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Vodafone Paredes de Coura 2015 [20Ago] Texto + fotos + vídeo

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Chegado o segundo dia do festival, muitos estavam ainda de ressaca após o enorme concerto dos ingleses Slowdive no dia anterior quando se tinham rapidamente de preparar para aquele que era, porventura, o nome mais aguardado do festival. Diretamente da Austrália, vinham os Tame Impala de Kevin Parker, atuar numa quinta-feira de Paredes de Coura que ameaçava ultrapassar a lotação oficial de 25 mil entradas. Também Father John Misty e Legendary Tigerman encabeçavam um dia que teria ainda no palco secundário os Iceage, uma das grandes promessas do pós-punk atual.

Horas antes da entrada do grande nome do dia, era no Vodafone.FM que acontecia um dos melhores concertos do festival. Não há memória de o recinto do palco secundário estar tão preenchido por aquela hora, como quando os Pond se apresentaram este ano. Preenchido por serem um nome facilmente associado aos Tame Impala (não partilhassem membros entre si), ou talvez por repetentes do fantástico concerto no Primavera, a verdade é que mereceram cada uma das pessoas que lá estiveram presentes.

Com álbum lançado este ano (o verdadeiro álbum psicadélico de 2015), foram músicas como “Elvis Flaming Star” ou a faixa título “Man, It Feels like Space Again” que demonstraram o porquê de serem uma das bandas mais capazes e cativantes desta geração. Apesar de não o pedirem (nem explicitamente, nem musicalmente), foram agraciados com um crowd surfing, que vamos admitir ser a forma que o público desta edição encontrou para demonstrar o quão gostaram do concerto, por sinal neste caso, bastante, assim como nós.

Pela quarta vez em Portugal nos últimos cinco anos, a primeira vinda dos grandes porta-estandarte do rock psicadélico atual a Paredes de Coura ficava marcada por ser a primeira no nosso país após o lançamento de Currents. O aclamado disco lançado este ano deixou bem explícita uma mudança no som dos Tame Impala, dando um papel bem mais secundário às guitarras, e um muito maior aos sintetizadores. O som quase a piscar o olho à disco e ao R&B, muito mais direcionado para as pistas de dança, e sem a mesma verve psicadélica demonstrada até Lonerism, agradou a muitos mas também deixou outros bem desiludidos.

O mesmo se pode dizer do concerto. A fechar o dia, já bem perto da uma da manhã, e com um palco principal a rebentar pelas costuras, o ambiente era perfeito para um grande concerto. Sentia-se. Mas cerca de uma hora e meia depois, muitos eram os extremamente desapontados com a atuação de Kevin Parker e companhia, e poucos eram os que ficavam totalmente convencidos.

O som declaradamente mais groovy mas também mais lento de Currents, e aquele pelo qual todo o concerto se dirigia, levou a que também as (poucas) canções dos primeiros dois discos da banda, mais guitar-driven, fossem adaptadas a esse estilo mais dançável e, consequentemente, menos rock e menos poderoso, explosivo.

As faixas contempladas na setlist retiradas de Innerspeaker, aquele que é, na nossa opinião, o melhor trabalho dos Tame Impala lançado até ao momento, foram apenas três. E nem assim malhões como “Alter Ego” ou “It Is Not Meant To Be” estiveram ao nível que apresentam na gravação original de estúdio: claramente mais lentas, e com o novo baterista Julien Barbagallo a “parar” constantemente o ritmo dos riffs. As expectativas saíram muito defraudadas para os maiores fãs dos primeiros discos da banda.

Nem mesmo “Elephant”, um dos maiores e verdadeiros hits dos australianos, explodiu da maneira que se lhe era pedido. Em todas as canções, ficava o sentimento de algo na interpretação da banda estar incompleto. Só mais perto do final, e mesmo estando instrumentalmente incompleta, “Apocalypse Dreams” acabou por ser o melhor momento de um concerto que ainda teve direito a um curto encore com uma das faixas mais ambiente de Lonerism,” Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control”. Como pensamento final, resta-nos dizer que sentimos saudades, muitas saudades, do mágico concerto ao fim de tarde, em 2011.

Talvez quem, como nós, se desiludiu com o concerto dos Tame Impala, deva esse desapontamento às atuações absolutamente imaculadas de Josh Tillman e de The Ledendary Tigerman, algumas horas antes, que ofuscaram por completo qualquer concerto que lhe seguisse. Tillman, agora songwriter sob o alter ego de Father John Misty, veio a Paredes de Coura afirmar com toda a convicção: Tillman já não é apenas o ex-membro dos Fleet Foxes. Tem um nome próprio agora. E é já uma das mais notáveis personas musicais do ano.

Com uma energia impressionante e criando uma perfeita simbiose com o público, a voz poderosa e a enorme presença em palco de Josh Tillman levaram à apoteose os muitos que naquele início de noite se juntavam ao palco Vodafone para ver um dos primeiros grandes concerto do festival Vodafone Paredes de Coura 2015.

Alternando power ballads como “I Love You, Honeybear” com rockalhadas como “The Ideal Husband”, hinos indie rock como “Holywood Forever Cemetery Sings” ou ainda baladas ao piano como “Bored In The U.S.A”, sempre com um sentido de humor desarmante e apurada ironia cómica, Father John Misty conquistou os nossos corações sem grande dificuldade.

Entre idas até às grades do público e comentários incisivos e certeiros, um concerto instrumental e teatralmente perfeito. Father John Misty em Paredes de Coura selou um dos melhores concertos de 2015.

Ainda não tinha subido ao palco e alguém ao nosso lado já gritava: “Dá-lhe tudo Paulo”. E Paulo deu! Legendary Tigerman chegou ao palco acompanhado por uma banda, e com ela, mais concretamente com João Cabrita, partilhou o protagonismo. Num concerto em que passou em revista a sua discografia, disparou toda a sua energia para a guitarra que entrou em batalha aberta com o saxofone, à boa maneira da mítica “The Dogs of War” dos Pink Floyd. E o público vibrava e delirava como nunca o tinha feito até à data nesta edição do Paredes. Tivemos de esperar por Charles Bradley para esquecer a explosão de energia que foi este concerto.

Claramente atordoado, mas também alimentado pelo público, Paulo Furtado contorcia-se ao som da sua música e era através de malhas como “Naked Blues” e “These Boots Are Made For Walking” (aqui com a voz de Medeiros substituída por um coro espontâneo em uníssimo) que ele agradecia a todos os que assistiam. Para o fim ficou “21st Century Rock’n’Roll”, que levou a um dos momentos mais marcantes desta edição: Atirando-se para o público e juntamente com os que logo o rodearam fez entoar com todas as suas forças “ROCK ‘N’ ROLL”! Contagiante, todo o recinto se rendeu em oração ao género, e com Furtado já no altar e sem microfone (que ficara apreendido por um devoto frenético), cá em baixo ainda resistíamos todos a gritar o “Ámen” desta religião ao maior Messias do panorama nacional.

O palco Vodafone FM, no primeiro dia em que era chamado à ação, recebia os Iceage, uns sombrios dinamarqueses que se aventuraram a deixar o punk para trás e a dedicarem-se a um ainda mais dark pós-punk, de ritmos intrincados e guitarradas violentas e dissonantes.

Sob luzes brancas apenas, a contrastarem com o negro da noite que já se levantava e com a tenda do palco secundário, a banda liderada por Elias Ronnenfelt protagonizou um dos concertos da noite. O ambiente noir do som e imagética da banda dinamarquesa foi transportado de forma extremamente convincente do estúdio para o palco.

Alternando canções de ritmo elevadíssimo que nem aos 2 minutos chegavam, por vezes, com composições mais lentas e assumidamente pós-punk saídas do mais recente Plowing Into The Field Of Love, qualquer um dos estilos servia para comprovar o talento deste jovem grupo nórdico. “Ecstasy”, “Forever” e “The Lord’s Favorite” assumiam-se como momentos altos de um concerto ao qual não há nada a apontar.

Naquele que foi o último concerto ainda com luz natural de fim de tarde, Steve Gunn subiu ao palco Vodafone, depois de tarde ter estado, num outro registo, nas já muito procuradas Vodafone Music Sessions. Dando maior destaque à sua guitarra elétrica, em detrimento da acústica, o singer-songwriter natural de Brooklyn (mais um) atuou de forma competente perante uma plateia visivelmente pouco interessada na sua Americana.

Nem mesmo o virtuosismo de Gunn enquanto guitarrista ou uma ou outra balada country de beleza desarmante conseguiram cativar um público que maioritariamente se interessava pelo rock psicadélico que dominava o dia, com os Pond a atuarem imediatamente antes do norte-americano e com os Tame Impala, grande cabeças-de-cartaz do dia 20 de Agosto. Em suma, um bom e bonito concerto de Steve Gunn, mas que talvez tenha sofrido por ter atuado num palco tão grande e com público tão disperso.

 

Vídeo resumo

 

 

Outras galerias

 

Texto: Luis Sobrado e João Rocha
Fotografia: Bruno Pereira e Hugo Adelino
Vídeo: Mariana Vasconcelos
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Por Wav / 27 Agosto, 2015

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