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Abbath – Abbath

Abbath

Abbath | 2016

PONTUAÇÃO:

7.7

 

 

 

Ainda me lembro, como se tivesse sido ontem, da primeira vez que me deparei com uma banda nunca antes vista para mim. Três tipos completamente fardados de espigões metálicos e muito cabedal, designados por um logótipo colossal em font medieval: IMMORTAL. Aos 15 anos qualquer um fica intrigado com a mais pequena das banalidades no rock e na altura, estando apenas familiarizado com as máscaras dos Slipknot e com a pintura dos Behemoth, parti do principio que estes tipos não seriam pioneiros do estilo, mas havia algo neles que me arrepiou até à mais profunda aresta do meu coração, algo que me causou medo e insegurança como se fosse algo que não devia tocar, muito menos ouvir. Já a viver uma adolescência em que o luxo da acessibilidade excessiva na música era (e ainda é) uma realidade, fácilmente procurei aquilo que precisava e ouvi a primeira música que me apareceu à frente: “One by One”, um dos mais acessiveis registos na discografia da banda, bem como o mais famoso. Digo-vos que até então nunca antes tinha ouvido algo tão discordante como aquela malha. Uma distorção inigualável cujo decrépito som me envolveu a mente numa porrada psicológica completamente enroscada no paredão metálico das guitarras. Com o tempo fui conhecendo-os melhor, como se fossem aqueles primos afastados do alentejo que de vez em quando até dizem algo acertado. Quanto mais ouvia, mais procurava e mais conhecia, até que me acostumei ao caos e ao peso e me impregnaram as entranhas, como se fossem um grupo de música leviana, de tal modo que ainda hoje é dificil passar uma semana sem ouvir malhas do Pure Holocaust ou do All Shall Fall. Este último, confesso-vos, foi o que me fez apaixonar pela visão da banda. Uma escrita épica de batalhas sangrentas, escudos e espadas, pele entrelaçada em aço e osso, tão bem envolvida no som mais subversivo e galopante imaginável. Evito descrever grandes panoramas e convido-vos a ouvirem a “The Rise of Darkness” e a “Arctic Swarm”, faixas que me forçaram a mergulhar nos fjords nórdicos e testemunhar o sangue derramado na neve derretida pelo calor humano em batalha.

Aproveito para sublinhar que há batalhas mais fáceis de imaginar do que outras, e dou o exemplo de uma law-suit em tribunal entre estes 3 sócios pintados de preto e branco com muito cabedal e aço, por razões atrozes que nunca (mas nunca) devemos esperar duma banda com a relevância “histórica” no Metal como Immortal. Welcome to the real world!, não é a primeira nem há de ser a ultima vez que o ego de um frontman incha muito além da dimensão da própria banda. Faço questão de revisitar o caso de Tom G. Warrior, que após o retorno triunfante de Celtic Frost com o Monotheist, percorreu uma série de problemas pessoais com a banda e com as ambições desta. Conseguiu, no entanto, agarrar no som integrado em Monotheist para manusear o produto de Triptykon.

Abbath fez o mesmo com o All Shall Fall em transição para este novo projeto. De salientar que apesar do projeto ter o nome de Abbath, este não é, de forma alguma, um trabalho a solo. Portanto, coloquemos as nossas opiniões morais e judiciais e demos atenção ao que realmente importa: B-A-R-U-L-H-O.

É importante mencionar que production-value no Black Metal pode tanto ser um fardo como uma vatagem. Vai semrpe depender do conteúdo e da forma como a banda lida com os recursos a ela adjacentes. Já vimos casos em que a produção é elevada de tal ordem que a identidade da banda é perdida, tornando-se impossível levar o produto a sério. Podemos contar com os seguintes casos (somente como exemplo) onde a production-value foi, sem dúvida, uma mais valia para o produto final : Paracletus de Deathspell Omega, Sunbather de Deafheaven, Quantos Possunt… de Gorgoroth,Noregs Vaapen de Taake, Monotheist de Celtic Frost, Axioma Ethica Odini de Enslaved e Angelus Exuro de Dark Funeral.

O que não falta são exemplos de bom uso de alta-produção para elevar a música extrema, e seja por bem ou por mal, Abbath recai um pouco no 70/20 desta situação. Há faixas com um tecido cuidadosamente enlaçado, uma arquitetura demasiado precisa, pedra por pedra, cada camada tão desmedidamente calculada que até perde a graça. Mas faixas com potencial de serem malhas como a “To War” e a “Ocean of Wounds”, cuja personalidade está focada na energia e intensidade da música se sobrepõe ao perfecionismo milimétrico de estúdio, estas são as faixas que me conseguiram elevar à atmosfera do passado de qualidade dos Immortal. A atmosfera tão reconhecivelmente lacinante, latejada por batidas ritualísticas em rompante velocidade, impiedosas e impetuosas.  Apesar de alguns resultados mal conseguidos, conseguimos ver uma personificação de Abbath à visão de Quorthon em Hammerheart e Blood Fire Death, guitarradas brutais de cavalgada que pintam as invasões dos pagãos em torno da Europa.

Não vai entrar no top 10, mas sem dúvida que o projeto tem potencial para aprofundar as trincheiras e ampliar o arsenal de armamento.

 

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Por João "Mislow" Almeida / 31 Maio, 2016
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