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Tremor é um sonho do qual não queremos acordar (Texto + Fotogalerias)

29 de Março, 2018 ReportagensMariana Vasconcelos

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Tremor

Super Nova c/ Sunflowers, Scúru Fitchádu e Stone Dead - Maus Hábitos, Porto [7Abr2018] Texto + Fotos

Gloria - Maus Hábitos, Porto [22Mar2018] Texto + Fotos
A terra irrompe do mar límpido que se estendia há mais de duas horas e, envolta em nuvens, o recorte da ilha aguça a curiosidade de aterrar nesta promessa de um festival que há cinco anos abana todos os dogmas. O Tremor, a “experiência musical no meio do Atlântico”, teve nos passados dias 20 a 24 de março a sua quinta edição, esgotada com 1500 bilhetes vendidos, sendo metade do público oriundo de fora do arquipélago. Nascido do desejo de dinamizar o panorama cultural e social massacrado pela crise, o festival parte de uma premissa que logo à partida o separa de todos os outros. O seu objetivo não é entrar numa competição de line-up, mas sim desbravar caminho em busca de um novo paradigma para os festivais de música, algo que o público claramente procura. A palavra “experiência” não é uma promessa exagerada e as altas expectativas foram largamente ultrapassadas.

À chegada a Ponta Delgada, cidade mãe do festival, atinge-nos a estranheza da ausência de multidões e filas, da publicidade discreta, da vida que decorre com toda a normalidade. Estamos habituados a festivais que gritam a sua presença e delimitam as suas fronteiras, mas aqui a única fronteira é o mar (na verdade nem esse) e o ruído é substituído pela hospitalidade contagiante dos habitantes em partilhar connosco o paraíso selvagem que é a ilha de S. Miguel, o recinto. Isto não é uma força de expressão já que o festival se divide entre Ponta Delgada, Ribeira Grande e vários locais secretos onde ocorrem os Tremor na Estufa - concertos em sítios inusitados que apenas são revelados no último minuto - e o Tremor Todo-o-Terreno - um misto de exploração, performance e concerto. O conceito de recinto é assim desconstruído e somos convidados a mergulhar no misticismo de um dos locais mais belos do mundo sem saber o que esperar, confiantes no próprio desejo de descobrir algo novo. Esta curiosidade moveu multidões até pontos de encontro, ocupou lugares vagos em carros de, até aí, desconhecidos e rumou em fila indiana para ouvir o som irreverente de Tó Trips e João Doce nas águas termais naturalmente quentes do Parque Terra Nostra, as verdades gritadas sem medo de O Gringo Sou Eu na Ponta da Ferraria (porquê ir uma vez a banhos quando se pode ir duas?) e os ecos psicadélicos de 10 000 Russos na indescritível paisagem do túnel da Lagoa das Sete Cidades. À chegada de cada um destes sítios ficam os sorrisos de espanto, o entusiasmo, as inúmeras paragens para fotografar, tanto de quem vê como dos próprios artistas. Enche a alma de todos o sentimento de que este é um festival que retribui a confiança com experiências irrepetiveis e verdadeiros “mimos”.                 

Um dos pontos altos desta viagem foi o Tremor Todo-o-Terreno que este ano contou com a performance/concerto no Salto do Cabrito de Tír na Gnod (versão duo dos Gnod com Paddy Shine e Marlene Ribeiro). Durante cerca de 40 minutos os participantes foram convidados a percorrer um trilho pedestre imersos na paisagem sonora criada pelos músicos com a condição de por esse breve espaço de tempo evitarem comunicar e utilizar aparelhos electrónicos. A experiência de introspecção pela densa floresta açoriana desaguou em torno de uma cascata onde o concerto dos Tír na Gnod ecoou num ambiente de comunhão ritualista com a natureza. Apesar da estranheza do espectáculo era latente a sensação de assombro e de gratidão coletiva por se poder presenciar uma expressão tão pura de arte.

Poderia achar-se que no meio de tudo isto o resto dos concertos perderiam o seu brilho, mas a verdade é que o Tremor tem essa capacidade de continuar a surpreender, seja pela intensidade das performances ou pela sua relação com os espaços inesperados em que se desenrolam. Meros minutos podiam separar o poderoso e desconcertante concerto de Mykki Blanco numa tasca tradicional, que quebrou todas as noções de identidade com a decomposição da personagem com que nos recebe, do exuberante exotismo dos Altın Gün que num momento enchiam o silêncio do Arco 8 com o eco dos seus cânticos turcos para no seguinte abrirem a pista de uma verdadeira danceteria. O último dia viu também o contraste entre o poderoso e arrepiante concerto de Mal Devisa, que há-de ter feito descer os anjos à Igreja do Colégio e o punk trepa-paredes dos The Parkinsons, a expressão da cultura Tuareg dos Mdou Moctar que trouxeram até ao Ateneu Comercial os sons do deserto e a sua mestria musical ou o sensorialmente intenso concerto dos Ermo que obrigaram toda a gente a sacar dos óculos de sol. Como seria de esperar, os concertos des Dead Combo, que apresentaram o seu novo álbum, e dos brasileiros Boogarins, lotaram o belo Coliseu Micaelense e foram pontos altos do festival unificando um dia já de si difícil de superar. A felicidade já virava saudade mesmo antes de ser abanada pelo espetáculo surrealista de Lone Taxidermist.

No entanto, a magia do Tremor está precisamente no inesperado e acima de tudo naquilo que é simples e honesto. Por essa razão, é necessário dar especial relevo à extensão do programa a Ribeira Grande, primeira edição em que tal acontece e que contou com concertos verdadeiramente memoráveis começando com a colaboração entre O Gringo Sou Eu e a Escola de Música de Rabo de Peixe, união que resultou em arranjos para temas originais do músico e também adaptações de hinos tal como “A Carne” de Elza Soares. Era palpável o reconhecimento das injustiças sociais enfrentadas por todos presentes e pela humanidade como coletivo, mas sobretudo a força de fazer algo para lutar contra elas, lutar através da música que irrompeu do teatro para a rua ao som dos instrumentos improvisados a partir de garrafões e bidões, lutar através da união e do amor que juntou todos num abraço gigante e em lágrimas contidas. A pureza deste momento arrepiante prolongou-se com os We Sea que tocaram para um público de coração cheio que cobriu a escadaria do Largo Gaspar Frutuoso. A paragem seguinte desse dia foi no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, edifício com um carácter de meter inveja onde é de destacar o concerto de Paisiel, a dupla enigmática formada por Julius Gabriel e João Pais Filipe que fizeram as arcadas de rocha tremer com o seu experimentalismo livre e finalmente a saudável loucura visual e sonora de Aïsha Devi que nos instruiu numa poderosa viagem meditativa pelos seus mantras que a cada batida eletrónica nos levava a crer que alguma entidade divina estava ali a materializar-se.

No final desta experiência fica a falta de fôlego de algo que ainda não foi assimilado em toda a sua essência e a admiração perante a curadoria experiente e destemida desta organização dedicada e sem falhas a apontar. Que um festival como o Tremor, que se estende por toda a ilha de S. Miguel e nesta quinta edição também à de Santa Maria - naquela que foi uma edição especial do Tremor na Estufa e que levou alguns sortudos numa experiência de 14h até à ilha vizinha - ocorra sem incidentes ou queixas eleva-o ao estatuto de exemplo a seguir para todos os outros. É preciso uma imensa coragem de todos os envolvidos para fazer algo tão diferente e ainda mais talento para fazê-lo tão bem.

Terminado o Tremor, ainda se viram muitas caras conhecidas que ficaram para experienciar a natureza selvagem que irrompe de todos os pedaços de terra, as paisagens magnânimas às quais nenhuma fotografia faz justiça e a energia viva que se sente de uma ilha que está literalmente em constante ebulição. Todos falam em voltar no ano seguinte com a certeza de que ainda há espaço para mais surpresas e que o inesperado é o melhor cartaz. A identidade do Tremor é mesma essa, mais que unir, reunir pessoas como se de uma grande família se tratasse e oferecer o melhor da cultura, o melhor de uma ilha, o melhor de um povo que merece ser valorizado. No Tremor sentimo-nos em casa e como a todo o lar, a este também é preciso regressar.

Dia 20


Dia 21 - Paisagem; Tremor na Estufa: Tó Trips + João Doce; Mykki Blanco; Altın Gün


Dia 22 - Paisagem; Tremor Todo-o-Terreno: Tír na Gnod; Tremor na Estufa: O Gringo Sou Eu; Sheer Mag


Dia 23 - Paisagem; Tremor na Estufa: 10 000 Russos; O Gringo Sou EU + EsMúsica.RP


Dia 23 - We Sea; Paisiel; Aïsha Devi; Snapped Ankles


Dia 24 - Fugitivo; Zulu Zulu; Mal Devisa; Liima; The Parkinsons


Dia 24 - Mdou Moctar; Dead Combo; Ermo; Boogarins
por
em Reportagens
fotografia Mariana Vasconcelos

Tremor é um sonho do qual não queremos acordar (Texto + Fotogalerias)
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