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Tim Hecker – gnration, Braga [9Mai2016]

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Aconteceu alguma coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se. *

 
A mudança de sonoridades é evidente entre os passados trabalhos de Tim Hecker e este que nos chegou na segunda-feira, 9 de maio ao gnration. Com Love Streams, Hecker deixa o as paisagens habituais e entra num território muito rítmico e texturado, ao ponto de quase sentimos um gostinho de vaporwave. O que não seria muito difícil de imaginar já que Tim Hecker e Daniel Lopatin (aka Oneohtrix Point Never) já colaboraram no passado, sendo que Love Streams parece precisamente e de certa forma um prolongamento dessa colaboração. E se Lopatin entra num território mais hostil com ritmos que já quase abandonam as sonoridades vaporwave; Tim Hecker cruza os seus trabalhos anteriores – considerados por muito como verdadeiras obras primas do que é a cena ambient actual, como Ravedeath, 1972 ou Harmony in Ultraviolet, – com uma nova direção, uma mais rítmica, mais densa e monolítica. Se uns adoraram a reinvenção de Tim Hecker, outros ficam de pé atrás com um saudosismo exemplar dos discos anteriores. Ou ainda existem outros, como nós, que se encontram no meio, e apesar do saudosismo continuam a abraçar Love Streams com a mesma convicção que abraçam os álbuns anteriores.

Com uma nova direção no trabalho de estúdio, seria expectável um novo caminho também da sua apresentação ao vivo – e, em parte, foi isso que Hecker providenciou ao público. Se em tempos vimos Hecker a bombardear uma sala entregue à escuridão, esta foi uma performance musical aliada a um espetáculo visual de cores e fumo denso que não deixou ninguém indiferente – entre o ódio e a adoração as reações dissiparam-se. O que se refletiu num público disperso, mais entretido a mexer no telemóvel ou a socializar como se estivéssemos num bar com música a fazer de pano de fundo.

No entanto, Hecker não inovou muito mais para além das luzes, onde se instalou uma certa monotonia durante 40 minutos que mais pareceram o dobro e que mesmo no fim, quando as coisas pareciam estar a melhorar, o concerto acabou de forma seca e inesperada. Para além do novo disco que veio apresentar, Hecker saciou o saudosismo do público passando por Virgins e Ravedeath, 1972 mas nem mesmo estes momentos não foram capazes de agarrar a plateia. Se as expectativas eram altas, saíram furadas. Foi um concerto mediano para apreciadores que esperavam certamente algo mais de um dos maiores nomes do experimentalismo.

A aventura acabou, o tempo retoma a sua moleza quotidiana. Viro-me; atrás de mim, uma bela forma melódica mergulha inteira no passado: diminui, contrai-se ao declinar; já o fim se lhe confunde com o princípio. Ao seguir com os olhos esse ponto de ouro, penso que aceitaria – mesmo se tivesse estado em perigo de morrer, se tivesse perdido uma fortuna ou um amigo – reviver tudo, nas mesmas circunstâncias, dum extremo ao outro. Mas uma aventura não recomeça, nem se prolonga. *

 
* Citações de Náusea de Jean Paul Sartre

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Por Sara Dias / 11 Maio, 2016

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