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Vodafone Paredes de Coura 2017 [16-19Ago] Texto + Fotogalerias

04 de Setembro, 2017 ReportagensJoão Rocha

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Vodafone Paredes de Coura

TRC Zigurfest 2017 • O Douro sublimado – Parte 2

TRC Zigurfest 2017 • O Douro sublimado - Parte 1


 

Subimos ao norte do país, até à vila do rock, para uma das festas de aniversário mais aguardadas e também mais merecidas, dos últimos tempos. O cartaz já nos era conhecido e fazia jus à ocasião, sabíamos que íamos encontrar muitas caras habituais, o Taboão não secara e até a meteorologia anunciava um dia ou dois de chuva, um habitué agridoce, mas que também faz parte da mística que é o Festival Vodafone Paredes de Coura.

À nossa chegada ao campismo, facilmente percebemos algumas mudanças no recinto, todas estas para melhor. A zona comum, com a restauração e as casas de banho, transformara-se agora numa pequena praça desta grande aldeia onde se dorme ao relento. No entanto, o que saltava logo à vista era a quantidade tremenda de campistas que este ano se dirigiram para as margens do rio mais frio de Portugal, número que foi subindo ao longo dos dias do festival. Tal visão, trouxe-nos à memória a fatídica edição de 2015, onde o festival fora assolado por uma imensidão incompreensível de pessoas que apenas queriam acampar pela primeira vez. Com o tempo percebemos que não fora o caso, apenas uma enchente de muitos “filhos” que regressaram a casa para ajudar a apagar as vinte e cinco velas do festival.

O palco principal abre com aqueles que colhem indirectamente os frutos deste evento - que já é o detentor do título de maior longevidade dentro do género -, mas que também por eles passará o seu futuro: os jovens da região. A Escola de Rock, constituída por dezenas de pessoas bem mais novas que o festival em si, abrem as hostes, interpretando clássicos do rock moderno, e revisitando bandas que já marcaram presença no mesmo palco, como o caso dos Tame Impala, ou dos Arcade Fire.

Fizeram-no para um público reduzido, as saudades de apanhar Sol na relva, e refrescar nas águas gélidas do Taboão,faziam-se mais convidativas, naquela tarde de calor. Que o digam os The Wedding Present, que poucas horas antes de subirem ao Palco Vodafone (o único a funcionar no primeiro dia), haviam tocado por cima dos balneários para uma enchente de indiferença. Agora tocavam para um público que se começava a compor e que já vibrava ao som das músicas de George Best, álbum de estreia da banda Inglesa, que completa este ano 30 anos. Para o fim ficava “Kennedy”, a música maior da banda, mas que nem por isso provocou uma maior efusão perante tão grandioso hino rock.

Eram aniversários a acontecer dentro de um aniversário, e como tal, também os portugueses Mão Morta, que já passaram pelo festival mais do que uma mão cheia de vezes, traziam Mutantes S.21 para igualar na idade de Paredes de Coura. Frente a ilustrações igualmente ácidas às suas letras, Adolfo Luxúria Canibal saltitava de cidade em cidade, de Lisboa a Budapeste - momento de maior explosão - ex-libris da banda reconhecido por todos. Assim, sempre a rock & rollar, muitos decidiram acompanhar a banda pela noite da capital Húngara. Houve também tempo para se cantar os parabéns à casa, e aí, com a voz mais catarrosa de sempre a conduzir a música mais feliz de sempre, cantou-se com alguma dificuldade em uníssono os parabéns ao Vodafone Paredes de Coura. Concerto incrível, cheio de garra, raiva e energia, uma viagem aos problemas da década de 90, mas também ao que melhor se fez por cá nessa altura a nível musical. Para o final ficou “Bófia” de  O.D., Rainha do Rock & Crawl, que termina com Adolfo, depois de uma hora a  dar tudo de si, a atirar-se para o chão e a recuperar da exaustão que foi percorrer boa parte da Europa, Norte de África, e até reinos esotéricos em pouco mais de uma hora.

Seguiu-se o projeto de Geoff Barrow dos Portishead, os Beak>, e se daqui a alguns meses ainda alguém se lembrar que eles passaram por lá, um bem haja a essa memória, pois tratou-se de um dos concertos mais enfadonhos e deslocados que nos conseguimos lembrar. Apesar de ter sido essa a impressão com que o público ficou, em palco vivia-se uma interpretação diferente da realidade, com tentativas de interacção com o público, e fotos para depois mostrar com orgulho, o maior público que alguma vez tiveram. O atelier de rockismo electrónico experimental da banda não convenceu quem os assistia, e o ambiente arrefecia abruptamente. Calor, algum houve, quando tocaram alguns acordes dos Pink Floyd (ideia abandonada, por ser uma heresia interpretar tamanhos Deuses), e dos Dire Straits - não haverá nada mais triste do que uma banda que só consegue elevar-se quando não toca algo seu.

 



 

Sorte a nossa, momentos depois estava a subir a palco a melancolia explosiva new wave dos Future Islands. A linha de baixo dispara, e não há como enganar: viajámos imediatamente no tempo até ao passado e estávamos a assistir ao concerto de uma banda do futuro. Mas sejamos sinceros, não fosse o característico baixo (e não o seu baixista - William Cashion), e nem reparávamos que existia uma banda em palco. Samuel Herring mal apareceu, roubou logo toda atenção para si e, a partir do momento em que se repara na sua efusiva dança, a hipnose é total e não dá para sair do transe. Não existiu artifício, não houve show off, apenas emoção, emoção que tanto se fazia ouvir através da voz quente do vocalista, assim como através das batidas de punho cerrado que este dava em seu peito. Após “Seasons (Waiting For You)”, que levou o público ao delírio, sem nada dizer, diz tudo ajoelhando-se, rendido a uma plateia rendida, entre suor e lágrimas - foi bonito, e finalmente havia uma dinâmica de concerto à altura de Paredes de Coura.

Fechar o 1º dia (a nível de concertos, pois não nos cabem nos dedos da mão a quantidade de afters que passamos pelo acampamento), ficou nas mãos de Kate Tempest, e apesar desta as gesticular constantemente como quem explica direcções, era a destreza rítmica da sua voz que ditava as directrizes. Contou uma história, contou um mundo, contou vidas: quais? As de todos nós. Tudo está conectado, e é sobre este lema que contestou e provocou desde o assunto mais mundano e fútil, ao mais fracturante e delicado. Fazia-se acompanhar com três músicos que davam alguma melodia electrónica de auxílio às suas rimas, mas nem sempre se fizeram ouvir, ao contrário da rapper britânica, que constantemente disparou palavras de ordem sem perder o fôlego, sem perder a exímia dicção. Let Them Eat Chaos, o seu último álbum, prendeu todos às suas letras, ansiosamente escutadas e aplaudidas em compreensão aquando estas tocavam em vivências mais empáticas.

Kate Tempest apanhou muitos de surpresa, grande parte dos que não desertaram após o concerto dos Future Islands, e esses foram presenteados com um dos concertos mais memoráveis desta edição celebração do Vodafone Paredes de Coura.

 



 

Segundo dia, ainda muita energia para gastar. Este fazia-se quente, e a afluência ao rio foi mais uma vez massiva, situação que se manteve durante todos os dias do festival. A chuva, essa grande recorrente de Paredes de Coura, vira as suas previsões afastadas, e até domingo nem uma gota sentimos, tirando aquelas que fazem os ossos estremecer quando entramos nas águas no Taboão e alguém, ora por brincadeira, ora por possessão demoníaca, decide-nos salpicar sem estarmos ainda totalmente adaptados à temperatura da água.

 



 

Com as condições certeiras, não nos foi de espantar ver os Car Seat Headrest tocarem para um público ainda vago e disperso, mas também não nos espantou ver as primeiras filas a saltar e a começar a levantar o pó do recinto. De facto, no fim do concerto, já havia pessoal suficiente para uma grande festa, mas até chegar a essa situação tivemos de esperar todo um concerto, que fez-se assim em meio gás. Foi uma edição recheada de concertos dados na hora errada, e malhas como “Vincent” e “Destroyed By Hippie Powers” do aclamadíssimo Teens of Denial mereciam uma melhor energia.

No palco Vodafone FM, acontecia o contrário, e este fora pequeno para receber a multidão de curiosos que se dirigira para assistir aos canadenses Timber Timbre. Com uma música delicada e complexa, aproveitaram a cobertura do recinto para um concerto mais intimista e de um sensualismo que roçava o obscuro e o freak. Sincerely, Future Pollution é um álbum delicado e complexo, que leva o folk por caminhos pouco explorados e bastante ousados, e era isto que nos apresentavam, e apaixonavam. Pairavam no ar reminiscências de Tom Waits, e no nosso imaginário, o ambiente pedia um charuto e um copo de whisky.

 



 

Mas o apogeu da juventude sobe de seguida a palco, e voltamos para uma realidade muito actual, onde as estrelas de rock podem, e são bons meninos. Apenas com um álbum, King Krule (dois se contarmos com A New Place to Drown como Archy Marshall), conseguiu tornar-se um fenómeno de popularidade entre o público e a crítica, e não havendo propriamente material desde 2013, o interesse e entusiasmo pelo britânico não esmoreceu e encheu o Palco Vodafone de gente hipnotizada pelo projecto. “Lizard State” foi aclamada em clímax por ser a música mais reconhecida entre o público português, mas se do momento alto do concerto se tratou, ao maravilhoso riff de saxofone lhe deveu. A alguns dias de completar 23 anos, é de admirar um jovem que consegue colocar uma multidão a reconhecer as suas músicas pelos primeiros acordes, e conduzir todo um concerto sem nunca perder da mão quem o assiste. No final, só podemos desejar o seu regresso, e que este aconteça num intervalo de tempo bem menor.

Os bons meninos deram lugar aos rufias, e os norte-americanos Ho99o9 começaram a dar aquele que seria um dos melhores concertos desta edição. Não foi preciso muito tempo para as comparações com os Death Grips começarem a surgir, mas estes trocam o experimentalismo digital hardcore, por uma veia punk bem mais pura e crua. E não se ficam neste registo apenas a nível sonoro: a alma, e reivindicação de The OGM e Eaddy cospe raiva, apontando o dedo, todos os dedos, às desigualdades económicas e aos problemas raciais, a uma América que apelidam de United States of Horror, o seu último álbum. Se os encontrões, e moches aconteciam na parte de baixo do palco, de cima choviam MC’s que atiravam-se para cima dos festivaleiros sem pedir autorização. Não fosse “Bone Collector” e não nos lembraríamos que assistimos a um concerto cuja sua base é o hip hop.

 



 

Finalmente a energia encontrava realidades onde se podia expor, e neste caso, numa fermentação que esperou praticamente vinte anos para explodir. Os At The Drive In chegaram atrasados a Coura, com um álbum novo a meio gás. Uns anos atrás, por volta de finais de 90, e o Festival teria vindo abaixo. Não obstante, e olhando para o ar algo Maradona inchado de Cedric Bixler-Zavana, a pujança alternativa da banda apanhou-nos numa onda de êxtase que não estávamos de todo a contar. O público podia-se dividir em dois: os que foram propositadamente a Norte de Portugal para ver a mítica banda de post-hardcore e os que nunca dela ouviram falar. No entanto, todos vibraram com os riffs esquizofrénicos da banda de El Paso e rapidamente se respirava mais pó do que ar. O concerto alternou entre o mítico Relationship of Command de 2000, e o mais recente in•ter a•li•a. Se a este, a crítica acusava, legitimamente, por demonstrar que a banda tinha parado no tempo, em palco, soube muito bem a consistência sonora entre os dois álbuns. Assim, para o fim ficou o melhor dos dois álbuns: “Governed by Contagions” e a poderosíssima “One Armed Scissor”, e os seguranças que estavam no fosso finalmente puderam descansar de um constante apanhar de festivaleiros.

Seguiu-se então Nick Murphy, o clone electrónico de Chet Faker. Não nos entendam mal, mas após o crescendo energético que estávamos a viver, tal subida a palco foi uma espécie de turn down entre os festivaleiros. O clima acalmou abruptamente, mas felizmente o concerto deste novo projecto do músico australiano, conseguiu recuperar rapidamente a sensação de satisfação que se vivia. Gerou-se uma aura de intimismo, como se cada um estivesse no seu próprio mundo a ouvir a sua própria música. Esse individualismo colectivo quebrara-se em dois momentos: “Talk is Cheap”, que trouxe toda a sensualidade do saxofone e pôs toda a gente a cantar o seu refrão, e “Stop Me (Stop You)”, que fez acender todos os dispositivos luminosos para balançar em conjunto com a estrela que brilhava em palco. Esta, apesar de tentar manter a sua postura séria, quando se virava para a banda não conseguia esconder a emoção de tão gigantesca plateia a celebrá-lo.

Para iniciar o after, a tarefa foi entregue muito ingratamente aos sul-coreanos Jambinai. O seu post-rock, em mistura com o tradicionalismo coreano, enquanto convertia e surpreendia quem os assistia mais nas filas da frente, fazia desertar os que estavam mais afastados do palco, que perdiam assim uma das bandas oferta (nomes que Paredes de Coura gosta de nos brindar para nosso enriquecimento) desta vigésima quinta edição, o que resultou no abandono do recinto. Seguiu-se Marvin & Guy, electro-disco do melhor para acabar a noite, mas já não conseguiram trazer de volta o ambiente de animação que umas horas antes era imperador no recinto. Assim, havia imenso espaço para dançar, mas falhava a massa humana com quem o fazer.

No final do segundo dia comentava-se entre alguns elementos da imprensa que bons concertos estavam a acontecer, mas nada que estivesse a fazer jus à data que se celebrava. O terceiro dia começaria a mudar isso.

 



 

Sexta-feira, mais um dia de temperaturas elevadas, e novas amizades a formarem-se. Às margens do rio, cantava-se e ouviam-se músicas de todos os tipos, e bebia-se tudo o que causasse alguma sensação de frescura, ou bem estar. Do palco jazz vinham as palavras de Bob Dylan, traduzidas para português, declamadas, a comprovar o porquê de um Nobel. Desejava-se uma tarde assim eterna, e se o Festival começa a receber pessoas que só o procuram pelo ambiente, tardes como aquela faziam-nos compreender o porquê.

 



 

No entanto, no recinto, os escoceses Young Fathers faziam acontecer outra festa. O seu misto de hip-hop, electrónica e soul, aliados a uma intensidade fantástica nas suas performances, hipnotizaram em danças e saltos os que assistiam. Normalmente, por volta dos concertos desta hora, o público encontra-se sentado, mas desta vez, era bem superior o número de pessoas que começava cedo a libertar as energias que ainda tinham ao terceiro dia de festival. No videoclip da sua colaboração com os Massive Attack em “Voodoo in My Blood”, assistimos a uns movimentos de possessão incríveis por parte de Rosamund Pike, naquele concerto, vimo-lo por parte de toda a gente, em palco e na plateia.

O mood estava lançado e a antecipação de BADBADNOTGOOD pela primeira vez em Portugal mantinha-o. Muitos foram ao engano, na expectativa de encontrar as colaborações orelhudas do álbum IV de 2016, mas a banda canadense não enveredou por esse caminho  e por sua vez apresentou-se despida de adereços ou companhia e interpretaram as suas raízes futuristas musicais. Jazz avant garde hancokiano no anfiteatro natural que é Paredes de Coura pode soar estranho mas a verdade é que resultou perfeitamente e durante uma hora de concerto prenderam o público à sua música. É verdade que a atitude e interpelação que Alex Sowinski fazia atrás da sua bateria ajudavam, e momentos como aquele em que nos pede para todos nos aninharmos e saltar a seu comando, entraram directamente para a história do festival. Naquele palco tornaram-se autênticas estrelas de rock e no final não conseguiram conter o entusiasmo e soltaram um sentido “Holy Shit!”. O baterista atira-se para as grades e abraça-se ao seu público, o resto da banda, em cima do palco, acenava. Minutos passavam-se e já a equipa técnica montava o palco para os Japandroids e os BADBADNOTGOOD mantinham-se por lá, a dar e a receber amor.

 





 

De repente, passamos de um universo puro e cheio de texturas, para um loop de rock despido. É de assumir que em concertos assim o pó se iria levantar e a festa iria continuar, no entanto, se tal aconteceu nos lugares frontais, onde a festa nunca pára, cá por trás as pessoas começaram a sentar-se e a conversar - esperavam os cabeça de cartaz - tendo apenas os Japandroids como música de fundo. A banda do Canadá deu tudo de si, em temas como “Fire’s Highway” ou “Wet Hair”, e partilhavam o suor com as primeiras filas que se atiravam sem hesitação para cima dos seguranças, mas mesmo evocando a sua ligação com a cidade Invicta, não conseguiram prender toda a plateia e ficaram longe de entrar nos quadros da memória do festival.

Pelo contrário ficaram os Beach House, mas estes pelo desfraldar de expectativas geradas. Um grupo alargado de jovens cantava como uma claque sobre a grande seca que estavam a apanhar - os americanos atrasaram mais de trinta minutos. No entanto esperaram até o concerto começar, mas meia hora depois tinham ido embora. Quando Victoria e companhia subiram a palco, pediram desculpa pelo atraso, evocando problemas técnicos. A realidade é que estes fizeram-se sentir, principalmente quando a vocalista puxava pelo poderio encantador da sua voz e este saía completamente ao lado, e se tornava estranhamente difícil de tolerar. O espectáculo cénico seguiu a fórmula Beach House: entre nevoeiro e escuridão, os jogos de luzes pensados ao detalhe, acompanhavam as teclas e guitarras de som mágico que sempre nos habituaram. Misturavam-se e enquadravam-se perfeitamente com a vegetação verde por detrás do palco, e com as luzes em movimento que avistamos nelas (possivelmente campistas a voltar para as suas tendas, desistentes do tédio que se vivia no palco principal). O público tinha esmorecido com a espera, já se encontrava cansado de três dias de festival e a atitude tímida e resguardada que se passava no palco quase fazia esquecer que havia sido um dia com um concerto maravilhoso como o dos BADBADNOTGOOD. As interpretações foram competentes, mas obras primas como “Elegy to The Void” não foram escolhas acertadas para despertar o pirlimpimpim de cada um.

Depois de tanta escuridão, fez-se alguma luz, pois envergando fatos brancos, Roosevelt, conseguiram colocar os resistentes a dançar com a catchiness do seu electopop em músicas como “Colours” ou “Montreal”. No acampamento um outro after acontecia, junto à pequena ponte de cimento, e por lá abanava-se bem mais o corpo do que estava a acontecer em Red Axes. Havia alguma tristeza no ar, o último dia aproximava-se, e dita a mitologia Courense que esse dia é sempre algo a meio gás. O festival fazia anos e este não estava a conseguir ter concertos à sua altura.

 



 

Ao último dia ainda nos encontrávamos a meio gás, de forma a que se cumprisse um verdadeiro Vodafone Paredes de Coura. Apesar de concertos competentes ainda nenhum tinha conseguido entrar para a história do festival. As secret sessions foram mobilizadas para o campismo ou para o centro da vila e eram abertas a todos, o que retirava aquele prazer de ver recompensado a dedicação de esperar junto à ponte para garantir o seu lugar e descobrir um sítio novo e maravilhoso no Concelho. Junto ao rio, nada de extraordinário acontecia, como ter toda uma margem humana a cantar Ornatos Violeta, ou um baile espontâneo ao som de MPB. A própria chuva, que tantos dissabores traz, até ela, recusara-se a aparecer neste aniversário. Felizmente, no dia 19 de Agosto, a festa ganhou um novo impulso, e possivelmente tornou-se um dos melhores dias de sempre na história do festival.

Ainda no rio, a parceria com a TVI trouxe às margens do Taboão a gravação de um episódio do Governo Sombra. Foram centenas os que se sentaram frente ao palco jazz para escutar e rir  com o jocar social de Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Carlos Vaz Marques. Debaixo de um sol abrasador, falou-se do país e do mundo, das autárquicas, e até se desejou que a cantora Ágata fizesse parte do cartaz do festival. Ficou a dica para a organização.

 



 

Já no recinto, era outro português que dava que falar. No palco Vodafone, Manel Cruz era recebido enquanto o Deus da música portuguesa que é. Se o dia se iria tornar insuportável a nível de massa humana, nesta altura já o poderíamos adivinhar. Perante um público já composto, o ex-Ornatos percorreu um punhado de novas canções, sem esquecer de re-visitar com os Extensão de Serviço, o colectivo de músicos que o acompanha, os tempos de Foge Foge Bandido através do sucesso underground “Borboleta”. A partir daí, foi sempre a crescer.

 



 

Os Foxygen subiram a palco, e a excentricidade de Sam France não passou despercebida: Vestido de branco, movimentos andrógenos e exagerados e conversa de galã, logo no início seduziram o público, e com todos os seus integrantes manteve namoro durante aquela hora. Nove elementos de cordas, percussão, metais e até uma corista que faz lembrar um pouco as catitas Cindy Laroca ou Vicky Marota que tantas alegrias nos dão com os Irmãos Catita. Despacharam logo a nostalgia tocando algumas músicas de We are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, e atiraram-se logo à alegria, com  o seu brilhante álbum de 2017 Hang. Cria-se um ambiente burlesco no recinto, todos dançam, todos se sentem provocados e cativados, e de “Avalon” à “América” assistiu-se a um concerto memorável, um dos melhores desta edição.

No entanto, o que se seguiu, abafou por completo tudo o que se havia passado naquele dia, naquela edição. A ovação aconteceu logo na entrada: Benjamin Clementine e seus músicos entravam envergando macacões: uns azuis, outros brancos. Os azuis identificavam os instrumentalistas, os brancos as vozes. A do Londrino obviamente era azul e branca. Sentado num banco de bar, ao piano, Benjamin fez magia acontecer e colocou a edição de 2017 na história. Talvez seja a nossa alma melancólica e nostálgica que nos fez ficar tão rapidamente enfeitiçados na tragédia da sua música, mas o que é certo é que após “By the Ports of Europe”, do seu próximo álbum I tell a Fly, o público já não lhe poupava as palmas e ele não conseguia esconder um sorriso tão grande ou maior quanto ele próprio. Quando chegou a vez de “Condolence”, ninguém estava em já si. É então que ele manda apagar as luzes do palco e todas as luzes que tivéssemos connosco. Assim o fizemos - ficou de fora a luz que a nossa aura emanava com tal concerto - e numa comunhão absurda, todos nós cantamos as nossas condolências, num loop que apontava à exigência da perfeição, a todos aqueles que as quisessem receber. Quando chegou ao fim, com “Adios”, já nada conseguia controlar a exaltação do público: a ovação foi eterna, e tivesse este descido às grades para receber o carinho de quem o assistira, nunca mais abandonaria o recinto. Nos últimos anos de Paredes de Coura, Charles Bradley abria o pódio de concertões do festival em 2015. No ano seguinte, juntaram-se a ele, os LCD Soundsystem, e este ano, foi Benjamin Clementine a entrar neste pedestal onde todos estão em primeiro lugar.

 



 

De coração cheio foi com alguma pena o que vimos a acontecer de seguida com Ty Segall. Não sejamos mal interpretados, foi um bom concerto, mas não fora incrível. Merecedor do Palco Vodafone, em 2015 vimo-lo com os Fuzz arrebentar com o público durante o sound check que fizera mesmo antes do concerto propriamente dito. Aqui, vimo-lo tentar também, mas com fracos resultados e pouco entusiasmo. Já no concerto em si, o pessoal só queria gastar os últimos cartuchos de energia e desatou no desenfreado saltitar com empurrões, cobrindo tudo e todos de pó. Isso claramente afectou a prestação de Segall e companhia que com dificuldades em respirar não conseguiu dar tudo de si. Não obstante, na sua descontração, fez acontecer bom rock & roll e manteve o espírito dos festivaleiros animado. Cá entre nós, foi dos concertos mais fracos que o americano deu em Portugal, mas muitos hão de invejar o pior de Ty Segall.

Para finalizar em grande, ficaram as super-estrelas do Indie, os Foals, e pela primeira vez em muito tempo, o festival não esmoreceu ao último concerto - nunca esquecer a desgraça que fora CHVRCHES no ano anterior. O recinto estava a arrebentar, os bilhetes estavam esgotados e pouco espaço havia para se movimentar. As zonas de restauração encontravam-se desertas e Yannis e companhia à frente de um ambicioso jogo de luzes, iriam navegar entre um mar infinito de pessoas. Sucessos como “My Number” e “Spanish Sahara” levaram ao delírio quem os assistia, levando a que um fã mais ousado tivesse assaltado de repente o palco. Essa excitação levava ao delírio o vocalista, que desceu por várias vezes ao fosso para viver na agitação que acontecia na primeira fila. A festa fazia-se a jeito de rock electrónico, e após “Inhaler”, ainda houve direito a encore com “What Went Down” e “Two Steps, Twice” deixando todo o recinto na segunda ovação gigantesca da noite.

Termina o concerto, dispara “All my Friends” dos LCD Soundsystem. A organização guardara um pequeno presente para o final. Entre disparos de confetis um pouco por todo o recinto, bolas insufláveis a descer a ribanceira de multidão, e fotografias da história do festival a passarem nos ecrãs do palco principal, todos nós tivemos oportunidade de celebrar este Vodafone Paredes de Coura, que é também ele um fomentador de boas amizades. Por isso, e por toda a boa música, só pode ficar o nosso obrigado.

No entanto, ainda tínhamos energia para gastar e fomos partilhá-la com todos os que dançavam com as batidas quentes dos Throes + The Shine. Vimos as danças mais loucas acontecerem e a alegria extrema de estas estarem a ser feitas ali, rodeado por aquelas pessoas. Para finalizar, quase como uma mascote do festival, Nuno Lopes preparou um DJ Set que passeava na própria biblioteca musical do festival, transformando bandas como os Tame Impala em hinos dance. É então que toca “Happy Birthday” de Stevie Wonder, disparam-se novamente confetis, e vem-nos a frase que fora projectada nos ecrãs do palco principal: “Para sempre!” Desejamos que a festa não termine e enquanto voltamos com os outros campistas para as tendas, damos por nós a desejar que o próximo ano seja já amanhã.

 

por
em Reportagens
fotografia Hugo Adelino

Vodafone Paredes de Coura 2017 [16-19Ago] Texto + Fotogalerias
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