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The Pretty Things – Cave 45, Porto [15Nov2016] Texto + Fotos

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Ainda não se conhecia o desfecho do concerto dos Pretty Things no Porto e este já era, à partida, um acontecimento histórico. A banda de Phil May e Dick Taylor deixou o público português mais de meio século à espera de uma vinda a solo nacional que revisitasse todo o imaginário rhythm ‘n’ blues britânico, do qual os Pretty Things foram porta-estandarte na primeira metade da década de 60.

Os portuenses The Japanese Girl tiveram honras de abertura e cumpriram de forma direta ao assunto a sua função. Com o garage rock despreocupado de algum nervosismo punk e psicadelismo q.b., apresentaram parte daquilo que podemos ouvir no disco mais recente da banda, Sonic-Shaped Life.

Poucos imaginariam a magnitude do que veio a acontecer nas duas horas seguintes. O valor das origens dos Pretty Things é inegável e, por si só, confere-lhes um estatuto especial: partilharam os palcos da british invasion com bandas como Beatles, Kinks, The Who ou Rolling Stones, sendo que estes últimos que até chegaram a ter Dick Taylor nos seus primeiros anos. Difícil de adivinhar era a forma em que a banda londrina ainda se encontrava quando desceu à Cave 45 mais de cinquenta anos depois dos primeiros concertos.

A toada blues assaltou o palco logo de início. Clássicos de mestres como Bo Diddley (“Mama Keep Your Big Mouth Shut”) ou Luther Dixon (“Big Boss Man”) que figuravam no disco de estreia da banda de 1965 iam alternando com canções do último álbum, The Sweet Pretty Things (Are In Bed Now, Of Course…) lançado no ano passado, exatamente cinquenta anos depois. A viagem pela carreira da banda seguia a alto ritmo e, se a cabeça de Phil May já não nos deixava vislumbrar a mesma saúde capilar dos tempos em que este afirmava ter o cabelo mais longo do Reino Unido, já a sua voz permaneceu todos estes anos com a mesma pujança e personalidade.

Depois de “Alexander” nos levar numa incursão pela curta discografia dos Electric Banana, nome tão bem-humorado como toda a banda em palco que designava o side-project dos Pretty Things quando estes se aventuravam em música para bandas sonoras, chegava um dos momentos mais aguardados da noite. Era a vez de sermos brindados com a genialidade e inspiração de S.F. Sorrow, a personagem fictícia que dá nome ao projeto mais grandioso da carreira dos Pretty Things.

As primeiras notas de guitarra de “S.F. Sorrow Is Born” davam origem à primeira grande ovação da noite, em honra daquele que é um disco totalmente à parte de tudo o que os Pretty Things fizeram na sua carreira e que garantiu ao conjunto londrino um lugar na História. May e Taylor são os dois resistentes desse período seminal da banda que os coroou como um dos mais vibrantes projetos do Reino Unido. Com a criação da personagem Sebastian F. Sorrow, podem hoje reclamar para si o título de criadores da primeira ópera rock, conceito que também viria a ser tomado por Kinks e The Who nos anos seguintes. “She Says Good Morning” aumentava o tom psicadélico do concerto e “I See You” fechava a primeira espreitadela pelo disco de 1968 com um clímax emocionado.

Houve ainda tempo para momentos de virtuosismo: por entre histórias da sua convivência com membros dos Rolling Stones que levaram a que entrasse numa das primeiras composições da banda como baixista, Dick Taylor, agora e sempre guitarrista dos seus Pretty Things, brindou-nos com um momento de guitarra slide num tributo a Robert Johnson, um dos pais do blues e inspiração de inúmeros mestres da guitarra.

Apesar de britânicos, grande parte das influências dos Pretty Things vieram do outro lado do Atlântico, por isso fomos obrigados a viajar do Mississipi para Norte, mais concretamente para a Chicago de Bo Diddley. Para além de ter sido um dos grandes promotores da evolução do blues para o rock & roll, acaba por ter uma intervenção especial na história dos Pretty Things por ter sido o intérprete original da canção… adivinharam, “Pretty Thing”, que deu o nome à banda. Ainda assim, foi “Mona” que nos trouxe o segundo momento de inspiração individual, desta feita por parte de Jack Greenwood, baterista que se aventurou num solo que parecia interminável e que retirou do público uma reacção apoteótica.

Não faltaram também fan-favourites como a dançável “Don’t Bring Me Down” ou a sugestiva “LSD”, antes da última incursão por S.F. Sorrow com a incrível “Old Man Going” fechar com chave-de-ouro um concerto praticamente imaculado, em que abundaram momentos de humor tipicamente british e grandes canções. Na retina dos revivalistas dos 60s que se deslocaram à Cave 45, fica a imagem de uma banda que, já para lá do meio século de existência, compensa a menor frescura física e capacidade provocatória de outros tempos com uma boa-disposição fora do comum em palco.

Por uma noite, esta foi a nossa ida ao Cavern Club em 2016. Os mestres desceram à Cave, e é lá que estão bem.

 

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Por Luís Sobrado / 21 Novembro, 2016

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