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TRC Zigurfest 2017 • O Douro sublimado – Parte 1

© Rafael Farias

 

O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.

Repousando bela e serena no coração do Douro, a cidade de Lamego é uma das cidades mais antigas do país, sendo que não é assim de admirar a sua forte ligação às tradições, aos lugares e às pessoas. Com o cognome de Cidade Monumental, Lamego ergue-se imponente entre montes e vales, entre vistas de cortar a respiração, entre pessoas de dileção carismática – e ainda, pela sumptuosidade dos seus monumentos e das suas ruas históricas. Estes espaços tão eximiamente aproveitados pela organização do ZigurFest: o festival expande-se e congrega a cidade no seu coração, um coração que bate ligeiro durante os quatro dias em que a música invade os mais variados palcos. De salientar o Palco Olaria que funciona como um ponto de encontro para quem circula nas ruas da cidade e o Palco TRC (Teatro Ribeiro Conceição) que é o local de nascimento e o epicentro do festival.  Já a Capela do Desterro, para além de uma nova casa, é um tesouro escondido dentro de tantos outros tesouros lamecenses: escondido pelo seu carácter discreto à primeira vista, é quando nos abre as portas que esta capela, que é na verdade uma igreja, nos conquista.  Decorada com várias pinturas do século XVIII e forrada integralmente a talha dourada, entrar dentro desta pequena capela diminui-nos à sua proporção.

Esta é uma iniciativa de pessoas para pessoas, e a proximidade é palpável; em cada esquina há um amigo. Nascida em 2011 da inquietação e da inconformidade de uma juventude proactiva lamecense, é acima de tudo de uma vontade despojada e quasi-ingénua de partilhar e trazer aos “seus” alguma da sua música favorita de todos os recantos do país. Essa magia é tão palpável que atinge todos os pontos do país, até a tão longínqua capital, de onde chegou a Catarina, que veio sozinha e de mochila às costas à descoberta do ZigurFest e tão rapidamente foi acolhida no seu seio: “vim pela cidade sobretudo, fiquei a conhecer o festival pelas Pega Monstro e os Stone Dead são a minha banda favorita”.

De proximidade não se fez só a cidade e as suas gentes, mas também dos artistas que pisaram os variados palcos no dia zero, e se falamos de proximidade, falamos na mesma medida de Luca Argel: nos seus sambas uma ternura desmedida aliada a um olho clínico capaz de percepcionar com clareza transparente aquilo que o rodeia. A complexidade não é perceptível à primeira, é necessário ouvir para além do timbre adocicado e dos dedilhados dançantes, é preciso delicadamente ir retirando as camadas mais supérfluas para se mergulhar por inteiro nas composições de Luca. Passando por composições suas e por composições de alguns heróis esquecidos do samba, Luca começou o set com “Porta Onze” de Herivelto Martins e Grande Otelo, passando por “M&M’s”, um tema inédito, e uma homenagem à “Rua das Casas” de Padeirinho com a sua “Rua da Consolação”. Até que se deu um dos pontos altos do serão com “Ninguém Faz Festa” faixa incluída no seu disco Bandeira. Este samba é uma homenagem ao falecido compositor Beto Sem Braço, em virtude de uma resposta do carioca, numa entrevista, onde lhe foi perguntado como é que o samba pode ser um género tão festivo tendo nascido no seio de comunidades tão devastadas por dificuldades socioeconómicas: “o que espanta a miséria é a festa”. Para Luca o samba é uma “forma de reinvenção da vida, uma necessidade, quando​ tudo aponta para a morte”. Para o fecho da noite invocaram-se os fãs de Star Wars, para as duas partes de “Estar o Ó”. Com uma capela cheia de corações cheios, assim se findou este próspero dia zero.

Numa mudança de cenário, rumamos ao Palco Castelo, para disfrutar a companhia de Coelho Radioativo, LYFE e Nils Meisel. João Sarnadas tomou o castelo de assalto munido da sua guitarra elétrica, das suas melodias simples que arquitetaram a paisagem deste palco a contornos de melancolia e languidez. Cada canção é um retrato da vida, um retrato de temas universais que ganham uma forma muito peculiar quando proferidas por Coelho Radioactivo. Os pontos altos da tarde passaram por “De Vez” e “O Juízo”, canções incluídas no primeiro e magistral longa-duração do cantautor, e ainda “Falamos no Escuro” lançada também pela Videoteca do Bodyspace. Entre as canções, interlúdios longos que namoriscavam o experimental e o ambient, com a guitarra de mãos dadas com a distorção e o delay. Apesar da adesão do público, que apareceu em massa em plena tarde de quinta-feira, os ténues esforços de Sarnadas não foram suficientes para prender o público que se dispersou entre reencontros e conversas de cerveja na mão. Seguiu-se LYFE, lamecense descoberto pelo seio da ZigurArtists, que entre os beats de hip hop de influência old school, vaporwave criados de raiz e os samples de voz que tanto vai buscar a filmes – neste set ouviu-se claramente a voz de Winona Ryder em “Girl, Interrupted” – ou a outras faixas de artistas que vão de Kendrick Lamar a The Fugees, cria lives únicos. Este não foi exceção, onde até os mais tímidos cederam um pézinho à dança. A primeira grande revelação que este ZigurFest nos trouxe foi Nils Meisel. Trabalhando à base da tentativa-erro os live sets de Nils são crípticos e impressíveis, uma entidade viva e não-estática que se metamorfoseia. O luso-alemão apetrechou-se de synths analógicos, sequenciadores e drum machines: com um oscilador de som a emitir sinal vai “brincando com o acaso”, com a modulação e com os kicks. Feito de raiz perante os nossos olhos, e numa negação completa do uso do PC, Meisel presenteou-nos com um dos concertos mais marcantes e desafiantes da presente edição ZigurFest, sendo quase compreensível que o Palco Castelo tenha esvaziado lentamente com o passar do tempo.

Já à noitinha, e num palco Alameda bem aconchegado, recebemos os The Twist Connection numa explosão de rock janota retirado da cena rockabilly de Coimbra, que não deixou ninguém indiferente. Competentes e energéticos, os The Twist Connection passearam-nos pelo seu mais recente Stranded Downtown, provando que a escola do Rock n’ Roll não está moribunda, mas pelo contrário viva e de boa saúde. O fecho da noite esteve ao encargo dos Whales, que vingaram nos Novos Talentos FNAC, mas que não conseguiram vingar no Palco Alameda. Num concerto monótono e monocórdico, os promissores leirienses não cativaram o público ao qual  arrancaram poucos aplausos ou interações. Um fechar de noite que não representou o primeiro dia do TRC ZigurFest, que se findou com um balanço mais-que-positivo.

 

Fonte da citação: “Diário XII” de Miguel Torga.

 

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Por Sara Dias / 1 Setembro, 2017

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