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Xiu Xiu - gnration, Braga [8Fev2017] Texto + Fotos

18 de Fevereiro, 2017 ReportagensSara Dias

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You don’t hesitate to kill people but you’re afraid of flowers?

Aquando da confirmação das duas datas de Xiu Xiu em Portugal, em Braga e na capital, a internet quase entrou em delírio. Xiu Xiu é uma banda que se tem assumido, desde o início da década passada, como um dos mais imponentes projetos da cena experimental norte-americana: a cada álbum uma redescoberta com epicentro no seu maestro Jamie Stewart, único membro contínuo (ao qual mais tarde, em meados de 2009, se veio juntar Angela Seo). A última passagem dos Xiu Xiu em Portugal deu-se em 2004, nessa altura com três dos álbuns mais relevantes do conjunto na bagagem, A Promise, Knife Play e Fabulous Muscles. 13 anos de espera acarretam sempre grandes expectativas, que não foram correspondidas a priori, já que seria preferível uma abordagem mais focada no material lançado pela banda durante a década em que estiveram ausentes dos palcos portugueses. No entanto, o título já indicava que assim não seria, uma vez que os Xiu Xiu aterraram em Portugal, a 8 de fevereiro, para “musicar” Under the Blossoming Cherry Trees, do realizador japonês Shinoda Masahiro. Apesar de brevemente descrito como “filme-concerto”, a verdade é que não se sabia ao certo se a projeção do filme seria integral, e o título Xiu Xiu plays Under the Blossoming Cherry Trees, criou alguma expectativa de que os americanos seriam parte central desta noite: porém, ficaram-se timidamente na parte lateral do palco, numa materialização quase perfeita daquilo que se suspeitava.

Apesar do frio que se fazia sentir, a sala começou a encher lentamente até ficar praticamente esgotada. Com toda a gente sentada nos seus lugares, e com um público que respeitou na generalidade todas as cortesias que deixam toda a gente aproveitar o espetáculo num silêncio que raras vezes se aplica, uma parte do público começou a sofrer de um desconfortável problema logístico. Estando sentados ao nível do palco, e com pessoas sentadas à frente sem qualquer tipo de desnivelamento, as legendas tornaram-se impossíveis de ler em certos pontos da sala. Outro problema logístico, ainda que menor, foi a falta de legendas em português de Portugal. Apesar de ser um problema menor, uma vez que as legendas eram completamente percetíveis em português do Brasil, e correndo o risco de ser politicamente incorreta, a verdade é que estamos em Portugal e não no Brasil - o que levanta uma problemática maior, que ultrapassa em grande medida este “filme-concerto”, no sentido da falta de investimento e desenvolvimento da indústria portuguesa no desenvolvimento de tradução e legendagem para português de Portugal.

Under the Blossoming Cherry Trees é uma obra-prima de sensualidade e violência que nos transporta até umas montanhas remotas que nunca conseguimos situar. Definições espácio-temporais são complemente secundárias: no seio dessas montanhas habita um samurai que sequestra uma mulher, uma mulher demasiado bela para matar, e decide torná-la uma das suas esposas. Este é o mote inicial para uma sucessão de eventos cada vez mais distorcidos e surrealistas: entre assassínio, sangue, manipulação e obsessão, vamo-nos sentindo cada vez mais claustrofóbicos, cada vez mais agoniados. E essa agonia e claustrofobia foram vultuosamente amplificados pela “turbamulta” de equipamento que Stewart e Seo trouxeram consigo – acima de tudo de percussão. Contudo, a performance de Xiu Xiu ficou, na primeira parte, aquém: acima de tudo, pela insensibilidade à necessidade de silêncios que se traduziu em momentos forçados, como se o duo americano tivesse que “musicar” ao segundo todos os acontecimentos mesmo que esses mesmos momentos valessem mais pelo silêncio ou pela relevância da fala (ou dos risos contorcidos/distorcidos) das personagens.

Se abstinência do silêncio soou demasiado forçado a princípio, em tantas outras partes a percussão de Seo e a manipulação de Stewart trouxeram uma intensificação abismal – tão abismal que sem esta banda sonora de Xiu Xiu, o filme não passa com a mesma veemência a violência, abrasividade e fetichismo do próprio. No entanto, o ponto alto e incontornável da noite foi o fim apoteótico onde mergulhámos num mundo de inquietude, mortificação e constrição. Quando finalmente encontramos alguma anuência pacífica entre o samurai e o seu objeto de desejo predileto, o destino faz com que este decida desafiar a sua própria superstição de passar por baixo das cerejeiras quando elas estão a florescer (atitude provocada pelo desafio da mulher: “You don’t hesitate to kill people but you’re afraid of flowers?”). Com mestria, percussão esquizofrénica de Seo e uma jarda de noise da parafernália de Stewart, os Xiu Xiu tornaram o final do filme um momento de sinestesia apoteótica.

 

por
em Reportagens
fotografia Bruno Pereira

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