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Vodafone Paredes de Coura 2016 – Dia 4 [20Ago] Texto + Fotos

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No último dia do Vodafone Paredes de Coura o sentimento que se instalou foi igual a todas as edições. Não haverá lugar nem magia igual ao que se encontra em Coura, local por excelência para convivência de semelhantes distintas personalidades e fusão delas com música, boa música. Talvez por essa razão, e apesar de as margens do rio se encontrarem mais desertas que o habitual, o recinto demorou mais a ficar cheio (todos nós sabemos, que as melhores histórias, assim como as melhores pessoas e as melhores bebidas acontecem todas nas tendas).

The Last Internationale foram os primeiros a subir ao palco e mereciam um público bem mais numeroso do que tiveram. Instalaram os momentos conturbados do PREC no festival e, gritando revolução em cada guitarrada, repetiam o 1o de maio em cada canção. Provocantes e ousados (com uma imagem no fundo a afirmar “Este banner mata fascitas”), foram de todos os dias, o único primeiro nome a trazer garra e energia ao fim da tarde, terminando o concerto com Delila Paz a atirar-se para o público como quem lidera a revolução enquanto víamos Edgey a destruir os dedos das mãos com as cordas da sua guitarra.

 

 

Depois de tanto poder e energia em palco recebemos o fenómeno nacional que são os Capitão Fausto. Com um público numeroso à sua frente, Coura não se apresenta uma grande tarefa para si. São presença frequente no festival e por lá, assim como todos nós, fizeram amigos e viveram histórias com algumas pessoas com quem se foram cruzando. Desta vez partilham e vivem tudo com todos os campistas, oferecendo-lhes cantigas como “Morro na Praia e “Santa Ana”.

No Palco Vodafone FM os Motorama demonstram que in Russia, good music finds you. Discípulos do post-punk, as semelhanças com os Joy Division são mais que visíveis, ou vá, audíveis, encontrando semelhanças entre a voz de Ian Curtis e Vladislav. Mais tarde, antes do concerto mais aguardado da noite, seriam os Cigarretes After Sex a dar o seu contributo para a pasmaceira de dia com o seu ambient pop.

The Tallest Man on Earth foi um concerto que apelou às emoções de um púbico desejoso de se esfarrapar todo numa derradeira despedida para o último dia. No entanto, é de louvar a adaptação que o público fez ao artista, em grande parte causada pela empatia que este conseguiu provocar. Olhando para Kristian, a sensação era semelhante ao amor/ódio que caracteriza um primo provinciano a encontrar um afastado primo urbano e cosmopolita: orgulhosos da nossa vida e vontade de um bom desfecho, vs. Inveja e gosto pela sua sensibilidade. Assim, de ânimos mais serenos deixamos a nossa alma preencher-se um pouco com o folk melodioso deste sueco gigante.

 

 

O público converge em massa para ver a banda que recebe de forma totalmente aleatória o nome de Portugal. Atraídos pelo gosto das suas músicas, ou simplesmente pelo sentimento de patriotismo, o que é certo é que o concerto dos Portugal. The Man conseguiu ser uma salgalhada tremenda, onde o momento de maior ovação acontece como forma de celebrar a vitória no Euro 2016. É num misto de registos que a banda de John Baldwin se apresenta, apesar de conseguir arrancar algum acompanhamento do público nos refrões, ou alguns saltos e moshes (que aconteceram mais por uma vontade incontrolável do público em fazê-los, como mais tarde iríamos constatar). É demasiado desconcertante e estranho ver uma banda saltar do rock, para o r&b, ora para o pop, ora para algo sem sal. O público esse vai tentando acompanhar o ritmo da banda, mas muitas vezes tem de se resumir à mera apatia e ficar a olhar. “Don’t Look Back in Anger” dos Oasis consegue ser o momento mais cativante de todo o concerto, sendo que, para uma banda, com uma discografia como os Portugal. The Man, isso só pode ser algo triste.

Para finalizar em grande, entregaram a tarefa ao mais pequeno cabeça de cartaz imaginário. Os CHVRCHES têm apenas na sua bagagem dois álbuns e, da última vez que passaram por Paredes de Coura eram certamente um nome bem mais sonante do que o são agora. Com uma voz ao vivo capaz de irritar a mais serena das pessoas, com o novo álbum a passar um pouco ao lado da cena musical, sem um hit forte como era o caso de “The Mother We Share” (última música a ser interpretada no concerto, com o público já a sangrar pelos ouvidos), e mesmo a jogar a cartada de amar Portugal (houve bandeira em palco, e parabenização pelo campeonato), a maioria do público reagiu com indiferença ao synth pop que a banda escocesa tinha para oferecer. E oferecer é mesmo a palavra, pois não faltavam pessoas à nossa volta que não se cansavam de enfatizar o desagrado pelo que lhes era oferecido. Assim, e totalmente alheios a quem no palco se encontrava, um grupo de festivaleiros entregou-se ao mosh causando o momento mais sui generis de todo o festival. Lauren Mayberry, voz e postura daquela delegada de turma que todos tivemos e que todos nunca mais queremos encontrar no futuro, a chamar a atenção para o perigo e desconforto do mesmo por parte de quem queria assistir ao concerto.

 

 

A loucura transferiu-se e encontrou lugar no after, um dos mais loucos de todas as edições, com direito a mimar seguranças no crowd surf, ao som do já quase português (tantas são as vezes que cá está) Matias Aguayo.

Depois de dois dias literalmente brutais, o último dia de Paredes de Coura foi tão calmo e “banalzinho”, que foi essa a sua salvação. O facto de ter sido um dia tão indiferente, fez com que não conseguisse um lugar entre as memórias dos dias que lhe antecederam. Os nomes fortes não deram momentos memoráveis, e os nomes menos conhecidos não causaram surpresa para quem os assistia. No entanto, a avaliação final é mais que positiva e quem partiu com as expectativas em baixo quanto a esta edição encontrou um Paredes de Coura repleto de bons concertos e momentos, a provar uma vez mais que é das suas gentes (onde tu também estás incluído) que vive e respira. Concretizou-se novamente e relembrou que quem se sentiu em casa uma vez, irá sentir-se em casa para sempre no Couraíso.

 

 

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Por João Rocha / 31 Agosto, 2016

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