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The Bug vs Dylan Carlson - Musicbox, Lisboa [9Nov2017] Texto + Fotos

16 de Novembro, 2017 ReportagensJoão "Mislow" Almeida

“I can't exist by myself because I'm afraid of myself, because I'm the maker of my own evil.” - Possession, Andrzej Żuławski

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Para nós, é sempre muito bom sinal existir alguma dificuldade em encontrar as palavras mais adequadas para descrever uma experiência. Com todas as limitações verbais, físicas, sónicas e tudo mais, encontrar o equilíbrio imediato para desenhar aquilo que foi a noite de quinta-feira no MusicBox do Cais do Sodré, exigiu-nos uma grande disponibilidade mental. Ao contrário do que se passava no resto da capital, onde o tráfego humano e rodoviário é capaz de deixar qualquer um no mais profundo estado de insanidade, conseguimos descobrir, neste espaço, o asilo ideal para encontrarmo-nos de novo em plena loucura de Web Summit lisboeta. Depois de ouvirmos a primeira contribuição em coletivo entre Dylan Carlson em nome de Earth e The Bug, a curiosidade foi aumentando exponencialmente com cada audição do incrível Concrete Desert.

Este é um álbum que se despe da neutralização sónica e não é capaz de se traduzir na dimensão casual e normalizada. Apesar da sua transparência e maioritária fácil digestão, é curioso vermos a barafunda mental que coexiste em perfeita harmonia entre as guitarradas subterrâneas de Dylan em amizade eterna com os compassos distópicos do The Bug. Mesmo sendo um registo que atinge com toda a naturalidade a marca dos 90 minutos, este é um álbum que dificilmente será esquecido com o passar do tempo. Dito isto, não há senão motivos para nos deslocarmos até às massivas arcadas do MusicBox para vivenciar a arquitetura fortificada do Concrete Desert, em primeira pessoa.

Após a entrada vagarosa na sala, apercebemo-nos muito rapidamente que esta foi a melhor solução para escapar o frio e o engarrafamento humano nas ruas da capital. Infelizmente, muito ao contrário do que estávamos à espera, o MusicBox não ficou ao rubro, não houve multidões nem tão pouco pareceu ter alcançado 60% da sua lotação. Nesse sentido não houve muita justiça. De certo modo, até compreendemos que não é qualquer ouvinte que possa verdadeiramente apreciar a beleza desta atuação mas dito isto, esta é inquestionavelmente uma das salas com melhor som em Lisboa. Portanto sobravam muito poucas razões para falhar a testemunha neste MusicBox, mas para o que vale, foram poucos mas bons. Depois do processo inicial, e com a entrada do charmoso bigode de Dylan Carlson em palco com a companhia do invertebrado producer, tudo rapidamente se tornou num sonho, como Tarkovsky diria.

Os volumes sufocantes e a presença minimalista de instrumentos em palco obrigou-nos a navegar contra a maré dos nossos sentidos, interceptados segundo após segundo por sons de uma força espectral que se propaga nas medidas do macro. Não é só a estética meio psicadélica, meio apocalíptica que nos deixou à beira do susto tresloucado, mas o empurro que acompanha cada impulso de som cativou-nos muito além daquilo que o álbum entrega. Imaginemos um planalto de terra a surgir-se num abismo de cadáveres abandonados, um processo de decomposição em constante intermitência, um abrir e fechar de olhos lentíssimo e a ressoar nas paredes como o destrancar de uma porta colossal à beira do sossego eterno. O altíssimo arco do MusicBox acompanhou tão fielmente o martelar das batidas industriais do Bug. Enquanto isso, as cores sobrevoavam a audição castigada pelas guitarradas flutuantes que parecem atravessar o corpo de tudo e todos naquela sala. Faixas como a “Agoraphobia”, “Gasoline” e “Don’t Walk These Streets” renderam um público submetido à toxicidade em vislumbre metafísico.

Esta hora e tal de ruído detersivo mostra-nos que quando os baixos difundem por um meio apropriado, neste caso como uma praga em aragem numa sala quente, a radiação estoura na moldura humana. Quer esteja cintilante na pele, nos cabelos, olhos e até mesmo nas paredes de um espaço. Quinta-feira não foi um teste, serviu de exemplo do poderio que o som armado pode causar à anatomia de uma pessoa. Somente quem esteve presente, pode converter em sinais de impacto, aquilo que foi a transgressão de Concrete Desert. Haja piedade!

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em Reportagens
fotografia David Silva

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