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Vagos Open Air 2015 [7-9Ago] Texto + fotos

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Uma semana volvida da mais recente edição do Vagos Open Air podemos afirmar que foi um festival ganho, não só pelas bandas escolhidas ou afluência do público, como pelo ambiente de camaradagem vivido dentro e fora do recinto. Os próprios habitantes da vila respeitavam ao máximo os festivaleiros, esforçando-se muitas vezes por meter conversa com os mesmos sobre a música que estes ouvem e tentando desmistificar os mitos em que o género está envolto.

Coube aos Scar For Life abrir o festival este ano. Não nos querendo focar em demasia na banda lisboeta, resta-nos dizer que o concerto foi um dos mais falhados de todo o festival não só pela quantidade de falhas técnicas (microfone altíssimo, guitarras inaudíveis, etc) ou pelo público desinteressado, mas também pelas canções de hard rock genérico e simples, difíceis de cativar qualquer um que se encontrasse no recinto pelas 16h. O vocalista Rob Mancini, por vezes desafinado, bem se esforçava para pegar na plateia mas não dava para mais. Fica para a próxima.

Apesar de desconhecida por grande parte do público do festival, os Moonshade conquistaram alguns fãs no fim do seu curto concerto. Apesar de nunca os termos visto (e ouvido) anteriormente fomos surpreendidos pela entrega dos portugueses numa atuação “sem merdas” onde cumpriram muito bem o seu trabalho, respondendo sempre que possível às diversas provocações vindas do público (um cartaz amarelo onde se poderia ler um “Toca Xutos!” exemplifica o que dizemos).

Com apenas um registo de estúdio (o EP Dream | Oblivion) e sem muito por onde ir, os Moonshade focaram-se essencialmente nesse seu disco com direito a Intro e tudo. Uma banda nova, com qualidade, que mereceu a nossa atenção, a provar que não são só as bandas estrangeiras que “fazem” os festivais.

A primeira surpresa do festival foram os Vildhjarta. O djent super progressivo da banda sueca revelou-se intensíssimo ao vivo. Começando com uma malha instrumental, o quarteto logo se transformou num sexteto, com os dois vocalistas Daniel Ädel e Vilhelm Bladin a dinamizarem ainda mais a música dos suecos. Enquanto um gritava o outro fazia headbang e assim sucessivamente. Não obstante toda a técnica exigida pela música que praticam, também os restantes músicos arriscavam poderosos headbangs e passeios de um lado ao outro do palco, demonstrando uma presença de palco muito próxima do perfeito.

O que imaginamos quando escutamos os Vildhjarta em disco pouco se assemelha àquilo que se vê em palco. Muito sinceramente, não esperávamos tanta energia em palco vindo de uma banda tão técnica. Estes “meninos” brincam com tempos musicais como quem empilha legos e de repente são capazes de descer 20bpm a música e continuarem como se nada fosse. “Peaners”, como diz o outro.

Uns autênticos animais, ou nerds, como lhes queiram chamar. São raros os casos em que bandas dotadas de grande técnica transmitam algum tipo de sentimento nas suas músicas, os Vildhjarta são a exceção à regra. Por muito que escreva, só ao vivo é que se percebe o verdadeiro poderio da máquina.

15 anos depois da última passagem pelo nosso país, os Heaven Shall Burn chegam, veem e vencem num concerto que uniu fãs mais recentes com os fãs mais antigos. Afinal são quase já 20 anos de carreira. No momento em que já estranhávamos a ausência de moshs e circle pits na “arena” da Quinta do Ega, “Land Of the Upright Ones” revela-se como a faísca e inicia, oficialmente, as hostilidades do mosh pit que se transformaria numa wall of death três musicas mais tarde, em “Voice Is For The Voiceless”. Well, that escalated quickly.

O concerto bastante fluído, apesar do atraso inicial causado por problemas no aeroporto, revelou uns “Heaven Shall Burn” bastante bem oleados com Marcus Bischoff visivelmente satisfeito por atuar no nosso país e com a entrega do público. Às tantas, o vocalista chama mesmo uma criança de 6 anos ao palco para fazer headbang enquanto a banda tocava “Behind A Wall Of Silence”. A criança, meio aluada, lá alinhou no headbang (muito) compassado criando um dos momentos mais icónicos de todo o festival.

O concerto terminaria, duas músicas depois, com “The Disease”, acalmando assim o poeiral que pairava no ar desde o início do concerto. Um regresso em pleno. Esperemos que não sejam necessários outros 15 anos para os alemães voltarem a terras lusitanas.

Seguiram-se os Amorphis, repetentes do festival, sendo que agora viriam apresentar Tales From The Thousand Lakes na íntegra. Propostas destas soam sempre bem na teoria mas costumam resultar mal na prática. Já presenciámos bastantes tournées revivalistas de “álbuns de culto”, não só de bandas metal, e foram poucas aquelas que se revelaram verdadeiras e não um ato de “cash grab”. Este era aquele concerto em que estávamos mais na retranca, em bom palavreado popular. Tendo em conta os recentes trabalhos destes Amorphis, bastante mais melódicos e sem qualquer vocal gutural, será que o concerto seria tão bom como o supostamente esperado? A resposta certa é sim.

O alinhamento do disco foi seguido fielmente, nenhuma malha foi deixada de lado, e até houve espaço para covers: “Vulgar Necrolatry” dos Abhorrence foi muito bem metida entre “Sign Of The North Side” e “Better Unborn” (de Elegy – 1996).

Atribuindo a minha opinião pessoal, este foi, provavelmente, o melhor concerto, dos ditos revivalistas que já presenciei, com a banda a mostrar que realmente quer estar a fazer aquilo: a interagir com o público, a tocar as músicas na perfeição e a tocar inclusive covers e faixas de outros discos também da sua fase mais antiga. Muito sinceramente, nunca esperei ver uns Amorphis tão bem dispostos a tocar as faixas antigas, aquelas que me converteram à sua música, apesar de também apreciar a mudança mais melódica que efetuaram. De longe o concerto em que mais vibrei e aquele em que saí com um valente sorriso no rosto.

A verdade é que com a atuação dos Within Temptation na edição atual do VOA quebraram-se imensos tabus: Bandeira LGBT no Vagos? Aconteceu. Uma esvoaçava nas primeiras filas. Pop no Vagos? Aconteceu. Se não consideram as recentes canções dos holandeses como Pop, Sharon Den Adel e companhia trataram de fazer um cover de Lana Del Rey: “Summertime Sadness” foi a escolhida. Rap/rappers no Vagos? Aconteceu. Em “And We Run” foi transmitido o trecho rap de Xzibit nos ecrãs de fundo de palco. Posto isto não há muito a dizer. Atualmente os Within Temptation apresentam-se mais como uma futura banda vencedora da Eurovisão do que propriamente como uma banda de metal, ou rock, ou o que quiserem…

A verdade é que apesar da sua tão contestada vinda ao festival nas redes sociais, e não só, a banda contou com uma sólida base de fãs no recinto que se deslocou ali apenas para os ver. As pulseiras grenás (referentes ao dia 7) estavam em bastante maior número que as pretas (as dos três dias), durante a sua atuação. Provavelmente, a seguir a Amorphis, os “residentes” do festival trocaram de lugar com os fãs da banda holandesa, visto o recinto, subitamente, se ter enchido com pessoas que não avistámos durante todo o dia e a quantidade de público dos Within Temptation ter sido pouco superior à de Amorphis.

Foi engraçado acompanhar as diferentes fases da banda durante o seu concerto pois eram claramente notórias: a fase mais folk com “Mother Earth” (que encerrou o alinhamento regular) e “Ice Queen” (que encerrou o concerto), a fase mais rock sinfónico com “Memories”, “Angels” e “Stand My Ground” (é aqui que Sharon brilha mais, na nossa opinião) e a fase pop/rock durante a maioria das faixas tocadas neste concerto, com principal foco em Hydra, o seu mais recente disco.

Apesar da sua presença no festival ser de sentido dúbio, a banda não se revelou uma aposta falhada, entretendo as mentes mais abertas que por ali permaneceram com um excelente concerto. Sharon Den Adel, muito comunicativa, não falhou uma única nota ao longo do concerto, usando e abusando do seu bonito falsete tanto nas músicas mais festivaleiras como nas mais rockeiras.

Por mais que se não goste destes Within Temptation não existe nada de errado a apontar ao seu concerto. Uma vocalista que tem o “pack” completo: enérgica, comunicativa, simpática, bonita e com boa voz, rodeada por uma boa banda (da qual faz parte o seu marido Robert Westerholt) não poderia dar mau resultado. Os fãs renderam-se aos encantos dos holandeses e nós também.

Foi bom recordar os temas mais antigos e o cover de Lana Del Rey, apesar de deslocado com o tema do festival, até resultou bem. De fora ficou “The Howling” e grande parte dos temas de The Heart Of Everything. Foi engraçado também de perceber a admiração que Sharon tem por Kate Bush, aqueles movimentos em palco não enganam ninguém.

Um muito bom concerto que encerrou este primeiro dia de Vagos Open Air cada vez mais aberto a novos tipos de sonoridades e ainda bem.

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Por Diogo Alexandre / 9 Setembro, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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