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ZigurFest 2018 [29Ago-1Set] Texto + Fotos

07 de Setembro, 2018 ReportagensJorge Alves

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Zigurfest

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Para quem nunca o visitou, o ZigurFest é meramente um festival dedicado à música nacional emergente, não muito diferente de outros espalhados pelo país; no entanto, é estando lá que nos apercebemos do seu encanto, da magia que o separa dos restantes eventos. Mais do que uma simples plataforma de descoberta artística – o que por si já justificaria a ida – o Zigur possibilita, e encoraja, uma profunda imersão na cidade que o acolhe, fazendo de Lamego uma peça essencial deste maravilhoso puzzle.

Se, por um lado, assistir a concertos destas bandas é algo que pode ser feito frequentemente ao longo do ano, raras são as oportunidades de as vermos em locais tão únicos e carismáticos, locais que rejeitam o conceito tradicional de sala e instalam um ambiente muito próprio e sempre intimista. Assim foi, por exemplo, no Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos, onde a colaboração entre Ulnar (Rui P. Andrade e Victor Bruno Pereira) e Sal Grosso originou uma sessão intensa e poderosa de noise/ambient simultaneamente contemplativa e infernal (no bom sentido, claro), caracterizada por densas camadas de ruído que tanto puniam os ouvidos como purificavam a alma, transportando-nos para um universo onde o experimentalismo sonoro se revelou catártico. Uma excelente maneira de iniciar esta maratona de concertos, talvez de forma atípica, já que normalmente os festivais optam por algo mais sereno ou dançável para o arranque oficial, mas igualmente eficaz e, acima de tudo, diferente.

Na verdade, o dia de quarta-feira foi claramente marcado por sonoridades e propostas ousadas, apresentando projetos alimentados por um forte desejo de reinvenção artística e livre exploração de ideias. Que o diga Dullmea, alter-ego de Sofia Faria Fernandes, que trocou a sua formação clássica como violinista para se dedicar à construção de uma identidade musical estranha mas inegavelmente fascinante, guiada por loops de voz espontaneamente criados e constantemente alterados, que tanto soavam etéreos como arrepiantes e que nos remetiam para o álbum Medúlla da conceituada artista islandesa Björk. Durante o tempo de atuação, que decorreu no lindíssimo espaço que é a Sala Grão Vasco do Museu de Lamego, Dullmea encantou quem conseguiu encontrar beleza nas suas desafiantes explorações sonoras e despoletou a sensação de estranheza e desconforto nos restantes. Indiferença é que não se verificou, e isso só faz dela uma das mais interessantes e promissoras artistas do atual panorama nacional. Antes, no Largo da Cisterna, os Zarabatana apresentaram o seu free jazz de toques tribais que se revelou caótico mas, ainda assim, metódico e constantemente entusiasmante.

Outro dos locais emblemáticos da cidade que serviu igualmente de palco para o festival foi o Castelo. Vimos, nesse encantador espaço, concertos como o de Mazarin, verdadeira revelação do Zigur que, no final desta solarenga tarde de quinta-feira, deliciou os presentes com um jazz de influências hip-hop que evocou o legado de nomes como BADBADNOTGOOD ou até Yussef Kamaal. Nesse mesmo dia, na Capela de Nossa Senhora da Esperança, Mathilda, o nome que Mafalda Costa arranjou para se expressar musicalmente, aqueceu os corações de quem teve o prazer de experienciar esta doce e meiga prestação. Acompanhada, como de costume, do parceiro inseparável que é Gobi Bear, espalhou amor e ternura do primeiro ao último minuto, provando que a idade (tem somente 18 anos) é um fator irrelevante tendo em conta a considerável maturidade artística que já exibe. Depois do que nesta noite observamos, vai ser gratificante continuar a testemunhar a evolução de Mathilda.

Outra das grandes surpresas deste segundo dia foi a atuação dos Sereias, autores de uma sonoridade tão bizarra quanto endiabrada (chamam-lhe “jazz-punk pós- aquático”) e que mostraram estar cada vez mais coesos e poderosos, sobretudo em relação a outras prestações que vimos deles numa fase mais inicial. Experimentalismo desenfreado e um espetáculo altamente performativo (com direito a um dançarino e tudo), foi esta a receita deste estranho mas cativante concerto.

ZigurFest 2018 - Parte 1 (29/30Ago)

Sexta e sábado foram dias recheados de boa música e, muito possivelmente, os mais fortes do cartaz. Foi nesse período que assistimos, por exemplo, a um fantástico concerto de Vaiapraia e   as Rainhas do Baile, projeto onde o pop psicadélico se associa à garra do punk e abraça temáticas queer. Existe aqui um sentimento de urgência, tanto sonora como emocional, como se tudo tivesse de ser dito naquela hora e naquele preciso momento. No entanto, há igualmente espaço para a diversão (desde que não inclua mosh, como clarificou o líder Rodrigo Vaiapraia quando observou as primeiras tentativas por parte do público), e nesse sentido, a reação da audiência foi verdadeiramente explosiva, com grande parte dos presentes a saltar e a dançar ao som destas irresistíveis malhas, saboreadas com prazer nesta quente noite de Verão.

Também na sexta-feira, e nesse mesmo sítio (Palco Olaria), Ângela Polícia, alter-ego do bracarense Fernando Fernandes, assinou um dos mais memoráveis concertos de todo o festival. Partilhando o palco com uma DJ/flautista e uma trompetista, proporcionou uma sessão de hip-hop no meio da rua, numa espécie de regresso às festas de bairro dos primórdios do estilo. Contudo, o mais curioso é observar que, no universo aqui criado, o hip-hop forma somente a base de uma rica e aventureira fórmula sonora onde elementos de dub, grime, future garage ou mesmo punk também se fazem ouvir, emergindo para intensificar estas corrosivas composições. Ao ver atentamente uma performance tão suada e enérgica, torna-se impossível não sentir que estamos perante uma das maiores pérolas da cena alternativa portuguesa. Para quando a presença de Ângela nos festivais portugueses de maior dimensão?

Novamente no campo do hip-hop, destaque para Allen Halloween. Se, por um lado, não há cabeças de cartaz no Zigur, a verdade é que o referido rapper foi dos nomes que mais pessoas atraiu ao festival, e com razão. Apresentando músicas apelativas e uma espantosa qualidade lírica, o músico protagonizou uma atuação curta mas soberba, que deixou bem claro que estamos perante um dos artistas nacionais mais confiantes e experientes da atualidade dentro do género. “Bandido Velho” ou “Drunfos” foram alguns dos temas que, na noite de sábado, ecoaram pelo deslumbrante recinto da Alameda.

Logo a seguir, nesse mesmo espaço, chegou um furacão chamado Scúru Fitchádu. Os melómanos mais atentos já há muito que tomaram contacto com o projeto liderado por Marcus Veiga (Sette Sujidade é o seu nome artístico), mas aqui reside a grandeza do Zigur: apesar de o termos visto noutras ocasiões, registou-se neste festival um dos mais épicos concertos de Scúru ao qual já tivemos o prazer de assistir. Habitualmente festivo, esteve aqui ainda mais dinâmico, como se contagiado pelo espírito do evento e da cidade. Eram quase três da manhã quando subiu ao palco, mas a pujança do seu punk/noise recheado de funaná fez desaparecer qualquer cansaço que pudéssemos ter acumulado. No fim, sabíamos que tínhamos presenciado um dos melhores concertos, arriscamos dizer, da história do Zigur, tanto a nível de entrega como a nível musical. Simplesmente fenomenal.

Pelo meio, muito mais aconteceu: as Savage Ohms, banda inteiramente feminina, surpreendeu com uma sonoridade onde o drone de cariz psicadélico convive com um krautock certeiro e hipnótico, bem ao estilo dos míticos Neu!, ao passo que os Paisiel, união do saxofonista Julius Gabriel (também responsável pelos efeitos sonoros) e do baterista/percussionista João Pais Filipe, ofereceram uma deliciosa dose do seu jazz de tons tribais, onde a destreza rítmica e as explorações de um saxofone louco e selvagem conduziram a uma viagem musical deliciosamente cósmica.

No Teatro Ribeiro Conceição, destacamos a prestação do beatmaker gaiense David Bruno, aqui com a preciosa ajuda de Marco Duarte na guitarra, que se dedica a homenagear - com muito humor à mistura – o que de Portugal tem de foleiro ou caricato (incluindo, entre muitas outras coisas, as travessas de alumínio de onde se come ao balcão de um snack-bar). Porquê? Porque isso tem também beleza. Ou piada. Mas é giro, seja como for. Um espectáculo divertido e cativante, que foi seguido pelo rock tão pesado quanto experimental dos NU, onde vozes que recordam a teatralidade dos Mão Morta se fazem acompanhar de um instrumental que tanto traz à memoria os Slint como a intensidade emocional dos Swans. Uma banda a ter em conta, assim com o os Bardino que, no último dia, mostraram a força do seu jazz de fusão apresentado sob estruturas prog.

Todavia, houve mais, muito mais, porque no Zigur a animação parece não ter fim. O problema é mesmo sermos eventualmente confrontados com a realidade de que o festival não dura para sempre, e termos de dizer adeus a Lamego, às amáveis pessoas da terra e a toda esta magnífica experiência. O lado positivo? Para o ano tudo volta, e nós também. Enquanto houver Zigur, seremos felizes.

ZigurFest 2018 - Parte 2 (31Ago)
por
em Reportagens
fotografia Bruno Mesquita

ZigurFest 2018 [29Ago-1Set] Texto + Fotos
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