham dado um concerto de dez horas há uns dias atrás. Fica mal. Note se que The Zephyr Song e Dreams of a Samurai estavam na setlist e não foram tocadas por restrições de tempo. O que também fica mal são as pessoas a dizer coisas como: “não tocaram o Under The Bridge”.  Calem-se seu ingratos, percorreram 27 anos de musica, não dá para tudo e se o festival deixasse ainda dava para mais qualquer coisa.

Depois de um concerto memorável há Tuxedo e Xinobi-Moullinex? Que é isto! Foda-se! È gozar com a cara das pessoas. Fico chateado com estas merdas. Quem os viu quer continuar a festa, celebrar 11 anos de vazio findos e é isto. Sabem onde a noite acabou para a maior parte das pessoas? No Lux! Era perto, a musica era preferível, e quem gasta 100 para ver Red Hot gasta 15 para acabar a noite bem melhor. Eu fui para casa, enchouriçado no 208.

Depois de um primeiro dia dominado por homens brancos em palco (o 3º dia viria a ser igualmente dominado por esta estirpe), eis que vem o segundo dia para lavar alguma desigualdade – 5 bandas encabeçadas por mulheres e uma série de artistas não caucasianos em cartaz. Diversidade, ao menos isso.

Há ainda assim uma serie de coisas erradas. Pusha T merecia muito mais que um lugar no palco secundário às 17h00. Com uma Jessie Reyez morna e com apenas um EP para mostrar, uma Akua Naru, regular por cá, conhecida de muitos e sem nada de novo para dar – desde 2011 que nada muda – como se justifica que o rapper que não só é o presidente da editora de Kanye West, como já colaborou com artistas como Kendrick Lamar, Jay Z ou Tyler, The Creator, toque a uma hora destas? Claramente o artista que mais adeptos tem em comum com o Future toca à hora mais distante possível dele. Manobra descarada.
Pusha T é um artista de dualidades. Ora Pusha T, ora King Push, ora rap consciente, ora rap do avacalho –  vangloriar bens materiais vários, dinheiro, bitches, etc. A primeira metade do seu set foi hiphop e a segunda trap. A minha opinião, também ela é dual, valeu a pena a primeira parte, a segunda não tanto.

Seguindo a mesma linha trap vinha Future. Espero-o e faz frio no pavilhão (e eu estou de casaco), nos Chili Peppers era um calor insuportável. O principio por de trás de um termostato é conhecido há demasiado tempo para que seja justificável que estas coisas aconteçam. Do “rei do trap” ouvi as primeiras musicas, eram más, a acústica estava como está sempre, má. Saí, para logo me aperceber que não havia concertos em simultâneo, peguei uma cerveja fumei um cigarro na paz do exterior e voltei a entrar. Ia jurar que ele ainda “cantava” a mesma musica de quando saí. Fui me embora e não voltei.

Agora vejo Beatbombers, é fraco, à exceção dos convidados – o desaparecido Serial sendo um deles. Findo o projeto de Dj Ride e Sterossauro eis Rocky Marciano & Meu Kamba Sound, que entram amenos e amenos ficam. Queria ver Celeste/Mariposa mas o dia vai longo e não me dão razões para ficar. Ao menos hoje o 208 deve estar vazio.

O 3º dia começa bem. Li mal o horário e perdi Bruno Pernadas. Está a dar Silva, Silva é merda. Vou comer que estou esganado de fome.

De vontades saciadas e mortinho para ver Black Bombaim, ainda vi Stone Dead e Taxiwars no entretanto. O que tenho a dizer dos primeiros: Se um dia tiverem a oportunidade de os ver façam-no. A eles e a praticamente todas as bandas portuguesas de rock que andam por aí (a musica portuguesa vai de vento em poupa). Quanto aos segundos: meh… não é mau.

Black bombaim dão aquilo que prometem: longas jams a rasgar; e vieram munidos daquele que parecia ser Pedro Sousa o saxofonista-de-fôlego-infinito. Já o tinha visto no projeto RAHU (com Alex Zhang Hungtai, David Maranha, Gabriel Ferrandini e Júlia Reis) e fiquei impressionado. Corrijam-me se estiver errado, vejo mal ao longe e esqueci-me dos óculos. Ainda que o saxofone merecesse uns decibéis a mais e tenham existidos uns pequenos problemas com o baixo logo no inicio, os barcelenses deram grande concerto. Destaque para o tema de fecho Afirca II, grande som.

Já Fatboy Slim é um artista mesmo à Super Bock Super Rock – há muito tempo que não é o que era. À hora que toca, não há concertos alternativos. Estou preso no house feiroto de um dos pioneiros do big beat do UK.

Ao sair do pavilhão atlântico oiço uma rapariga dizer: “este concerto de Hardwell foi fraquinho”. Descrição 100% correta, obrigado por fazeres o meu trabalho.
Já passa da 01h00, vou ver Magazino. Não conhecendo, e tendencioso como sou, pelo nome achei que fosse uma bimbalhada qualquer. Viria a ser uma hora de techno próprio para consumo nada mal passada. Depois do dj português esperava-me uma hora de house banal carregado de vozes femininas – é assim que encaro Marquis Hawkes – por isso fui-me embora. Fiquei sem ver Monki, mas os meios não justificavam os fins.

Sente se a falta do tempo em que os afters não só tinham Ricardo Villalobos todos os anos, como ainda o acompanhavam Sven Vat, Ben Klock e Marcel Dettmann, Nina Kraviz, ou Josh Wink, tudo razões sérias para ficar acordado.

Esta edição do festival maior da Musica no Coração ensinou-nos varias coisas:

1. Os Red Hot não envelhecem,
1.1. Como fazer dinheiro com isso;
2. A musica portuguesa está de boa saúde;
3. Como não fazer um festival de musica;

Para o ano há mais, já está marcado. É esperar para ver.

 

por
em Reportagens
fotografia Nuno Diogo

Super Bock Super Rock 2017 [13-15Jul] Reportagem
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