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Vagos Open Air 2015 – Dia 2 [8Ago2015] Texto + fotos

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A abrir o segundo dia de festival estiveram os We Are Killing Ourselfs (WAKO diminuído) que pelas 17h (sem antecipações) brindaram a plateia com um metal groovy bastante bem elaborado e cativando que logo despoletou um agitado mosh pit. O público mostrou-se conhecedor de praticamente todo o reportório dos portugueses, tendo havido tempo, inclusive, para uma wall of death a pedido dos músicos. Convém referir que, dentro das bandas da abertura, os WAKO ganharam, em termos de público, à restante concorrência, despoletando uma pequena enchente, maior do que o que estamos habituadas durante as bandas das cinco da tarde. Quer-nos parecer que se lhes adiantassem o horário o público iria ser em igual ou maior número. É a prova, mais uma vez, de que as bandas portuguesas sempre têm alguma coisa a dizer nestes festivais de música ao vivo.

Este ano, parece-nos, que as bandas portuguesas tiveram um papel excelente, que primou não só pela variedade como pela qualidade ao vivo, proporcionando melhores atuações que muitas bandas estrangeiras que por ali passaram. E não é preciso ir muito longe, basta pensarmos nos Mutant Squad, banda espanhola que esteve bastante inferior à banda portuguesa. É verdade que ao contrário dos WAKO, que tinham o público agarrado desde início, os espanhóis tinham o trabalho acrescido de tentar agarrar o público antes que este se desinteressasse, porém falharam um pouco nesse campo. A música, um thrash algo genérico, também não ajudou, permanecendo apenas no recinto os fanáticos do mosh e circle pit, que digamos, era para o que a música dos Mutant Squad servia, sobretudo. No final lançaram umas tshirts para o público e partiram sem deixar grandes lembranças.

De trio de Thrash Metal para outro trio de Thrash Metal se fez a mudança de banda no palco principal (e único com bandas ao vivo) do Vagos Open Air. Desta feita, seriam os Destruction a demolir e empoeirarem as narinas das pessoas.

O público quase que duplicou ou triplicou de uns Mutant Squad desinspirados (valeu a boa disposição) para uns Destruction, de facto, destruidores. A banda que já não vinha ao nosso país há alguns anos, potenciou um dos melhores concertos do género neste festival. Não fosse a enorme quantidade de problemas técnicos, recorrentes ao longo do festival, o concerto poderia ter sido ainda melhor. Não sabemos o que aconteceu ao som do festival este ano mas a verdade é que os problemas foram enormes durante os 3 dias, prejudicando drasticamente as bandas que por ali atuavam.

Durante o primeiro dia ainda é compreensível, e como em Amorphis e Within Temptation, o som estava próximo do muito bom, pensámos que já tivessem resolvido todos os problemas relativos a esse aspeto, mas não, e não se haveriam de resolver até ao encerramento do festival. Guitarras inaudíveis, desníveis de volume, falhas dos altifalantes, micagens mal feitas, foram o pão nosso de cada dia, e durante o set dos alemães aconteceu o pináculo das falhas técnicas com o sistema de som a ir abaixo durante “Bestial Invasion”, uma das faixas mais celebradas da banda. Os músicos, ao que parece, não se aperceberam da falha visto terem prosseguido com a atuação e ser possível ouvir-se o som vindo do palco, no entanto, para o público, o erro foi crasso e libertou uns valentes assobios.

Com um alinhamento que percorreu, numa hora, o máximo possível a discografia da banda de Marcel Schirmer e companhia, satisfazendo tanto os antigos como os novos amantes do grupo. Tudo isto juntamente com a divertida e comunicativa postura do vocalista e baixista, proferindo alguns clichés do metal durante a actuação (“we speak the language of the fucking metal!”) acabou por tornar o concerto bastante agradável apesar das falhas técnicas, não só sentidas por nós, presentes em todo o concerto. Um concerto em nome próprio num espaço intimista é o que se pede e desta feita sem falhas técnicas.

Após 3 horas de mosh infindável, chegam-nos os Tryptikon que, ao que parece, eram desconhecidos de muitos dos festivaleiros que por lá andavam. A verdade é que foi destes novinhos Tryptikon e velhinho Tom G. Warrior (ou, Thomas Gabriel Fischer como preferirem) que saiu um dos melhores concertos de todo o festival. Houve inclusive tempo para visitar êxitos de carreira dos Celtic Frost (“Procreation”, “Circle Of The Tyrants” e “The Usurper”) e Hellhammer (“Messiah”), ou não fosse o vocalista também membro das duas míticas bandas suíças. Foi nesses precisos temas que o público mais se manifestou surgindo, inclusive, um pequeno mosh descontrolado durante a sexta faixa de To Mega Therion, a um dos principais discos dos Celtic Frost. Estes velhos hinos intercalados com o peso massivo dos malhões (alguns quase doom) de Eparistera Daimones e Melana Chismata fez com que este concerto roçasse a perfeição.

Não sabemos como é quanto ao restante público mas ver ao vivo um nome tão importante para o universo musical, não apenas do metal mas da música no geral, como Tom G. Warrior foi quase uma dádiva (um pouco como aconteceria com os Venom, horas depois) e, consequentemente, um dos grandes momentos do festival, ainda para mais com toda a qualidade destes Tryptikon apresentada ao vivo e acompanhada pelos “Ughs!” do costume. Sem dúvida um dos momentos altos de todo o festival.

Com a casa muito bem composta, os Black Label Society (leia-se Zakk Wylde) regressam ao nosso país para mostrarem como se fazem solos de 10 minutos em todas as músicas (hipérbole óbvia) e mesmo assim não dispersarem o público presente. Essa é a mais pura da verdade: o público rendeu-se à arte de Zakk e companhia desde o primeiro power chord não obstante a sua comunicação quase nula.

Com o estatuto de que gozam, os Black Label Society não necessitam de ser muito criativos no que toca à arte de compor para agarrarem o público e fazer com que estes se sintam satisfeitos, basta que Zakk Wylde apareça com a sua cabeleira loira e saque um qualquer solo improvisado (ou não) para deixar em delírio as centenas de pessoas que se encontram na plateia. Sem querer ofender ninguém, a atuação dos americanos não passou do banal, focando-se mais nos solos do guitarrista do que nas músicas da banda. Para além dos excessivos e conhecidos solos durante as músicas, era mesmo necessário um solo de 6 minutos a meio do set? Não nos parece. Os Black Label Society encontram-se agora numa fase moribunda e não damos muito mais tempo a que Zakk Wylde dissolva o nome da banda e se dedique exclusivamente à sua carreira a solo, afinal não é exatamente o mesmo?

Foi bom poder ver a entrega do público à banda californiana e ver a quantidade de bandeiras da confederação (sul dos E.U.A.) com o símbolo dos Pantera, erguidas enquanto Zakk interpretava “In This River” ao piano, em honra de Dimebag Darrell. “Stillborn” acabou de vez com um concerto que não sendo mau, também não foi extraordinário, ficando ali a meio termo

Pelas reações que captámos, os fãs saíram satisfeitíssimos. Nós nem por isso: esperávamos bem mais.

Outro dos grandes momentos deste dia (já referido anteriormente) foi “Cronos” (que conta com os mesmos 52 anos de Tom G. Warrior) a atuar poucos metros diante do público e proporcionar um concerto que uniu almas jovens e outras mais experientes por um objetivo comum. Pouco há a dizer sobre os Venom e aqueles que nunca os ouviram, possivelmente, não são o público alvo desta publicação.

A incrível comunhão dos fãs com o trio foi algo de assombroso: todos cantaram “Welcome To Hell”, “Countess Bathory”, “Black Metal”, “In League With Satan”… é impressionante como os Venom, não sendo uma banda muito mediática, detêm músicas que ultrapassam a barreira das gerações e conseguem meter “putos” de 16 anos juntos a adultos com mais de 40 nos seus concertos a cantar e a vibrar com as suas músicas, até com as mais recentes. O mosh, que havia desaparecido nas atuações anteriores, regressou em força durante esta, juntamente com o crowdsurf. Ainda estamos tão incrédulos com a prestação dos ingleses que nem sabemos que adjectivos utilizar para descrever a sua atuação. Endiabrada? Sem dúvida. Irrepetível? Talvez. Indubitavelmente, um momento para a posteridade. O combo “In League With Satan” e “Watching Hour” encerrou em definitivo uma atuação majestosa (talvez seja este o adjetivo correto) sem encore, deixando muitos dos fãs na expectativa de um eventual regresso ao palco. Se, efetivamente, tocaram 1h30, pareceu-nos pouco. Todos desejávamos mais.

Ainda na ressaca dos Venom, 15 minutos não chegaram para dissolver o concerto dos ingleses na nossa cabeça, e esperámos, após a deserção de grande parte do público, pelos Filii Nigrantium Infernalium. E devemos dizer que estes senhores, que contam já com mais de 20 anos de carreira, foram uma das maiores surpresas do festival. Os portugueses foram, arriscamos dizer, a melhor escolha possível para fecharem este segundo dia de festival: um Black thrashalhado (necro rock n´roll talvez seja a melhor definição) era o que se pedia e o que se queria.

“Boa noite Lagos!”, foram as primeiras palavras proferidas pela banda logo após subirem ao palco, soltando algumas gargalhadas na plateia, seguido pelo trecho do hino da Eurovisão. Daí em diante a atuação prosseguiu num ritmo alucinante, tão rápido como os blast beats das suas músicas, sempre com Belathauzer dissertando em tom jocoso sobre assuntos religiosos entre outros com algum nonsense à mistura.

“Tudo nos tiram, nada nos deixam.” diz o vocalista para o roadie enquanto este lhe troca a guitarra e “Desejo-te tanto a vida como a morte” dita para duas pessoas que gritavam algo impercetível foram as frases (de génio, diga-se) que permanecerão no interior dos nossos cérebros até que a morte nos leve. Músicas como “Necropachacha”, “Morte Geométrica” e “Labyrinto” foram cantadas com alma e coração pelos fãs que permaneceram no recinto para presenciar um dos melhores momentos do festival.

Afinal, parece que sempre houve Black Metal nacional no Vagos Open Air, não é verdade?

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Por Diogo Alexandre / 9 Setembro, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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