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Weyes Blood – CCVF, Guimarães [3Dez2016] Texto + Fotos

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Uma noite em dois Luares

 

Era uma noite chuvosa e, apesar de àquela hora a precipitação ter dado tréguas, o céu continuava escuro, sem luz, sem estrelas e nem a Lua adornava o Céu. No Centro Cultural Vila Flor, pelas vinte e duas horas, um segundo anoitecer preparava-se para acontecer.

Guimarães recebeu, com casa cheia, no passado dia 3 de dezembro Weyes Blood, projeto de Natalie Mering (ex-Jackie-O Motherfucker) onde esta revisita o passado cultural folk e psicadélico da história musical norte-americana. Fazia-se acompanhar de banda e com ela trazia não só um novo álbum para apresentar, assim como todo o peso, cansaço, e excitação que uma tour acarreta. A cidade que viu nascer Portugal (como a própria referiu) foi o palco escolhido para receber o fecho da mesma.

Comecemos pela sala, aspeto que, apesar de não ser negativo, foi o único que colocou um travão na ascensão deste concerto nos nossos corações. Num concerto que se desejava íntimo e aconchegante, a disposição espacial superior da plateia sob o palco provocou um certo ambiente de intimidação e altivez entre nós, espectadores, e os músicos. Natalie brincou com a situação lá para o meio do concerto, afirmando que era estranho estar em palco com a sua banda num ambiente de diversão, enquanto estávamos sentados a observar. Mas nessa altura já todos estávamos rendidos a ela, e a querer invadir o palco só para a abraçar.

Faziam-se ouvir os avisos iniciais relativos a dispositivos com sinal sonoro, quando Mering e a sua banda subiram ao palco, não esperando o término dos mesmos, e provocando uma calorosa ovação. Vestindo a noite – de fato preto, com brilhantes pelos ombros e um broche de Lua na lapela -, o ar sério e reto que aparenta, perde logo a relevância quando repararmos no despretensiosismo com que enverga as suas sapatilhas fluorescentes. Inicia o concerto com “Diary”, do mais recente trabalho, e para quem não a conhecia a surpresa foi ainda maior do que para quem conhece as suas capacidades: de um corpo juvenil sai uma das vozes mais maduras e aconchegantes da nossa geração. A artista foi alternando entre as cordas e as teclas, a pujança e colocação do seu cantar foram a constante que fizeram as delícias de todos os que assistiam. Estando a promover este trabalho, foi normal que o espetáculo passasse quase exclusivamente por Front Row to Earth e, para nós público nada mais esperaríamos ouvir. No entanto, ainda fomos presenteados com temas mais antigos da artista, como foi o caso de “Bad Magic” do seu álbum de 2014 The Innocents. Mas foram as músicas do novo álbum que fizeram magia acontecer dentro das nossas almas: “Seven Words” provocou um arrepio generalizado no Centro Cultural Vila Flor, resultando em aplausos entusiasmados por parte da plateia; e quando se começaram a escutar os primeiros acordes de “Do You Need My Love” o contentamento do público transformou-se em movimentos de dança sentados ao som de todo o potencial musical e vocal que Mering tem para oferecer. Foi a ovação da noite, sendo esta mais que merecida.

Weyes Blood é uma velha alma presa dentro da personificação terrestre da fofura espontânea, mas em vez de a domar, complementam-se uma à outra. E se na voz reside o mais palpável dessa outra era, nas histórias, dissabores do amor, podemos encontrar a menina irreverente das sapatilhas excêntricas. Foi esta combinação de personas que nos conquistou, o profissionalismo e talento de uma artista, mas a pouca relevância que a própria lhe dá. Este foi o seu trigésimo terceiro concerto, idade com a qual Jesus faleceu. Número significativo sem dúvida diria, ou talvez não. Mering afirmaria os dois, e ambos na sua pessoa fizeram sentido.

Entre tanto encanto, o encore fez-se justificar. Nele revisita-se o passado a título pessoal e numa homenagem cover aos Soft Machine com “A Certain Kind”, mas para nós ainda não era suficiente, e então espreitando entre as cortinas a Lua e as estrelas voltam a aparecer perguntando se queríamos mais uma. A resposta era óbvia, e para término de um maravilhoso concerto ficou “In the Beginning” de Cardamon Times, deixando o desejo de um regresso, desta vez numa sala onde quase sintamos poder toca-la, da mesma forma que naquela noite de segundo luar, as suas canções nos tocaram.

 

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Por João Rocha / 7 Dezembro, 2016

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