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Máquina del Amor – Máquina del Amor

Máquina del Amor

Máquina del Amor | 2015

PONTUAÇÃO:

7.4

 

 

Poderiam-se chamar Love Machine ou Máquina Do Amor que o nome aqui não interessa para nada. A Máquina Del Amor chega-nos de Braga e consigo traz elementos dos peixe:avião e dos Smix Smox Smux. Vêm providos de um pós-rock com laivos psicadélico-industriais e sacodem o género para lá do marasmo em que se encontrava.

Dentro de um pós-rock (aka crescendocore), em que todas as bandas trazem consigo as influências típicas do início da 3ª fase, Mogwai ou Explosions In The Sky servem como exemplo, os/ou a Máquina Del Amor vai muito para além do previamente estabelecido. Desloca-se a outros planetas para beber da sua fonte, semear e colher um fruto não regado pela mesma água nem semeado nos mesmos campos e tampouco colhido da mesma forma.

O nome e a capa pouco dizem sobre o seu conteúdo: uma rapariga loira de camisa, com riscas verticais azuis, um tamanho acima do apropriado, de meias de vidro, em cima de uma máquina de lavar cor-de-rosa, está mais próximo de um anúncio da Persil do que de um disco de música. No entanto, é aqui que entra a mística da coisa: dá-se descontextualização da capa para só quem ouvir o CD poder tirar as suas conclusões e é então que somos surpreendidos. É impossível avaliar este trabalho individualmente porque, parece-me, não ter sido feito de forma convencional. Todo o disco soa a improviso gravado em take direto e, posteriormente, editado, de modo a conseguir-se retirar músicas individuais dali, nomeadamente “Bounce Embora” que é a que soa mais desfasada perante os restantes temas. Basicamente, em Máquina del Amor, encontram-se três movimentos (sim, que isto já é quase música erudita): o “9 De Maio”/”Bonitinha Mais Mocada”, quiçá a data do improviso, o “Bounce Embora”, e o “Pãããããããããã”/“Má Onda” (que os apresentou ao mundo), tudo muito bem unido, criando a sensação de que estamos a ouvir uma só peça e não um conjunto de várias.

O disco começa de mansinho, anunciando a viagem que por aí viria. É aquando da ausência dos “gritos” repetitivos, e gradualmente mais ruidosos que iniciam a primeira parte de “9 de Maio”, que percebemos que a viagem já se havia iniciado e, sensivelmente, aos 3 minutos da “Parte II” temos a primeira atribulação: uma overdose de fuzz invade os nossos horizontes auditivos, guiando-nos desenfreadamente pela imensidão do espaço, terminando, repentinamente, numa repetição dissonante. Chocámos contra um asteróide.

Renascemos em “Bonitinha Mais Mocada”, onde compreendemos o porquê do nome escolhido. Esta é, claramente, a música, ou o trecho, mais psicadélico de todo o disco muito por culpa dos sintetizadores utilizados. O zen mantém-se em “Bounce Embora”, o momento xamânico do disco: é fechar os olhos e seguir caminho, seja ele qual for.
Entramos no último movimento da peça meio anestesiados com tudo o que se passou até agora. “Pãããããããããã” abre a porta para que o single se revele: pós-rock ambiental, groovy e de fácil audição. Esta é, de facto, a faixa (isolada) mais orelhuda do registo, no entanto, se nos ficássemos apenas por aqui, não saberíamos como acaba a história e perderíamos o mais importante. Utilizando o Star Wars a título de exemplo, já que estamos numa de espaço e encontrámos o R2D2 aos 2:09 de “Bounce Embora, Parte II”, seria como apenas ver o primeiro episódio da trilogia, perdendo o segundo episódio que, na nossa opinião, é ainda melhor e mais revelador que o primeiro. Por outras palavras, “Má Onda, Parte II” é o “Empire Strikes Back” da Máquina Del Amor.

Se os 6 minutos de “Má Onda, Parte I” são belos e etéreos, os 7:30 minutos (de “Má Onda, Parte II”) são furiosos e potentes, a acabarem como tudo começou: calminho, acompanhado por uma bass line groovy, em crescendo até ao quarto minuto onde se dá primeiro uma erupção de fuzz e distorção na guitarra, e, mais tarde, uma explosão rítmica na bateria, libertando-se dos compassos quase-industriais e encarando o “crash” e os pratos de choque como seus melhores amigos. O clímax chegara e quando tudo se acalmasse surgiria algo novo. Depois da tempestade vem a bonança, dizem. Somos invadidos por uma calma aparente.
A Máquina foi revelada e o amor propagado. Mas não nos parece que a viagem tenha ficado por aqui.

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Por Diogo Alexandre / 14 Dezembro, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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