21
SAB
Soen
RCA Club - Lisboa
Dollar Llama
Bafo de Baco - Loulé
!!! (Chk Chk Chk)
Hard Club - Porto
The Parkinsons + Killimanjaro + Ermo
Carmo 81 - Viseu
Cows Caos + The Brooms
Centro Cultural - Cartaxo
Earth Drive + Vircator
SIRB Os Penicheiros - Barreiro
22
DOM
23
SEG
24
TER
Mallu Magalhães
Teatro Tivoli BBVA - Lisboa
Jameson Urban Routes (Dia 1)
Musicbox - Lisboa
25
QUA
Drew McDowall
Galeria Zé dos Bois - Lisboa
Steve Hauschildt + Jari Marjamaki
Igreja de St. George - Lisboa
Jameson Urban Routes (Dia 2)
Musicbox - Lisboa
26
QUI
Jameson Urban Routes (Dia 3)
Musicbox - Lisboa
Nouvelle Vague
Aula Magna - Lisboa
Black Bombaim & Peter Brötzmann
Passos Manuel - Porto
27
SEX
Os Courettes
Cave 45 - Porto
Semibreve 2017 (Dia 1)
Theatro Circo / gnration - Braga
Jameson Urban Routes (Dia 4)
Musicbox - Lisboa
Nouvelle Vague
Convento de São Francisco - Coimbra
For The Glory + Destroyers Of All
DRAC - Figueira da Foz
Noiserv
Teatro José Lúcio da Silva - Leiria
28
SAB
Semibreve 2017 (Dia 2)
Theatro Circo / gnration - Braga
The National
Coliseu dos Recreios - Lisboa
Royal Blood
Campo Pequeno - Lisboa
Jameson Urban Routes (Dia 5)
Musicbox - Lisboa
Black Lips
Maus Hábitos - Porto
Mark Eitzel
Auditório - Espinho
The Parkinsons + Killimanjaro + Ermo
SHE - Évora
29
DOM
And So I Watch You From Afar
Hard Club - Porto
Semibreve 2017 (Dia 3)
Theatro Circo - Braga
Mark Eitzel
Galeria Zé dos Bois - Lisboa
Nouvelle Vague
Casa da Música - Porto
Alter Bridge
Coliseu dos Recreios - Lisboa
30
SEG
And So I Watch You From Afar
Musicbox - Lisboa
Shields
Stairway Club - Cascais
Metronomy
Coliseu dos Recreios - Lisboa
Moonspell
Lisboa ao Vivo - Lisboa
31
TER
John Maus
Maus Hábitos - Porto
Moonspell
Lisboa ao Vivo - Lisboa
Shabazz Palaces
Lux Frágil - Lisboa
1
QUA
2
QUI
Shabazz Palaces + Ângela Polícia
gnration - Braga
Omnium Gatherum + Skálmöld + Stam1na
Hard Club - Porto
3
SEX
TOPS
Maus Hábitos - Porto
Omnium Gatherum + Skálmöld + Stam1na
RCA Club - Lisboa
4
SAB
The Band of Holy Joy
Cave 45 - Porto
5
DOM
6
SEG
The Goddamn Gallows
Stairway Club - Cascais
7
TER
8
QUA
The Bug Vs Dylan Carlson of Earth
gnration - Braga
9
QUI
10
SEX
11
SAB
12
DOM
Dying Fetus + Psycroptic + Beyond Creation + Disentomb
Lisboa ao Vivo - Lisboa
13
SEG
Lamb
Coliseu do Porto
14
TER
Lamb
Coliseu dos Recreios - Lisboa
15
QUA
16
QUI
Black Bass - Évora Fest (Dia 1)
Sociedade Harmonia Eborense - Évora
The Picturebooks
Sabotage Club - Lisboa
Spoon
Coliseu do Porto
17
SEX
Fai Baba
Maus Hábitos - Porto
Sinistro
Hard Club - Porto
Hercules & Love Affair
Lux Frágil - Lisboa
Spoon
Coliseu dos Recreios - Lisboa
18
SAB
The Fall + 10 000 Russos
Hard Club - Porto
Sinistro
Le Baron Rouge - Amadora
19
DOM
20
SEG
Father John Misty + Weyes Blood
Coliseu dos Recreios - Lisboa
21
TER
Epica + Vuur + Myrath
Sala Tejo (MEO Arena) - Lisboa

Vagos Metal Fest 2016 [13-14Ago] Texto + Fotos

29 de Agosto, 2016 • Diogo Alexandre
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Terminada a primeiríssima edição do Vagos Metal Fest podemos afirmar que foi um festival mais que bem conseguido tendo em consideração o pouquíssimo tempo disponível para a organização do mesmo. Organização e tipo de bandas diferentes, no entanto, mesmo recinto e mesmo tipo de público, com a única particularidade ser que os afters agora já não acontecem no campo de futebol mas sim dentro do campismo, havendo agora uma maior liberdade de transição entre tenda e música, que nas passadas edições não acontecia. Há também mais espaço dedicado à restauração que para além de estar presente dentro do recinto oficial ganha agora novo peso dentro do campismo, circundando o pequeno parque de merendas logo à saída do festival, com direito a várias ofertas vegetarianas a preço acessível. Os chuveiros e nível de segurança permanecem tal como a banca de hidromel, cada vez mais imprescindível em festivais do género.

Anunciadas as alterações físicas passemos às bandas que por lá passaram: ainda com muitos a chegarem ao campismo provindos dos mais ínfimos recantos do país (e até mesmo de Espanha) e outros tantos a trocar os bilhetes pelas pulseiras respetivas, os Correira sobem ao palco para apresentarem o seu rock abrasivo, lambendo os cascos ao stoner, para uma plateia ainda algo dispersa. A banda criada pelos irmãos Apolinário e Mike Correia, sempre com grande desenvoltura em palco, mostrou a Vagos o trabalho proveniente do seu primeiro registo discográfico, Act One, um disco bem recebido, na nossa opinião, animando os corajosos que enfrentaram o sol abrasador das cinco da tarde. Face ao pouco tempo disponível, pouco mais de 25 minutos após iniciarem o seu espetáculo, encerram o mesmo com “Deceivers Of The Sun”, dedicada aos bombeiros que tinham acabado de sair da esquadra após ser escutado o alarme, arrancando alguns headbangs à plateia.

Num plano musical bastante afastado daquele anteriormente experienciado, surgem-nos os Betraying The Martyrs, conjunto francês que trouxe a Vagos a variante mais mal-afamada da comunidade metaleira: o metalcore, aqui com recorrentes incursões ao djent. A verdade é que nos soube particularmente bem sermos constantemente atirados contra as paredes de breakdowns que o quinteto ia produzindo. Pelo meio do mosh avistamos rapazes de caps, exibindo as suas tshirts oversized de alças e fazendo alguma slam dance, embatendo contra os comuns metaleiros que insistiam num circle pit claramente desenquadrado, que isto aqui é música para nos fazer dar cabeçadas no chão e dançar de modo esquizofrénico. Deixemos as voltinhas para mais tarde já que o mais puro thrash chegaria nem 40 minutos depois. Contra tudo e contra todos, e ainda sem uma grande plateia, o conjunto revelou-se bastante animado e esforçado em fazer com que este seu concerto fosse diferente dos demais. Se para isso não bastasse toda a energia em palco proporcionada por Victor Guillet (nunca vimos ninguém a passear pelo palco enquanto faz arpeggios no teclado e headbang ao mesmo tempo de uma forma tão segura), o cover de “Let It Go” (icónico tema de “Frozen”, filme da Disney) deixa-nos de rastos face ao seu desenquadramento, carimbando este concerto para sempre no nosso subconsciente. Cantámos, cantámos bem e não fomos os únicos, que não há cá macho viril que resista a um bom karaoke relacionado com os musicais da Disney, principalmente quando se trata de princesas. Ainda não sabemos se foi um sonho ou um pesadelo mas gostámos da experiência (e da wall of death também).

Seguem-se os Vektor, uma das bandas mais apetecidas do dia. Prova disso foi a quantidade de público presente no recinto, apenas superado aquando os Dark Funeral, e a quantidade de poeria no ar, esta não superada por mais nenhuma banda no festival. Sem falar muito (que o tempo era escasso), os americanos cumprem com o pedido: rapidez e muito mosh e crowdsurf. A cada nota distorcida era um corpo esvoaçante que chegava às mãos dos seguranças que se viram aqui na obrigação de trabalhar. O thrash incendiou Vagos (como sempre, é bom que se refira) e chegou desta vez em modo q.b. Centrados, naturalmente, no seu mais recente álbum, Terminal Redux, do qual extraíram os primeiros cinco temas do concerto, foi com “Hunger For Violence”, do seu primeiro disco, que fecharam a sessão de porrada a que nos vimos submetidos. Soube a pouco mas foi o que houve.

Seguindo com o thrash, agora numa vertente mais groovy e totalmente portuguesa, os RAMP mostram que estão vivos ao apresentar um concerto em tudo surpreendente. Assumimos, nunca os antes tínhamos visto mas já os conhecíamos há muito ou não tivessem já mais de 25 anos de carreira. Os portugueses foram colocados num horário ingrato (hora de jantar não é boa para ninguém) porém só quem ficou sabe o que os outros perderam. “Insane” abre de rompante transportando-nos de imediato para o início do século. É inevitável e quase impossível não ligarmos as músicas dos RAMP a tempos passados, não só pelo ano em que elas foram lançadas como também pela sua sonoridade. Nude soa a início dos 00s, não que isso seja mau, muito pelo contrário, só a boa música resiste à erosão do tempo e os RAMP conseguem, mesmo dando poucos concertos e sem lançar nada há cerca de 7 anos, permanecer na cabeça de todos os sujeitos que se digam apreciadores de metal nacional. Rui Duarte assume-se um frontman carismático, conversando e lançando frequentes reptos ao público, instiga um pequeno despique entre o novo e o velho VOA e faz um agradecimento especial ao programa da Super FM “Demon's Cleaners”, antes de “Blind Enchantment”, onde também refere que tal como o nome do programa indica, todos estávamos ali para exorcisar os nossos demónios. Concordamos. “Esta é a última porque a seguir há missa e depois vai haver o enterro (negro)” dá o mote para “Hallelujah”, acompanhada vigorosamente pelo público, terminando de vez com a atuação, não antes de Tó Pica descer do palco para vir para mais perto dos seus fãs e de Rui anunciar que haverá álbum novo se assim o quisermos. Cá o esperamos, então.

Se até agora vínhamos tolerando a fraca qualidade/definição sonora dos concertos, não o podemos fazer de todo após o concerto dos Fleshgod Apocalypse ter sido arruinado pelos problemas técnicos. Os teclados não se escutavam, a voz ora se sobrepunha ora se abafava perante os restantes instrumentos, o blastbeat não se sentia, Veronica Bordacchini com o som do microfone demasiado alto, enfim... para tornar as coisas piores só uma presença demasiado forte de King no alinhamento do concerto, disco claramente mais fraco que os seus antecessores. A teatralidade dos italianos revela-se componente possante ao vivo, não só na indumentária como nos dizeres de Tommaso Riccardi que, de copo de vinho tinto na mão, articula um “saúde Portugal!“ pouco depois de entrar em palco e profere uma frase que nos deixa logo preparados para o negrume que aí viría: “Só a morte é perfeita, a vida é uma imperfeição”. Posto isto estamos prontos para ser dizimados por mais uma sessão de blast beats. Gostámos de escutar as sempre incríveis “Pathfinder”, “Epilogue” e “The Forsaking”, esta última a fechar um concerto que tinha tudo para nos abater emocionalmente e que só não aconteceu devido aos problemas anteriormente referidos. Pelo menos agora sabemos como soaria um concerto de Death Metal nas grutas de Mira de Aire.

Os problemas permaneceram durante os Dark Funeral, porém em menor escala (a sonoridade da banda também não exigia uma “ginástica” tão grande como a dos italianos), o kick da bateria encontrou-se sempre demasiado alto durante o concerto mas nem isso impediu o espetáculo triunfal dos suecos, oferecendo-nos não só peso sonoro como também peso estético. A passividade de Lord Ahriman e restantes membros da banda face a tamanha violência musical é inquientante. Sensivelmente a meio do concerto, Ahriman decide intervir agradecendo à fantástica organização do festival que tornou este concerto possível ao comprar-lhes novas guitarras, pois a companhia aérea em que viajavam perdeu as suas, terminando o discurso dizendo à Brussels Airlines para se foder, frase que o público gritou em seguida. Tremolo iniciado e “Hail Murder” garante mais uma dose de destruição. Tocando quase tudo de seguida e sem grandes conversetas, os Dark Funeral amarraram o público português à cruz e foram espetanto os pregos um a um, percorrendo toda a sua discografia e dando o golpe de mesericórdia com “My Funeral”. A violação post-mortem acontece com o seu mais recente single “Where Shadows Forever Rain”, proveniente do álbum com o mesmo nome, e termina de vez um concerto bastante competente. É verdade que o black metal não é música que apregoa tolerância mas após tamanho espectáculo, estamos de alma mais leve e até perdoamos o frequente mosh e circle pit que por ali se fez.

Coube aos Bizarra Locomotiva a árdua tarefa de encerrar o primeiro dia de festival. Bandas portuguesas em prime time é coisa que não se vê todos os dias e o quarteto soube aproveitar a deixa para proporcionar um dos melhores concertos do festival, se não mesmo o melhor. Rui Sidónio e companhia não se mostraram assustados pelas muitas pessoas que permaneceram no recinto única e exclusivamente para serem esmagados pela pesada maquinaria industrial que esta locomotiva traz sempre consigo. E agora, contrariamente ao que ocorrera há cerca da três anos atrás, com o tempo necessário para impressionar e abater por completo o público vaguense. Sidónio não hesita em descer do palco e vir ter com os seus fãs, percorrendo quase toda a parte fronteiriça do recinto de microfone na mão. Em “Foges-me Em Chamas”, tema mais calmo do alinhamento, extraído do seu mais recente Mortuário, chega mesmo a deitar-se nas grades, efetuando uma autêntica sessão de equilibrismo. O peso de Mortuário foi notório como era esperado, porém houve espaço para temas de praticamente todos os seus registos de estúdio com a surpresa da noite a cair sobre a interpretação  de “Fear Now”, tema cantado em inglês do seu já bastante antigo disco First Crime, Then Live que não esperávamos de todo escutar. Ergástulo marca mais um regresso do vocalista para meio da plateia entregando a tarefa vocal a uma ilustre desconhecida no público que a cumpriu de forma exímia. Observamos Alpha super irritado com os problemas de som provenientes do seu teclado, supomos, atirando-o várias vezes ao chão e quebrando-o por completo após “Escaravelho”, última música do concerto. Microfone, mais uma vez, livre e Sidónio lança-se àquele que seria o último mosh pit da noite, alimentado essencialmente pela cadência compassada da bateria de Miguel Fonseca, martelada que nos acompanhou até à tenda aquando do penoso regresso ao campismo. Uns partem guitarras, outros teclados, e distribuem os seus restos mortais pelo público que os recebe com agrado. Sem súvida um concerto a ser recordado para a posteridade.

 



 

O segundo dia de Vagos Metal Fest começou com a entrada em cena dos Godvlad. Jogando em casa, já que alguns dos membros são provenientes de Aveiro, os portugueses não conseguiram mais do que entreter o público presente ainda em pequeno número: um dos males de se abrir um festival. Com uma música que abraça uma vertente mais sinfónica com traços de Nu-metal, quais Within Temptation, o conjunto mostrou conseguir fazer uso da potencialidade dos seus membros através dos seus solos de guitarra e da dualidade vocal de Sérgio Carrinho (também baixista) e de Vanessa Cabral que preencheu os espaços em que não cantava com movimentos semelhantes à dança do ventre. Meia-hora foi o suficiente para percebermos o máximo que estes Godvlad nos poderiam oferecer, propiciando um concerto aprazível mas algo presumível e com uma sonoridade já algo datada. Tivessem explodido há 10 anos (ano em que se formaram) e talvez a história fosse diferente.

Segue-se outro clássico do metal português: Heavenwood. Banda importantíssima no panorama do metal nacional e injustamente olvidada pela maioria das pessoas. Remontamos aos anos 90, época em que ainda se mandavam cassettes por correio e em que Diva e Swallow saíram, discos muito bem conseguidos que meteram os Heavenwood no mapa, dando-lhes inclusive alguma projeção internacional, infelizmente não aproveitada pela banda que depois disso caiu num hiato de 10 anos até lançar novo álbum. O hype havia-se desvanecido mas a qualidade perdurou. Regressam agora com disco recém-editado e com um alinhamento fazendo uma ponte entre o passado e o presente. “Arcadia Order” e “The Empress” abrem o concerto mas é só quando “Rain Of July” explode no recinto que conquistam verdadeiramente os ouvintes. Sandra Oliveira, vocalista dos Blame Zeus, foi convidada especial e emprestou a sua voz ao tema “The High Priestess”, retirado de The Tarot Of The Bohemians – o seu novo disco, antes de se atirarem às sempre belas “Emotional Wound”, antecedida por um discurso que assentava sobre a boa vivacidade deste novo Vagos, e “Suicidal Letters”, última, dedicada a todos nós, mostrando o melhor que se fez no que toca ao metal gótico em Portugal. Meia-hora de pura história, tal como sucedera com os RAMP no dia anterior.

Apesar de já existirem desde 2005, tendo lançado The Horror em 2009, os Tribulation eram a banda mais enigmática do festival. Arriscamos em dizer que nenhum dos presentes sabia o que esperar daquele concerto e foi através dessa falta de expectativa que os suecos pegaram no público e assinaram a melhor surpresa do festival, não que o concerto tenha sido estupidamente bom mas pela coerência visual e sónica que revelaram, excedendo largamente aquilo que esperávamos face aos rumores que circulavam pelo recinto e às (poucas) canções que escutáramos na internet. A verdade é que estes Tribulation não se assemelham com nada e foi esse difícil processo de catalogação que acabou por torná-los cativantes, ora pendendo para o lado mais extremo a rasar o black metal ora para um lado mais gótico, sempre numa toada de grande obscuridade e misticismo. Não precisando de grande converseta, a sua química e postura de palco (corpse paint, roupa escolhida a dedo e frequente troca de posições) cumpria com o papel exigido da interação, o trio aproveita o melhor da sua discografia, da qual destacamos “Melancholia” e “When The Sky Is Black With Devils”, a mais rápida de todo o concerto, fechando-o da melhor forma possível. Sinceramente, meia-hora soube a pouco.

Afastando-nos drasticamente da distorção e peso do metal mais tradicional e aproximando-nos mais do punk e hardcore, é após a pergunta “are we metal enough for you?” que os Discharge, pais do D-beat, género que ainda hoje se revela bastante influente no circuito punk undeground mundial, se apresentam a Vagos, diante de uma plateia que, claramente, não estava pronta para os receber. Discarga de energia nonstop, ideal para o circle pit e para a moshada agressiva, infelizmente não obtendo a adesão desejada. Jeff Janiak pouco tem a dizer ao público mas pelo meio dos seus arfares, que isto de tocar músicas com menos de um minuto e meio tem muito que se lhe diga, vai elogiando o nosso belo país e desejando a maior das forças aos bombeiros portugueses no combate aos incêndios. Discurso terminado e siga com a rodinha que isto é hidrato de carbono puro e duro! Mesclando temas de toda a sua discografia, foi Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing, o seu primeiro e importantíssimo álbum que recebeu notório destaque (mais do que aquele que esperávamos), terminando o bailarico com “Decontrol”, reitirada do EP com o mesmo nome lançado em 1980.

Falando em bailarico, porém agora numa versão mais aproximada aos santos populares, neste caso pagãos, não houve melhor do que aquele que concedido pelos finlandeses Finntroll que, excluindo as atuações dos headliners, apresentaram a maior moldura humana do festival. Era ver raparigas, rapazes, novos e idosos, de braço dado, a dançar, a moshar (passo a redundância já que o mosh é uma dança), até um mini “comboio” houve e, de facto, é assim que se festeja temas como “Nattfödd”, “När Jättar Marschera” e “Trollhammaren”. Enfim, os Finntroll banda de festão para se gritar as letras enquanto deixamos entornar hidromel para cima de alguém no meio do mosh pit mais amigável de sempre. Disfarçados com umas orelhas de troll, o septeto, que se viu ficar sem baterista no final do ano passado, foi aposta vencedora e teria resultado ainda melhor caso fossem eles a fechar o festival. Um verdadeiro after sem o ser às 21h.  Quando Jan Jamsen anuncia “Under Bergets Rot” como a última trova da noite, o público apupa-os e pede por mais, mas o tempo era escasso e acabou mesmo por ser a nona faixa de Nifelvind a encerrar o concerto mais divertido da semana.

Interregno longo desde a última passagem dos Helloween por Portugal. Foi há precisamente dez anos (nem Andi Deris se recordava da sua última passagem pelo nosso país, arriscou 8 anos, corrigiram-no e mostrou-se incrédulo) que a banda germânica passou pelo Coliseu do Porto aquando da comemoração dos 25 anos de carreira dos Tarântula. Trouxeram consigo o disco final da série Keeper Of The Seven Keys, disco duplo de 2005, ignorado agora, em detrimento dos seus primeiros dois “números”, discos mais do que aclamados tanto pelos fãs como pela crítica e ainda cantados na ponta da língua pelos seus fãs quase 30 anos depois. Já há muito que se aguardava pelo regresso destes senhores do Power Metal a recantos lusitanos e no dia 14 de agosto ficou provado que os Helloween gozam de estatuto de banda intergeracional, sendo possível observarmos pais e filhos a cantar canções como “Steel Tormentor”, “Where The Rain Grows” ou “Halloween”, esta última tocada num medley deixado para o final do alinhamento regular e ao qual se juntaram também os temas “Sole Survivor”, “I Can”, “Are You Metal?” e “Keeper Of The Seven Keys” que dizimaram um público mais do que rendido. “Lost In America” é antecedida por uma história super caricata de quando, em tour, o piloto do seu jato diz que estavam perdidos no meio dos EUA, não faltando também a crítica clara aos tempos difíceis que se vivem em termos financeiros e um cru “Fuck the banks!” para regorzijo da plateia antes de “Straight Out Of Hell”.
O concerto termina com um encore onde ficaram reservadas “Future World” e “I Want Out”, duas canções da primeira e segunda parte de Keeper Of The Seven Keys, gritadas em plenos pulmões. Os Helloween podem viver sobretudo do passado, mas esse passado vale bem a pena e mesmo mais de 30 anos depois de se terem formado continuam com a mesma perícia e carisma, não desiludindo os fãs do género que tão motivados se demonstraram e propiciando assim a maior enchente de todo festival.

Para terminar a edição de estreia deste renovado festival foram chamados nada mais nada menos do que o maior nome do metal português: os Moonspell. Por muito mal que se diga tanto em relação ao grupo de artistas que dão nome ao conjunto como de Fernando Ribeiro, vocalista, não podemos negar a importância do quinteto para a música feita em Portugal, não falando apenas naquilo que fizeram pelo metal como também num modo musical mais abrangente (e daí compreendermos as críticas feitas pela banda ao artigo publicado no Público). Discos como Wolfheart e Irreligious (e também o malfadado Sin/Pecado, injustamente esquecido pela maioria dos fãs da banda) são peças importantíssimas num espectro musical vasto que de ano para ano se revela cada vez mais definidor de tendências e daquilo que de melhor o metal nacional teve para nos oferecer nos anos 90. Pena é constatarmos que a banda que outrora primava pelo desafio e originalidade se tenha recatado numa música mais massificada e não tão desafiante como outrora se revelara. Extinct é prova disso e destoa comparativamente aos seus álbuns antecessores, não tanto neste alinhamento, devido ao facto de terem pegado nas malhas mais goticamente catchy do seu segundo longa-duração, que comemora este ano 20 anos desde o seu lançamento, porém quando contrapostas a temas como “Vampiria”, “Everything Invaded”, “Full Moon Madness” ou até mesmo “Night Eternal” (que nem consideramos um grande tema) as diferenças de abordagem são notórias e é com esta fase de HIM meets Type O Negative que os Moonspell perduram e chegam às novas gerações. Facto comprovado ao vermos a quantidade de jovens a cantar os novos temas no recinto do festival. Não obstante a débil qualidade deste seu novo registo discográfico, o quinteto prova que ainda sabe fornecer bons concertos quer às novas gerações como também às antigas, elaborando um alinhamento que percorreu grande parte da sua discografia possível de se interpretar em cerca de pouco mais de uma hora, contando inclusive com frequentes incursões à pirotecnia e ao convidado não-tão-imprevisto-assim chamado Rui Sidónio (que por cá esteve no dia anterior com os seus Bizarra Locomotiva) e que interpretou juntamente com a banda “Em Nome Do Medo”, único tema em português gravado pelo conjunto lisboeta após 1995. O mosh foi frequente durante o concerto (não esperávamos outra coisa de Vagos), tal como os “hey's”, muitas vezes a pedido da própria banda (algumas vezes gerando situações de puro anti-clímax), revelando um público em verdadeira sintonia com os músicos em questão. Fernando Ribeiro, cada vez mais frontman assumido, serve de principal conector verbal entre palco e plateia. Não precisa de fazer grande coisa: todos ali o conhecem tão bem como a música que canta e que o público anseia em ouvir.

A primeira sessão de pirotecnia (e com pirotecnia leia-se labaredas a sair de palco) ocorre aquando de “Opium”, segundo tema mais emblemático da banda. Houve uma segunda sessão em “Mephisto”, muito bem recebida pelo público. A enérgico-sentimental “Awake” procede imediatamente após a famosa quadra de Álvaro de Campos que termina a segunda faixa de Irreligous, antecedendo a sempre surpreendente “Ruin And Misery”, verdadeiros clássicos interpretados em Vagos. “Raven Claws”, do mesmo álbum que as duas canções anteriormente mencionadas, conta com participação especial de Mariangela Demurtas (vocalista dos noruegueses Tristania) que fez aqui as vezes de Birgit Zacher de forma muito bem conseguida. “Alma Mater”, recebida de braços abertos com um coro monumental, finda o alinhamento regular. No encore, “Everything Invaded” e “Full Moon Madness”, esta última um verdadeiro épico de quase 7 minutos, terminam de modo magistral um concerto bastante competente. Fernando insiste em gritar por Vagos e dizer aos fãs para apoiarem o underground nacional, constatando que Vagos está mais que vivo. Concordamos com ambas as frases.

Para trás ficam memórias de um fim-de-semana muito bem passado, na melhor companhia possível, quer em bandas quer em público, e até em funcionários da restauração que sempre nos trataram bem na vila e nos foram revelando alguns pormenores relativos ao festival. É deste tipo de comunhão que Vagos vive e é por isso não pode morrer. Até para o ano.

 

por Diogo Alexandre
29 de Agosto, 2016
festival, 2016, reportagem, fotos, imagens, metal, fest, Vagos, amazing events, marta louro
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