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SWR Barroselas Metalfest XX • Ao lado deles permanece a imortalidade dos Deuses

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Como podemos nós medir a grandeza de um festival? Cabeças de cartaz, número de bandas, palcos, acampamentos, bancas de merch, bancas de comida? Para nós, nada disto importa. Para medirmos a grandeza de um festival, temos de prestar atenção às caras, às reações, às pressas de conseguir apanhar uma banda que qualquer um matava para ver, as expressões e o quão determinada está a organização em fazer destes 3 dias e meio, uma experiência notável. O SWR Barroselas Metalfest é exemplar nisto tudo. Não só por ter um contacto tão evasivo para com o ouvinte, mas por também conseguir quebrar algumas das barreiras que têm existido ao longo dos anos entre o público e a banda. Estando num ambiente estranhamente familiar, colocado quase no extremo norte do país, e com condições climáticas muitas das vezes condicionantes à estadia, percebemos o desafio que a organização enfrenta em tentar acolher estreantes em cada edição, mas tomando em conta o quão focada a experiência está na música, é mais do que apropriado dizer que quem morre pelo heavy metal, morre pelo SWR Barroselas!

Em 2017, o ritual acumula 20 anos de atividade. Um número redondo que traduz com clareza a importância que esta família dá ao seu trabalho, que por sua vez é capaz de mobilizar muitas outras famílias, de outras cidades, de outras regiões, e muitas das vezes, doutros países. A tradição segue intocável, e este ano contámos mais uma vez com um cartaz de salivar onde a cerimónia só começa quando o volume estiver no máximo.

O dia 0 iniciou-se com a final do W:O:A Metal Battle, o último encontro entre os finalistas do Porto e Lisboa, a competir para representar Portugal no mítico Wacken Open Air, na Alemanha. A introdução foi tomada a cabo pelos Destroyers Of All que entregaram uma performance geralmente desinspirada e certamente penalizada por ser o primeiro de todos os concertos. A musicalidade está intacta e com capacidade para desenvolver argumentos fortes no futuro, mas com o arranque lento, e ainda em aquecimento, os circuitos só começaram a apreender o movimento com a entrada dos Toxikull, que foram até aqui um dos candidatos mais aptos para ganhar a final. Com uma prestação soberba por parte dos lisboetas Analepsy, não foi difícil perceber porque é que no final da noite, seriam estes os selecionados para conquistar os ouvintes no Wacken. A noite terminou brindada com grind, ao som do primeiro (dos vários) concertos de Test no festival.

 

 

Sexta-feira, o ritmo aumentava consideravelmente com um plano diário garantido de encher as medidas. Um dia que ambicionava um ínicio somente para os mais fortes mas que acabou fortemente marcado por falhas técnicas no palco 2, especialmente durante os sets de Valborg, Marginal e Antichrist que, acumulando a demonstrações com poucos argumentos de conquista, acabaram por recair nas sombras de um dia conquistado pelos grandes nomes no cartaz.

Valborg que esteve até aqui em digressão ao lado de Pillorian, tinha condições para elevar o público com o seu death metal dançável. Estruturalmente concebido como uma tática de guerra, os riffs das guitarras avançam como secções de batalhões, ao som da bateria mecânica em sintonia com a artilharia e em composição simbiótica nos gritos de guerra imoladores sedentos por sangue. Pillorian foi outro nome que reservava surpresas para um público mais do que familiarizado com o trabalho de John Haughm (Ex-Agalloch), mas verdade é que a textura do som e a dedicação geral da banda viu-se esquecida numa multidão que pedia mais por parte de um projeto com tanta inteligência de escrita e beleza estética como é o caso destes. Nem a melodiosa nostalgia que relembra uma das bandas favoritas dos portugueses, Agalloch, salvou um concerto que podia ter sido inquestionável no seu resultado final.

O primeiro dia podia de facto ter corrido melhor para o arranque total do festival, mas diga-se que o foco de luz ampliado estava nas silhuetas de nomes como os filhos do grind, Besta, e mais tarde com o palco principal já estreado, Aborted. Estes últimos mostraram aquilo que para muitos foi justiça bem feita ao cancelamento na edição anterior, com intensidade não só no palco, como no público, a sublinhar muito mosh, headbang, circle-pit e um autêntico caos instalado no SWR.

Para muitos, é inevitável mencionar The Ruins of Beverast que conduziu na Loud! Dungeon uma catarse neurótica de doom e black onde transes semelhantes mas em dimensões paralelas antecederam a entrada ao portal de Dagon e dos colombianos Inquisition, que elevaram as fasquia a níveis quase metafísicos no público. Este que viveu a experiência do concerto praticamente rendido ao poderio presencial de malhas como “Command Of The Dark Crown” e “Desolate Funeral Chant”. Mesmo com o peso de ser um dos nomes mais aguardados do festival, esta dupla conseguiu implodir com facilidade num palco feito para espetáculos como este, onde o black é a ferramenta ideal para transcender entre linhas convencionais de total iluminação.

O sangue suspirava entre rituais de ruído hipnótico e, com sangue derramado, seria mais do que apropriado testemunhar a chacina total de death metal da velha guarda por parte dos veteranos Master. Ainda com The Ominous Circle para fechar uma parte da noite, a multidão perseguia as sombras incendiárias, dando-se a conhecer à estreia absoluta da atuação portuguesa que ainda este ano lançou o caótico “Appaling Ascension”.

 

 

Sábado não podia ter começado melhor. Muito sol, calor e expectativa para um dia com muita promessa. Os espanhóis Fides Inversa  foram dos primeiros a elevar de novo a intensidade da atmosfera, mais do que aptos para nivelar o alinhamento até os americanos Cobalt entrarem em palco com estilo e força. Riffs pujantes, pedal duplo, gritos de peito rasgado e cavalariça americana de tronco nu, para não falar nos autênticos malhões que a banda tocou do último álbum Slow Forever. Conhecendo o historial da banda e as mudanças que tem sofrido ao longo dos anos, é de espantar ver a estabilidade brutal que o novo vocalista Charlie Fell (ex-Lord Mantis, ex-Abigail Williams) traz à banda, não só com a sua dinâmica subversiva em palco e gesticulação mórbida mas também com a sua dançabilidade entre os riffs expansivos e pedal a rasgar.

Os gregos Dead Congregation, armados até ao pescoço com um arsenal de peso, devastaram o palco principal num frenesim de death metal bélico, mesmo antes de contrastar com o clássico, vintage, emotivo, avassalador e memorável set dos Venom Inc., composto por dois terços do line-up do temível Black Metal de Venom. Gerações em união ao rubro a acompanhar “Don’t Burn The Witch”, “Countess Bathory” e claro, a “Black Metal”.

Agora num universo transformativo, os finlandeses Oranssi Pazuzu, em inversão aos Venom Inc. separam as gerações. A flutuar em fjords cósmicos, o grupo levou alguns dos ouvintes mais rendidos a uma espiral enlouquecida de reverb, fuzz e berros de deuses interestelares. Maioritariamente a recorrer a fortes aparições de um dos álbuns de 2016 Värähtelijä, é doloroso ver uma banda tão apta a definir uma nova onda de black metal, e a ser simultaneamente subestimada pelas gerações mais antigas no público. Para não falar no talento cru que o grupo tem ao inovar e redefinir padrões já envelhecidos e ultrapassados num género que merece a inovação e que tão bem funciona com esta. Malhas como  “Saturaatio”,  “Hypnotisoitu Viharukous” e “Vasemman Käden Hierarkia” demonstraram uma ilustração plena em destruição sónica, num bordado reenergizado da arquitetura excêntrica da banda. Ao contrário de metade da sala, esta foi com facilidade, uma das performances mais memoráveis do festival, pelo menos para nós.

Que melhor forma terminar um dia destes, do que com grind/crust/punk com Extreme Noise Terror e Systemik Violence, ambos a mexerem com dimensões diferentes, caóticos pits de tempestuosos mosh warriors. Com um circuito destes, nem dá para ganhar um segundo de descanso. Banda após banda após banda, cada uma com uma estética e apresentação completamente distinta, histórias e heranças sónicas destemidamente únicas e tão bem conseguidas. Pudera os sábados serem tão bem passados como este.

 

 

Domingo. Dia santo, capelas a entoarem os sinos pela manhã, enquanto nos acampamentos só se ouve o gotejar da chuva noturna onde só se vêm as sobras da tempestade madrugadora. Manhãs como esta pedem cama e sopa quente, mas há quem tenha de batalhar ressacas e noites mal passadas e, por isso, à semelhança do filme Dawn of the Dead, observamos o super-mercado local a ser invadido por hordas de roupa negra, esfomeadas para o pequeno-almoço e pelo primeiro café da manhã. E, sinceramente, o dia que nos estava reservado, merecia esta devoção religiosa.

Os espanhóis Avulsed, cabeças de cartaz da primeira edição do festival, marcaram de novo presença num concerto marcado por circle pits, slam desnorteado e uma multidão rendida ao slam death dos veteranos. Corpus Christi é indiscutivelmente um dos favoritos para encher a sala secundária, com fileiras e fileiras de pessoas a fecharem espaços, completamente subvertidos ao temor. Encaram o grupo português com tamanho respeito e esplendor, o que parece mais do que apropriado tomando em conta o contexto que a banda lidera fora de Portugal.

Os ingleses Akercocke moveram as fileiras da frente com os seus riffs arquitetónicos e refrões operáticos, a dualizarem a beleza da melodia com a devastação dos blast beats. Por fim, é seguro dizer que nos deparamos com uma oportunidade única de ver tamanhas lendas em palco. Absolutamente o nome mais aguardado do cartaz, a designar um grupo que foi tão crucial para o black metal quanto os próprios Venom e Bathory. O nome que transcende limites de som e que dispensa regras, respeito e batismo, com estilo de escrita e uma natureza destemida perante as catedrais modernas. Mayhem! Com uma entrada em palco a registar sufocante ansiedade por parte do público, testemunha o permanecer de assustadoras figuras cobertas em tecido, como entidades fantagóricas da noite carpátia. Transylvania respira sangue selvagem com o remate da “Funeral Fog” a cerrar o nevoeiro noturno, apropriado ou não, o frio gélido da rua sentia-se na frente do palco, e tornou-se quase mortal à entrada do leproso Attila Csihar que narrava com temível submissão: “Every time this year, This dark fog will appear, Up from the tombs it comes, To take one more life that can be near”

Hellhammer é incomparável na bateria, mesmo num sonoro tradicionalmente assustador e quase alegórico, sentimos uma força bélica no fundo de cada progressão, como se a presença do resto da banda dependesse dessa mesma impulsão. “Freezing Moon”, indiscutivelmente assustador, as guitarras, decrépitas, moribundas, insidiosas a compactar a atmosfera da sala até ao pique da música, explodindo como névoas a navegar ao longo da meia-noite de Barroselas: “Diabolic shapes float by, Out from the dark, I remember it was here I died, By following the freezing moon”

A intensidade subjuga-se ao sufoco de sermos empurrados contra o palco, como se à nossa frente tivéssemos testemunhado uma entidade crepuscular em total controlo da nossa atenção. E como Nosferatu a armar a presa numa armadilha de fome, a banda tem a sua rotina mais do que estudada, a martelar o caixão de cada uma das suas vítimas, todas elas rendidas ao hipnótico Mayhem! “Life Eternal” foi quase uma pancada de morte, onde nos sentimos por fim transformados na neblina noturna da melodia. Atila questionou-nos com fôlego interminável e ao mesmo tempo repetimos com submissa rendição: “I am a mortal, but am I human?”, e que mais nos sobra fazer depois desta experiência, senão concordar com essa conclusão? Já nenhum de nós se sente humano depois desta vivência.

Foi uma experiência notavelmente apaixonante, onde ao longo deste caminho só encontrámos razões para voltar para casa com um sorriso enormíssimo na cara, como se disto tudo se tratasse duma benção. E, de facto, sem poder encontrar outra palavra para descrever estes 3 dias e meio que evidenciamos com toda o carinho e cuidado, de que outra forma podemos nós falar sobre um final como estes? Com a Nova Banda de Barroselas a.k.a. Steelharmonics a harmonizar muitas das músicas que nos fizeram apaixonar por esta maneira de ser. “Painkiller”, “Thunderstruck”, War Pigs”, “Fear Of The Dark”, “Ace Of Spades” e tantas outras numa sala que se acolheu com carinho, amor, e paixão pela música. À saída, depois de um final tão emotivo, sobrou-nos uma despedida à altura de muito poucas com os brasileiros Test a entoarem no canto do hall da entrada das duas salas principais, um dos momentos mais altos do festival, onde todos se envolveram, no derradeiro pit do vigésimo aniversário do festival. Tudo isto em seguimento à marcha do fogo, onde acompanhámos os apóstolos às 2 e tal da manhã, em percurso ao ritual e ao cantar dos parabéns de uma família que nos marcou como nunca.

Estaríamos a mentir se disséssemos que só houve um momento alto para atribuir a estes 3 dias de música pesada. Na verdade, estaríamos a mentir redondamente se disséssemos que não fazemos contas de voltar para o próximo ano, e sinceramente, mesmo depois do arranque tremido do primeiro dia, estávamos confiantes de que rápidamente se recuperaria a energia necessitada para fazer mais um ano de Barroselas, tão lendário quanto o seu legado. No início do texto referimos alguns do critérios pelos quais nos guiamos para medir a dimensão de um festival, e desde a nossa entrada, até à nossa saída no recinto, com as correrias, os sorrisos, os abraços, o convívio, e a dedicação por parte da organização para fazer disto algo inesquecível, não teríamos dúvidas em rematar que o SWR Barroselas não é grande, é enorme!

 

 

Texto: João Almeida e Marta Louro

 

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Por João "Mislow" Almeida / 8 Maio, 2017

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