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Vodafone Mexefest 2015 • A diversidade que mexe com a cidade

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Titus Andronicus

Chegamos a uma das últimas paragens de 2015 a nível de concertos. O Vodafone Mexefest é o festival que não dá prioridade a cabeças de cartaz, a nomes demasiado grandes. É o festival que aposta nos nomes que vêm em crescendo nos mais diversos estilos músicas, ou os artistas que não podem ter a sua música a passar nas rádios (Oi Peaches, esta é para ti). É esta diversidade musical e confluência de horários e uma escolha incrível de salas que faz do Mexefest um festival empolgante para todos sem exceção.

O nosso Mexefest começou com Galgo e o seu rock mais psicadélico e instrumental. Os lisboetas deram um concerto sem grandes euforias, para uma Estação do Rossio que nem a meio estava e que esperava Akua Naru. Ainda assim deram indícios, de que são mais do que capazes de cativar uma plateia mais conhecedora do tipo de música que eles fazem.

Akua Naru, começou por ser a grande enchente da noite quando desde logo o palco ao ar livre do Vodafone Mexefest esgotou com o seu Hip Hop misturado com Funk e Soul. A enchente, reagiu com imensa energia a toda a interação e entrega que vinha de Akua e sua respetiva banda. No Rossio foi desfilando o puzzle hip-hop-soul-funk das canções presentes em The Miner’s Canary, deste ano, e do álbum de estreia The Journey Aflame – algo que se adequa bem ao que se passou naquela hora. Um “tudo bem” num português forçado e o início do Mexefest foi da cantora de chapéu preto e longas rastas. O som pouco definido e a banda que Akua usa e abusa nos seus temas deixam passar algo despercebidas as letras muito mas muito inteligentes e de canções  como por exemplo “The Backflip”. Apesar do momento do concerto ter sido feito de uma introdução de “Feeling Good” – popularizada por Nina Simone – para Poetry (How Does it Feel?), tema onde a cantora aproveitou para fazer um discurso mais longo sobre o amor que tinha pela cidade, e que tinha prometido a si mesma que iria cantar essa mesma canção quando actuasse em Lisboa. Esta canção arrecadou as reações mais entusiastas de uma plateia completamente lotada. Uma estreia recheada de sucesso e um prenúncio que os promotores portugueses devem apostar mais no hip-hop.

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Akua Naru

A noite foi preenchida e completa quando Benjamin Clementine sobe ao palco do Coliseu dos Recreios. Com traços de Nina Simone na sua intensidade ou o sofrimento de Nick Cave a certos pontos da sua carreira, o artista tem muito de semelhante com Antony (and the Johnsons) que também ali já deu concertos de encher a alma. Sem grande repertório para apresentar, o londrino arrepiou uma sala a rebentar por todos os lados, quando chegava a sua voz ao alto, e lhe dava uma vida além do imaginável. Ouviu-se “Adios”, “Nemesis”, “Condolences”, mas o grande momento deste concerto foi quando se ouve “London”. Foi sem dúvida a apoteose do cantor, vindo de uma escola clássica e antiga, onde representa à sua imagem a Europa dos poetas.

Na mesma sala existiu tempo para os Chairlift desiludirem quase toda a gente que se deslocou até ao Coliseu para os ver. Ser de Brooklyn ou receber elogios de Beyoncè não é suficiente nem é garantia de que se é uma banda excelente ou excecional. O synthpop e o (pouco) volume que sai dos microfones não conquista ninguém. Chegou-se mesmo ao ponto de se ouvir mais o público a conversar entre si que a própria banda a atuar em palco. Foi certamente a desilusão da noite – talvez dividida com o cancelamento de Roots Manuva.

O cancelamento de Roots Manuva permitiu-nos então assistir ao concerto do projeto de Matt Mondanile, os Ducktails. A banda de Matt – que também é guitarrista nos Real Estate – não foi especialmente favorecida no som do bonito Teatro Tivoli, mas a verdade é que quando chegámos a fila para entrar teria facilmente umas centenas de metros. Depois de um disco excelente em 2013, acabou por ser St Catherine a figura principal do concerto dos norte-americanos, que se sentem bem neste registo pop-psicadélico. Apesar de tudo, não foram capazes de ter a garra necessária em palco para garantir que a plateia sentisse mais o concerto.

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Ducktails

Ainda houve tempo de espreitar Titus Andronicus que prometiam um dos concertos da noite, e que com pena nossa perdemos grande parte devido aos horários. Mas o Mexefest é isto mesmo e é por isso que é tão especial. O público na sua maioria punk-rock não deixou que o Ateneu Comercial de Lisboa estivesse vazio (Benjamin Clementine atuava à mesma hora) e deram uma réplica muito boa daquilo que são em estúdio. A festa que se gerou ali abafou completamente as falhas vinda da mesa de mistura.

A segunda noite começava com Jenny Hval e a sua pop-electrónica experimental. A sala principal do São Jorge esgotou para ver a menina bonita e espiritual da noite, que nos apresentou – entre outras – as músicas do seu último LP.  Cantava numa voz tanto sensual como angelical, com uma peruca e um outfit muito desportivo a condizer com a sua bola de yoga para tomar de assalto a nossa mente com a sua espiritualidade.

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Jenny Hval

O vencedor da noite é claramente Patrick Watson. O canadiano encheu de forma categórica – e dividida com Benjamin Clementine para concerto com mais afluência – a maior sala do festival. O Coliseu dos Recreios uniu-se a uma só voz para acompanhar o canadiano por mais de uma hora e meia de espetáculo. Era um público completamente diferente do que nos acompanhou no concerto da sua companheira canadiana Peaches, com gins e bebidas brancas na mão. Um mistura e confluência de pessoas que faz do Mexefest um festival à parte de todos os outros. O artista arrancou com o tema que dá nome ao seu último trabalho Love Songs for Robots, e é este o ponto de referência para toda a sua setlist. Foi sentado ao piano que Patrick começou aquilo que foi um concerto longo e irrepreensível, bem à imagem do que o canadiano nos proporciona sempre que cá volta. Saltou do piano para a guitarra, muitas vezes na mesma canção para conduzir a plateia ao caminho que mais lhe agrada. Passou com distinção na promoção do São Jorge para o Coliseu, e não desiludiu ninguém.

Horas antes, subia ao palco um dos irreverentes da noite: Ariel Pink. Meia casa e luzes acesas quando de forma muito discreta o músico e a sua banda sobem ao palco. Pareceu sempre muito atarantado muito irresponsável, um som longe do exigível a este nível. O público não ia gostando do que ia ouvindo e foi se dispersando cada vez mais. Fica a clara imagem que o californiano não se portou como devia e esteve longe das exigências e padrões do festival.

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Patrick Watson

No Tanque existiu outro Mexefest, uma outra vida. Primeiro quando Da Chick arrebatou o novo espaço de Lisboa, com uma energia muito própria e pessoal e deu um concertão que deixou toda gente expectante para o que se ia passar a seguir com a canadiana Peaches – até nós. Esta última, sempre no seu estilo excêntrico, num fato castanho e dourado apresenta-se em palco com Rub, a música que dá nome ao álbum editado no passado mês de Setembro. A eletrónica e os sintetizadores deixaram o público à vontade e descontraído enquanto bebiam maioritariamente gin tónico e dançavam no pouco espaço existente na antiga piscina do Ateneu. Houve tempo também para Da Chick dar – ainda – mais vida ao concerto da canadiana e cantar dois temas, Operate e Vaginoplasty bem como para a performer trazer as suas convidadas especiais: as bonecas insufláveis.

Houve tempo para Castello Branco num ambiente introspectivo sob a escadaria do salão da Sociedade Portuguesa de Geografia, com o brasileiro em nova visita ao nosso país este ano. A fila era imensa para vê-lo. Veio acompanhado por um outro guitarrista, e cheio de loops, e apresentou-nos os temas de “Serviço”, meio que embaladas, lembrando-nos alguns dos grandes cantores brasileiros como Caetano Veloso ou mesmo Gilberto Gil. Castello Branco é um excelente exemplo da maneira de respirar emoção e música tão típica do Brasil, e pede um regresso rápido e numa sala à sua imagem e dimensão.

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Peaches

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Por João Neves / 4 Dezembro, 2015

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