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Anna Von Hausswolff - Dead Magic

Review
Anna von Hausswolff Dead Magic | 2018
João "Mislow" Almeida 06 de Março, 2018
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Por fim se suspira, Anna! Contam-se quase dois anos desde a sua derradeira e inteirissima presença na última edição do Amplifest, onde partilhou a luz do holofote com Neurosis, Oathbreaker, Downfall of Gaia e companhia. A qualidade desse fim-de-semana foi inesquecível, mas de todos os artistas que se testemunharam, continuamos a recordar com acrescida paixão a poderosíssima moldura de Anna nessa mesma noite. O que foi ao certo que nos fez apaixonar pela música da cantora? A textura? O contacto íntimo, emocional e quase metafísico entre os decibéis e os nossos corpos? A elegância da composição que palpita como carvalho húmido ou a voz tão etérea e sedosa que nos expõe com firme crueza ao seu tão adorado timbre? A sueca tem feito música desde 2008 mas as suas peças têm vindo a tornar-se cada vez mais complexas e enérgicas de registo para registo.

As teclas acompanham-na desde os seus primeiros lançamentos, mas é só em “Ceremony” e “The Miraculous” que vemos o culminar de um génio na composição com o órgão. Tanto num como noutro, obtemos em evidência uma voz que sobrevoa os sentidos como lâminas de cautela. Faixas como a ”Deathbed”, “Liturgy Of Light”, “Ocean”, “Funeral For My Children”, “Discovery”, “Come Wander With Me/Deliverance” e “Evocation” destacam a plenitude de Anna em conforto com elementos estrangeiros ao epicentro da sua força musical. Até aqui, acreditamos que todo o volume da sua composição alcançou um aprimorado máximo, no entanto, mesmo com um alinhamento de faixas mais curto, a falta de foco parece não ter partido na química de grupo. Isto é algo que a banda e a própria cantora têm de tentar definir para que alcancem um resultado final perfeito, e para isso solicita-se clareza, calibragem e decisões com timing. Resumidamente, tentar dizer somente o essencial e legitimá-lo. Será que é isso que obtemos no Dead Magic? Veremos!

Segundo os apontamentos, o órgão utilizado para a gravação do álbum, é um instrumento que pertence à história do início do século XX, localizado na famosa Marmokirken (Igreja de Mármore) em Copenhaga. É em alçada com o som deste órgão que o álbum se introduz. “The Truth, The Glow, The Fall” é a primeira faixa, e esta comunica ao ouvinte como um despertar de sono lento e divagante, mas assertivo. As notas surgem aos poucos mas não faz tempo para que a voz de Anna nos volte a massagear a alma, após anos sem material novo. A voz de Anna vai criando camadas de tecido com cada fôlego de despertar. Os violinos envolvem-se como pinceladas numa tela despida, até que uma pausa e mudança de tempo encaminham a transição de uma faceta da música para outra. Bem feita, medida e calculada, tão inesperada sem parecer nada forçado. A entrada da batida descreve um momento altivo de grande foco e envolvimento entre os elementos, é aqui que denotamos a banda a desenvolver-se como engrenagens bem oleadas em constante rotação e a criar uma pletora de sensações. O ritmo é constante e confiante, a empurrar a direção da música em função da maré onde a voz, pulsação, órgão, tudo mastiga o andamento num só sentido. Sem fricção nem atrito, eventualmente dando azo a um dos momentos mais memoráveis do álbum, com Anna a libertar as palavras com tremendo alento:


Will we fall, will we fall where we fall/ Will we fall, will we fall where we fall
Down in the river, down to the bodies below/ Down in the chaos, driven by black magic glow


Em libertação total, onde tanto a pronúncia das palavras em si como a própria voz de Anna é capaz de deixar qualquer ouvinte nos seus joelhos e numa poça de lágrimas emotivas. O “solo” do órgão e a aparição no fundo pintam as arcadas deste início com graciosidade e imensidão. O poder de Hausswolff em criar sensações de magnanimidade, mais densas do que nunca, aperfeiçoa com cada viragem na faixa. Melhor ínicio, é impossível.

A próxima que se segue é candidata a ser faixa do ano. Para além de ser a composição mais rítmica que Anna já fez até hoje, o que demonstra ambição, é também uma das mais catchy sem perder versatilidade. “The Mysterious Vanishing Of Electra” foi o primeiro single do álbum, e arranca quase imediatamente com uma batida embriagada que se vai enrolando numa contagiosidade corporal. Esta simula uma valsa sanguinária ou uma viagem de coche até aos confins dos cárpatos. O ritmo é assertivo, bem acentuado e definido, mas o ambiente gélido encontra-se na repetida chacinada de cordas em transe cadenciado. A flexibilidade no timbre de Anna manifesta-se como um estilo único, mais aqui do que noutro qualquer momento. As camadas ainda se vão opondo aos ritmos volumosos das guitarras em glitch, com o loop a lembrar as mais recentes encarnações de Swans. Os uivos em chamamento, pronunciam-se agrestes como noites gélidas e copas de árvores em queda livre.

Lembra muitas vezes a ostentação de vibração e frequência de Lisa Gerrard (Dead Can Dance) e o chuviscar de palavras em desespero como a Grace Slick (Jefferson Airplane). A combinação de ambas, alcança uma permanência que nos faz querer ficar nesta secção do álbum para sempre, mas deixando a experiência tão inesperadamente imprevisível como um plot twist fudido ou uma notícia ambiguamente assustadora. No final da faixa vemos a total libertação da voz de Anna que, como uma flor em plena primavera, floresce as suas pétalas como asas em arranha céus. Ampla e dominadora, que só uma acústica secular é capaz de fazer plena justiça às nossas mortais almas. Nenhuma merecedora de tamanha beleza universal inerente à moldura da sueca.

Com a passagem até ao encerramento do álbum, apercebe-se que Dead Magic funciona como alquimia nas fases da lua. Cada faixa reflete uma identidade concreta de som, muito em função à escala e exposição de iluminação que varia consoante a amplitude celestial. Nas primeiras faixas, que desenvolvemos, estas encadeiam como a luz do dia à saída da capela. Sempre favorecidas pelo andamento, ritmo e convergência em todos os epicentros. Em relação às restantes faixas, o corpo celeste vai-se distanciando e a barreira que foi progredindo com os elementos de som mais primais, foram culminando para encerrar qualquer fonte de luz como orientação. Seja pelos elementos mais sólidos da música como pela poesia nos momentos atmosféricos, sublinha-se com grande evidência a justiça que se faz ao elevar o cerne cinemático neste contexto.

É evidente que tanto a natureza como o cinema, são ambas grandes fontes de inspiração para a cantora, e sublinhando isso, consegue-se encontrar tamanha beleza e nudez em “Ugly and Vengeful” e “Kallans ateruppstandelse” onde cada uma, da sua própria e distinta forma, cria uma memória tão texturizada e reminiscente daquilo que Tarkovsky, Bergman ou até Angelopoulos nos habituaram nos seus filmes.

Seja a relembrar a incessante perseguição da Morte a um soldado que perdeu toda a sua fé após testemunhar as atrocidades da guerra, ou uma criança que percorre milhas de floresta enegrecida pela guerra, à procura de vingar a morte da sua família, ao lado de soldados partidários na frente. É nesta comparação, que elevamos a importância de ter visionários que conseguem criar uma ligação íntima entre o som e a imagem, manipulando somente um desses elementos. Dito isto, foi a primeira metade do álbum que nos conquistou, mas foi a segunda que nos pediu para repetir tudo de novo, como se de um filme tratasse. Mais uma vez e mais outra. Bem-vinda de volta.
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