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Vodafone Paredes de Coura 2018 [15-18Ago] Texto + Fotogalerias

04 de Setembro, 2018 ReportagensJoão Rocha

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ZigurFest 2018 [29Ago-1Set] Texto + Fotos

Crónicas do Sonic Blast Moledo 2018
Ambiente no rio - Parte 1

Ambiente no rio - Parte 2

O Sol quente exigia um refresco para o corpo e para a alma. Assim, e à nossa chegada à terra do rock, a primeira paragem fazia-se obrigatoriamente na esplanada da mítica Tasca do Loureiro para começar a beber as primeiras cervejas, e petiscar uns valentes panados e umas deliciosas pataniscas. Meia hora depois, e ainda na esplanada, já nos parecia nunca termos saído de Paredes de Coura, dada a envolvência entre a localidade, as suas gentes, e o festival. São também estes pequenos redutos da identidade courense que construem a mística que tão bem conhecemos. Confesso que custou abandonar aquela cadeira de plástico para ir pousar as tralhas à tenda e rumar para o recinto, tal era já a altura da torre de copos de plástico construída entre todos, mas lá o conseguimos fazer.

Atravessada a ponte, começava a primeira subida da, também ela mítica, rampa que liga o campismo ao recinto. Coura acontecia em cada pequeno passo da nossa jornada, e ainda nada se tinha passado e já estávamos de coração cheio. Já dentro do recinto, o pessoal aquecia a sua loucura ao som dos Linda Martini, preparando-se para o nome mais apetecível daquele dia: os King Gizzard & The Lizard Wizard! Ainda tínhamos em mente o concertão que deram naquele mesmo palco em 2016, e depois da mão cheia de álbuns que editaram no ano passado, as expectativas estavam em alta. Pois bem, rapidamente elas vieram por água abaixo. Começando em “Digital Black” e terminando em “People-Vultures”, a banda australiana não demonstrou qualquer tipo de empatia (ou qualquer outro tipo de emoção) em cima do palco. Foram exímios na potência da sua sonoridade, mas terríveis performers. No entanto, o público que já se encontrava formatado para partir tudo, atirava-se de forma sistemática uns por cima dos outros e faziam-se moshes atrás de moshes só porque sim. Ficamos com a impressão de que tanto a banda não estava a reparar no que acontecia abaixo do palco, como o público não reparava no que acontecia em cima dele, e que se tivessem posto a tocar um qualquer álbum deles, o efeito teria sido exatamente o mesmo, tal era a vontade de expelir testosterona.

Linda Martini e King Gizzard and The Lizard Wizard
Quem também poderia ter posto um CD a tocar sem subir ao palco, foram os The Blaze. A dupla eletrónica levou um parco jogo de luzes, e sejamos sinceros, uma parca carreira consigo para Coura. Verdade seja dita, ainda não conseguimos perceber o seu estatuto de cabeça de cartaz. Os primos Guillaume e Jonathan são conhecidos pela fusão cirúrgica entre a música de dança e a visão cinematográfica, mas o que aconteceu em palco ficou muito longe de fazer jus à sua fama. Não obstante, dançou-se e pulou-se, assim como se dança e pula numa qualquer noitada num qualquer estabelecimento noturno.

Fechava o palco principal e já prevíamos um ano pouco memorável, pelo menos no que a nível de concertos tocava. Subimos então para o Palco Vodafone FM para assistir ao recente fenómeno nacional que é Conan Osíris. Claramente uma personagem que leva muito a sério o facto de não se levar a sério, acompanhado pelo seu habitual bailarino, levou ao delírio muitos e causou estranheza a uns tantos outros. O seu trap cigano tem tanto de viciante como que de desconcertante, e é difícil para o ouvinte encontrar um meio termo entre o amar ou o odiar. O que já ninguém discute são as suas habilidades cicerónicas e de cativação de um público. Ao primeiro dia (o mais vazio dos quatro), a tenda foi pequena para receber a euforia dançante provocava por novos hinos nacionais como é o caso de “Borrego” ou de “Titanique”. A festa estava feita, mas ainda havia muitas horas para matar e energia para gastar. Coube ao já DJ residente do Vodafone Paredes de Coura, Nuno Lopes, a tarefa de fechar o primeiro dia, antes de todos voltarem para as suas tendas, e montarem as suas próprias after-hours privadas.

The Blaze e Conan Osiris


Acordei inexplicavelmente cedo na manhã de quinta-feira. A noite tinha sido bastante longa, e as horas de sono curtas. Lá nos arrastamos pelo campismo abaixo até um chuveiro para tomar um típico duche de água fria, daqueles mesmo bons para despertar. Banho tomado, e como praticamente todo o grupo ainda dormia, subi até à vila para tomar o pequeno almoço e dar uma voltita. Já haviam alguns festivaleiros por lá, mas muito longe da azafama dos outros dias. Depois de um essencial café, e alguma leitura sossegada, descemos até à beira rio, onde já se encontravam alguns dos nossos amigos. Coluna ligada, protetor solar, e estávamos prontos para entrar em estado zen e repor algum do descanso que não tivemos de manhã, prática cometida por tantos outros. A magia de Coura reside também no espectro de dualidade simultânea dos seus hábitos: em mais lado algum seria possível relaxar com gente a subir a árvores e a atirar-se ao rio, e outras tantas brincadeiras barulhentas.

Subimos para o recinto, já os britânicos Shame tinham dominado o público do Vodafone Paredes de Coura. Ou será melhor dizer atiçado o público? Charlie Steen, o vocalista da banda andava cá por baixo junto às grades, junto de garotos da sua idade que saltavam e pulavam ao som do punk cinzentão da banda. Poucas vezes o vimos em cima do palco, tal era o à vontade dele entre aqueles que entretinha. Não obstante da atitude agressiva, o lema era diversão e respeito, e entre moshes e crowd surfing, a banda chamava para junto de si todos aqueles que por aquela hora andavam no recinto. Foi assim, num concerto bem enérgico que os Shame tocaram o seu álbum de estreia Songs of Praise e apresentaram algumas músicas novas (prenúncio de um novo trabalho), abandonando o palco com um público delirante e rendido à sua força.

Shame, Fugly e X-Wife
Umas horas mais tarde, era a vez de Paulo Furtado e companhia voltarem a armar o caralhão (os mais sensíveis desculpar-me-ão a expressão, mas é a única possível para descrever o acontecimento) em cima do palco principal do Vodafone Paredes de Coura. Já uns anos antes The Legendary Tigerman se mostrava merecedor de horário nobre em cima do palco principal, e agora abandonando o formato a solo, mostra-se o rei do rock&roll português. Em palco temos Paulo Segadães na bateria, Filipe Rocha no baixo, e Furtado a quase dividir o estrelato com João Cabrita no saxofone (algo que já havia acontecido em 2015). Rapidamente nos apercebemos de um quinto elemento, um que devia ser bem mais discreto, mas que marcou presença assídua durante todo o concerto. Sem nome, o técnico de som (que brincávamos durante a performance, apenas aguardava o seu despedimento) foi figura assídua em cima de palco, ora a calibrar a guitarra, ora a apertar um microfone que teimava ter vida própria. Visivelmente, e compreensivelmente irritado, The Legendary Tigerman mandava tudo ir à merda, antes, durante e depois de dedilhar a sua guitarra com o mais puro rock de Misfit, o seu mais recente trabalho que apresentou praticamente na íntegra. Noutras vezes só delirava, de forma contagiosa, frente a frente com Cabrita numa espécie de jam maravilhosamente agressiva entre cordas e sopros, e cá por baixo deixava-se o suor escorrer de euforia. No final, e possuído, atira-se para o meio do público, não sem antes ter atirado também a guitarra para lá, fazendo de um qualquer indivíduo alguém extremamente feliz. Feliz, mas apenas por 5 minutos, porque mal subiu de volta ao palco pediu a guitarra de volta. Antes disso inquiria as linhas da frente se curtiam rock&roll, e estas deliravam a berrar que sim, provando que o género continua a ser rei em Coura.

The Legendary Tigerman, The Mystery Lights, Japanese Breakfast e Surma
Depois de tanta explosão soube bem o relaxamento provocado pelo folk agridoce dos Fleet Foxes. A qualidade do som que ecoava pelo recinto continuava meio manhoso, mas o ambiente simples e sem artifício dos americanos, alinhados ao tom relaxado de Robin Pecknold, concretizou-se num concerto onde não se fez grande caso do percalço. Umas horas antes, um bem maior quase impedia totalmente a realização do mesmo. Antes de embarcar para Portugal ficara retido no aeroporto, como confessou o vocalista a toda a plateia, que já se encontrava deliciada com a magia sonora da banda. A viagem fez-se maioritariamente ao som de Crack-Up, o mais recente trabalho da banda. Álbum arrebatador, e um dos nossos favoritos, não conseguiu fazer frente, no que toca a delírio, a momentos mais antigos e bem mais aguardados do percurso musical da banda. Primeiro foi “White Winter Hymnal” a exigir ovação coletiva e canto em uníssimo. Seguiu-se “Your Protector” do mesmo álbum, para um pouco mais tarde tudo convergir em “Mykonos”. A noite poderia ter terminado ali, e sairíamos de coração cheio, principalmente comparando com a noite anterior. O dia estava aleatório, mas Coura estava a realizar-se em absoluto.

Mas a noite não tinha acabado, oh se não tinha. Em 2014 os Jungle explodiram um pouco pelas pistas de dança alternativas de todo o mundo. Apesar de algum furor, ficaram longe de marcar o panorama musical, e a sua confirmação para Paredes de Coura – apesar de terem novo álbum quase a sair – pareceu-nos de alguma forma desadequada por não cumprir parâmetros de tempestividade. Mas ora bolas, ora bolas se marcaram aquela noite e esta edição do festival. Primeiramente temos de vos contextualizar que o projeto é um duo de música eletrónica (apesar das claras, deliciosas e quentes influências funk e soul). No entanto, em palco são vários os músicos que se podem contar, isto porque os Jungle se recusam a tocar ao vivo algo pré-gravado, e portanto, tudo o que ouvimos e dançamos naquela noite, estava a acontecer no momento (de uma certa forma veio-nos à memória o Concerto dos LCD Soundystem em 2016). E o que aconteceu? Ora bem, tivemos direito a ouvir praticamente todo o álbum de estreia da banda na íntegra, e meia dúzia (na verdade um pouco mais) de músicas novas que integrarão For Ever o álbum a sair em setembro deste ano. Algumas delas, singles já conhecidos, como o caso da maravilhosa “Heavy, California”. Os Jungle podem não estar a fazer furor mediático com os seus últimos singles, mas fizeram-no nesta noite. As vozes carregadas de soul homenageavam Aretha Franklin já por si só, não sendo necessário clarificar a homenagem nem a gratidão durante “Lemonade Lake”. De lá seguiu-se para “Busy Earnin’”, possivelmente a música mais reconhecida pelo público português, que se rendia de música para música aos ingleses, tomando consciência de que assistiram ao melhor concerto do festival até à altura.

Ora com os concertos no palco principal finalizados, grande parte da audiência desertou. Mas quem ficou ainda foi surpreendido com o melhor concerto da noite, o maior momento de euforia da noite e possivelmente de todo o festival. Na nossa antevisão alertávamos para a atenção que deviam dar a este nome, mas nem nós estávamos preparados para o que aconteceu no Palco Vodafone FM. Os Confidence Man, foram uma explosão de energia e de excentricidade que caiu em Paredes de Coura, e quem estava por perto não teve como fugir. Foram sensivelmente quarenta minutos de concerto, três mudas de roupas (de referir o corpete sutiã pontiagudo com neons luminosos a lembrar uma Madonna marciana), e dança. Muita dança! A crítica tem sido unânime a aclamar o álbum dos australianos, e quem assiste a um concerto deles têm sido unânime em caracterizá-lo de pura diversão. Em “Better Sit Down”, uma das primeiras músicas a ser interpretada, já não havia ninguém parado no recinto, já não havia ninguém com os olhos postos fora do palco, sempre na expectativa da próxima acrobacia ou sedução praticada por Janet Planet. Mas é quando “C.O.O.L. Party” começa a tocar, e o seu refrão super catchy se entranha na plateia, que toda a gente começa a dançar de forma sincronizada, prática facilitada devido às semelhanças coreográficas entre a canção e o YMCA dos Village People. E sem darmos conta do tempo passar, o concerto acabou, e berrámos e aclamámos como toda a gente que lá se encontrava. Mas acabou mesmo, e ainda com o sangue a fervilhar de delírio, voltámos para o acampamento, extasiados e cheios de energia que dedicámos ao nosso próprio after hours privado. Pedimos desculpa aos nossos vizinhos por essa noite.

Fleet Foxes e Jungle


Ao terceiro dia acordámos a horas decentes para um fuso-horário festivaleiro. As viagens longas que fazíamos até à tenda compensavam pelo facto de nelas não apanharmos sol durante o dia todo. Como tal, conseguíamos dormir até tarde, ou até de tarde, sem estarmos a desesperar pelo efeito estufa. Descemos para o rio, e naquele dia com mais energia, criámos o verdadeiro arraial lá no meio. Apercebemo-nos que a meta tinha sido conquistada quando toda a gente à nossa volta já estava contagiada e a envolver-se connosco. Ah Coura…! Não há lugar como este.

Mas se por um lado a tarde no rio foi épica, passamos agora a expor uma noite que se fez a meio gás, excetuando a maravilhosa prestação dos Slowdive. Voltemos então atrás, aquando o concerto de Kevin Morby, ainda o sol dourava o recinto do festival. O texano havia criado hype sobre si e o seu concerto em Coura umas semanas antes, quando decidiu postar uma foto sua nas redes sociais, na cidade Invicta, envergando orgulhosamente uma camisola do FCP. Declarava assim o seu amor pelo país, mais concretamente pela cidade do Porto. Embora a dita camisola tenha ficado esquecida em casa, Kevin não esqueceu o seu amor declarado, e voltou a referi-lo para o público de Paredes de Coura. Temos um carinho muito grande por quem vem de fora e gosta de nós, e isso notou-se na receção que lhe demos. Passando por registos mais rock – a quem muito tem de agradecer a energia de Meg Duffy, a sua guitarrista – de “City Music” ao folk americano de “I Have Been to The Mountains”, umas vezes fazia-nos lembrar um Jack White, outras um Bob Dylan, por vezes até um Lou Reed. Foi um concerto fofo, e serviu como um bom aperitivo para o resto da noite que começava a cair.

Kevin Morby e Imarhan
Seguiram-se os DIIV, discípulos diretos do shoegaze dos Slowdive. Longe de figurarem nos cânones do género musical, são responsáveis por um certo revivalismo, e até revitalização, do mesmo, ou pelo menos assim era aquando o lançamento do seu maravilhoso álbum de estreia, Oshin, em 2012. Não se encontram em digressão, mas o sonho de os trazer a Paredes de Coura era antigo, e tal materializou-se este ano. Completamente alterado pelo vício da heroína, Zachary Cole surgiu em palco totalmente desfasado do resto da banda. Aliás, quase soa que estes já não se viam há anos, e de repente caíram ali em palco todos juntos de novo. Ele bem que nos pedia para os fazermos cool de novo, mas logo depois estava a desafinar, ou noutras vezes desafinavam todos, como foi o caso de “Under the Sun”. No entanto, tal facto tinha um je ne sais quoi de cativante – não numa vertente Maria Leal -, e deixou-nos agarrados durante todo o concerto. Talvez fosse o nosso amor pelos dois trabalhos dos DIIV.

Apáticos para com o dia, fomos procurar conforto no estomago através de um bom jantar. Enquanto o fazíamos, ouvíamos os …And You Will Know Us By the Trail of Dead a rasgar o palco Vodafone FM. Ficamos com a sensação de que estávamos a perder um belo concerto, razão pela qual faço aqui esta menção.

DIIV, ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead e Frankie Cosmos
Descemos novamente para a relva, ou para o que ainda restava dela, para nos deliciarmos com os Slowdive. E que bela sobremesa que foi. Ora, os gigantes do shoegaze não editavam nada de novo fazia décadas, quando passaram por Paredes de Coura em 2015. Foi um belo concerto de revivalismo, sem altos nem baixos, constante na magia que proporcionaram à plateia. No entanto, e sem ninguém contar, em 2017 lançaram um álbum homónimo – e que belo álbum – e voltaram a ganhar um merecido interesse no seu sonho pop. Foi esse mesmo sonho que nos vieram dar a viver agora, e foi arrebatador. Tocou-nos a alma, e fez-nos agradecer estarmos ali naquele momento. Slowdive foi o álbum mais tocado da noite, e curiosamente, também o mais agraciado. As gerações mais novas reconheciam, e deliravam – se bem que aqui é um delírio de transe – mais rapidamente com músicas como “Sugar for the Pill” (possivelmente a maior ovação da noite), do que com as músicas que consagraram os ingleses, como era o caso de “When the Sun Hits”. O ambiente pedia olhos fechados, o balanço era provocado pelo poder da distorção das guitarras, a alma lavada pela voz envolvente de Rachel Goswell, e a imaginação vogava conduzida pelas teclas caleidoscópicas dos Slowdive. E era assim, abismados, que ficávamos a contemplar a mestria sónica daqueles Deuses discretos em cima do altar.

O estado de nirvana ficou-nos na memória e no coração, mas vivê-lo, acabou ali. Era a vez do nome maior do grime – ou hip hop britânico – dar o seu ar de graça. Infelizmente, o que nos deu foi uma desgraça! Desde logo, e apesar de ser vencedor de um Mercury Prize – o mesmo prémio que Benjamin Clementine recebera poderia agueirar algo bom -, não conseguimos perceber o estatuto de cabeça de cartaz que lhe foi atribuído. Também, e apesar de respeitarmos e até amarmos a diversidade, não percebemos como é que alguém achou que seria boa ideia colocar este artista após o ambiente criado por Morby, DIIV e Slowdive. Que desfasamento abismal. Ora tudo isto seria desculpável se Skepta tivesse arrombado tudo e todos. Mas o que aconteceu esteve no extremo oposto disso. Ele e um DJ em palco, o DJ Maximum – o nome é prenúncio da palhaçada que se segue –, e escondidos na lateral o resto da entourage que dançava ao som das primeiras músicas. Possivelmente eram os únicos, razão pela qual Skepta pedia ao público mais e mais energia. Ora acontece que o público mais gaiato lá obedeceu e acordando para a vida começaram a saltar ao som dos beats e das rimas lançadas. O entusiasmo a certa altura fez disparar uma lâmpada (o merchandising que a Vodafone distribui pelo festival e que tanto jeito faz) para o palco, e ofendido o artista jurou que se tal acontecesse de novo, acabava o concerto. Ora tal aconteceu de novo, e o artista cumpriu o prometido. Como qualquer criança mimada, foi fazer queixinhas a quem de direito, pedir que o defendessem, e lá veio a organização anunciar à criançada que se continuassem assim, o Skepta ia embora. Ora por esta altura já devia ter ido mesmo. Permitam-me o desabafo, mas não sentem saudades dos tempos em que os hip-hoppers levavam tiros e estavam habituados à vida da rua? Aliás, era isso que lhes dava piada. Mas voltando ao concerto, ou lá o que aquilo foi, Skepta voltou, mas depois daquela atitude já ninguém quis saber dele. Ninguém, excetuando os seus amiguinhos, que volta e meia vinham-se passear para cima do palco, e tiravam fotos para mostrar aos outros amigos, recordações do dia em que foram cabeças de cartaz de um festival. Olhem, nem sei, foi tão mau, mas tão mau, que prefiro parar por aqui na descrição do sucedido. Buuuuuh!

Subimos então para o Vodafone FM, atraídos pela curiosidade que as Pussy Riot suscitavam. Grande parte do público reconhece o nome pelo ativismo radical das jovens russas e não pela sua carreira musical. E ainda bem. Em palco, as Pussy Riot provaram ser medíocres em todas as vertentes: musicais, performativas e reivindicativas. Um manifesto anti-capitalista era declarado debaixo de um sinal gigante da Vodafone. Saltitavam em palco ao som ora de tentativas de rock, ora tentativas de hip hop, ora tentativas de eletrónica, e ninguém percebia muito bem qual era a mensagem política que queriam passar. Tudo aquilo era epilético e demasiado mau, e por isso fomos embora para as nossas tendas, apanhar uma valente bebedeira, colocar e cantar músicas aleatórias. E garantem os nossos vizinhos, fomos bem melhores que grande parte do que havia subido ao palco nesse dia.

Slowdive, Skepta e Pussy Riot


Último dia. Começa a atingir-nos a nostalgia, e também o cansaço dos dias. Seguimos logo diretos para as margens do Taboão, para aproveitar ao máximo os últimos momentos. Alguns dos nossos já por lá andavam, outros juntaram-se mais tarde. Mas ao último dia o nosso grupo tinha crescido significativamente, e muitas caras novas agora eram caras familiares, e outras quantas que apesar de não se estabelecerem no nosso metro quadrado, paravam a conversar e vinham-nos oferecer um copo. O festival poderia quase não ter concertos – por favor, que tenha sempre (concertos a sério, e não de brincar como os do dia anterior) – que o Couraíso já o seria apenas por poder proporcionar estes momentos. João Carvalho não se cansa de enfatizar o facto que que Paredes de Coura, acima de tudo, são pessoas e relações, e não poderia ser mais verdade.

Mas e quanto a concertos? Qual o apanhado que se faz desta edição de 2018? Alguns bons concertos, mas estávamos longe de ter uma edição memorável. Era essa a realidade que se discutia na margem do rio naquele dia. Mas a noite mudou tudo, e o Vodafone Paredes de Coura de 2018 inscreveu-se para sempre nas nossas memórias.

Quando subimos para o recinto, Curtis Harding entrava em palco. Prometia o poderio da Soul, e no entretanto entregou o meio gás do rock. O passado musical do americano iniciou-se no gospel, mas foi no rock que mais tarde ganharia interesse – inclusive chegou a ter uma banda com Cole Alexander dos Black Lips –, e acabaria por investir. Aliás, no seu primeiro trabalho a solo, Soul Power, são notórias as influências do soft rock dos anos 70. No entanto, é na sua voz que reside o interesse, e a óbvia tentação de a moldar à soul. Resulta então um bastante interessante Face Your Fear, o mais recente trabalho do artista. Se em estúdio nos convence da sua alma, ao vivo percebemos que ainda se está a adaptar a ela. Não é o performer que esperávamos encontrar, e a sua voz não nos aquece como pensamos que nos aqueceria. Guardou para o final “Need Your Love” – one hit wonder? -, e até que se dançou e pulou. Quem olha para a dimensão da plateia até julga que Curtis tem um público fiel, mas naquele dia a história era outra.

Curtis Harding, Silva e Big Thief
Já são vários os anos de Coura que levo em cima, e por muito que a organização garanta que não se vendeu mais um bilhete do que o normal, nunca vi Paredes de Coura naquele estado. A afluência tornou insuportável alguém mover-se dentro do recinto, e quem o fazia tinha de levar com olhares reprovadores, isto porque muita da gente que lá estava não é gente habituada às andanças de um festival. Assim, ao fim da tarde, já havia uma valente multidão de pessoas em frente ao palco principal, a guardar lugar para a atração da noite. Se mover era complicado, comer ou levantar dinheiro era praticamente impossível, situação que se foi agravando conforme chegava a hora dos Arcade Fire.

Mas antes de lá chegarmos, há ainda dois momentos a ressalvar, ambos em português. O primeiro, vinha do outro lado do Atlântico, e vinha destinado a conquistar. Subiu no Palco Vodafone FM, tímido e discreto, mas recebido já como um gigante. Silva traz consigo o melhor do Brasil, o encanto, o ritmo, e o degustar das palavras. Lúcio Silva de Souza traz consigo dois novos trabalhos: Brasileiro e Silva Canta Marisa. Se no segundo celebra o MPB, interpretando alguns clássicos de Marisa Monte, no primeiro, faz a sua abordagem mais próxima e pessoal do género. E foi isso mesmo que trouxe para o palco, alinhado a um imenso carinho e gratidão que entregava e recebia de um público imenso – gigante até para o palco em questão -, o melhor do MPB materializava-se naquela figura morena que se vestia de branco. O momento alto aconteceu obviamente em “Fica Tudo Bem”, single do novo álbum, interpretado em dueto com a super-estrela brasileira Anitta. Cantou-se e bateu-se palmas em comunhão. Foi lindo.

O segundo momento em português, ou melhor dizendo, o segundo momento português aconteceu no palco principal: os Dead Combo. Sobre estes, a primeira impressão (que foi rápida a passar), foi de desfralde. Haviam anunciado um concerto com Mark Lanegan – a provável razão pela qual lhes foi dada um horário de destaque -, e como mais tarde iríamos perceber, o que aconteceu foi uma aparição momentânea de Mark Lanegan. Mas a prestação do projeto de Tó Trips e Pedro Gonçalves – que atualmente vai muito para além deles -, foi tão satisfatória que rapidamente esquecemos esse pequeno pormenor. Aqueceram a noite com os seus ritmos américo-latinos, e transformaram momentaneamente o recinto de Coura numa noite em Havana. Por vezes efusivos e alucinantes, como em “Rodada”, outras vezes relaxados e viscerais como em “Lusitânia Playboys”, dominaram o público Courense na perfeição. Quando Lanegan subiu ao palco para interpretar três canções, somos sinceros, já não queríamos saber dele para nada. Cantou, e foi-se embora. Ok, obrigado. Siga a festa! Quando os Dead Combo terminaram, foram aclamados e acarinhados por todos nós, e Alexandre Frazão – na bateria – a ser agraciado com uma prenda inesquecível no seu quinquagésimo aniversário.

Dead Combo e Yasmine Hamdan
Mas a noite, o festival, e todo o amor estava destinado aos Arcade Fire. Se durante todo o dia o ato de locomoção era tarefa árdua, durante este período de tempo tornou-se impossível. A movimentação de dar um espirro provocaria encontrões em cadeia, que se sentiriam um pouco por todo o recinto. Já nos encontrávamos lá na frente, portanto não nos foi difícil conquistarmos o nosso bom lugar. Excetuando o facto de estarmos rodeados pela massa popular mais estranha de sempre, à nossa frente – o que nos levava a mantermo-nos hirtos durante todo o concerto para não serem esborralhadas – encontrava-se um grupo de 10 crianças a rondar os 9 anos. Eram irritantes, e uma mera conversa com elas gerou logo uma série de abusos como só as crianças sabem criar. Foi então que percebemos que não estavam acompanhadas, e ainda pensamos chamar os Serviços Sociais, mas vá, estavam ali para ver um concerto dos Arcade Fire. Há que respeitar. No entanto, esperamos que a esta altura já alguém tenha ido lá reclamar as crianças. Do nosso lado direito estava um grupo de adolescentes que tinham vindo meramente passar férias. Nem conheciam a banda, e a meio do concerto desertaram. Agradecemos, ficamos mais perto do palco. E do nosso lado esquerdo um grupo valente de adultos apaixonados por Arcade Fire, que tinham vivido o mítico concerto da banda em 2005 em Coura. Quando os canadienses subiram ao palco – e que palco: uma bola de espelhos gigante, um jogo de luzes eurovisivo, e um ecrã triangular suspenso -, a rendição foi imediata, e nem precisavam de ter tocado para conquistar o público de Coura. Tal impacto carinhoso foi imediatamente visível em Win Butler, que conhecido pela sua arrogância, demonstrou-se sempre grato e emocionado todo o concerto.

Começaram com “Everything Now”, logo a transformar o recinto numa gigante pista de dança. O espaço não era muito propício ao movimento, mas a vontade era tanta, que toda a gente conseguiu dançar sem causar stresses maiores. Ora, se o seu novo álbum – que tem o mesmo nome – não se encontra a ser muito bem aceite pelos fãs e pela crítica – nós por cá, continuamos a adorá-lo -, ao vivo, percebemos que a história é outra. As músicas ganham uma dimensão e um corpo diferente, em muito auxiliadas pela conceção visual que é gerada. E a primeira música, que se traduz para “tudo agora”, fazia transparecer o que Butler e companhia tinham planeado para nós. Seguiram-se logo “Power Out”, “Rebellion (Lies)” e “No Cars Go”, hinos do seu percurso musical. Cantava-se e pulava-se em delírio, e nós fazíamos parte da festa. Por esta altura, que era o início, nunca mais conseguiríamos voltar à nossa posição de imparcialidade. A certa altura um dos elementos da banda, agarrado por um outro, fica suspenso no palco de pernas para o ar a tocar bombo, a marcar o ritmo da marcha, e cá em baixo, o público continuava a delirar, a seguir os seus capitães musicais.

Mas é em “Ready to Start” que atingem o seu expoente, e se todas as músicas eram acompanhadas pelo nosso canto, foi no single maior de The Suburbs que atingimos a plena comunhão com os Arcade Fire e percebemos que tudo aquilo era para nós. Ora se tudo nos era dedicado, duas músicas tiveram direito a dedicatória especial: “Intervention” foi para Donald Trump, e “The Suburbs” para Aretha Franklin (que fora várias vezes homenageada ao longo do festival por outras bandas). Despediram-se dela, afirmando que agora o mundo ficara mais sombrio. Assim como Coura ficou após a magia de “Wake Up” entoada em uníssimo por toda a gente. Chegou a hora da despedida, e nem acreditamos como o tempo passou. Ainda voltam para um reprise da música com que abriram um concerto, e para re-conduzirem os coros de “Wake Up”, mas a entoar “Walk on the Wild Side” de Lou Reed abandonam o palco, deixando-nos a digerir um dos melhores concertos que vimos na vida. Um dos melhores concertos da história de Paredes de Coura.

Acaba assim mais uma edição, e depois de mais algumas aventuras noturnas que duraram até de manhã, lá fomos dormir o último sono em Coura. Os sonhos, esses fizeram-se lá durante quatro dias, e já os contámos para a peregrinação que todos faremos novamente para o ano. Até já, Paredes de Coura.

Arcade Fire e after-hours
por
em Reportagens
fotografia Hugo Adelino

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