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ANOHNI – Hopelessness

ANOHNI

Hopelessness | 2016

PONTUAÇÃO:

9.0

 

 

 

A canção de protesto reinventa-se no que pode muito bem ser o disco mais importante dos últimos anos.

As coisas mudaram desde 1995, em que Anohni era ainda Antony Hegarty e a internet uma merda.  Ninguém sonharia um 11 de Setembro ou o terrível reviver duma Guerra do Golfo, ou muito menos as consequências duma Síria em escombros ou duns atentados de Paris. Em 1995 Snowden via ainda o mundo pelos olhos duma criança de 12 anos e a espionagem parecia não mais que um fantasma distante dos tempos da Guerra Fria. Em 1995 nasciam também os Antony and the Johnsons, estávamos longe de verdades inconvenientes, da noção de um Bush filho da puta ou da dura realidade de uma Guantánamo. Se a metamorfose veio de dentro ou de fora parece interessar pouco ou nada, mas fechado o capítulo com os seus the Johnsons em meados de 2015 – ainda a tivemos por cá nesse ano e na altura do NOS Primavera Sound – os tempos agora são outros, são vorazes e implacáveis, e com eles mudou Anohni também. Passados seis anos desde Swanlight, e num registo bem distante do que se lhe era conhecido então, surge agora Hopelessness. Um disco para um mundo pós-moderno que é tanto um soco no estômago como uma carta aberta e ternurenta ao que é partilhar a humanidade num presente que se supera em brutalidade e antecipação de forma constante.

“Drone Bomb Me” – canção avançada no início do ano e que abre Hopelessness – enfia-nos na pele duma rapariga afegã de sete anos que viu um ataque de drone levar-lhe a família e que olha agora o céu implorando um mesmo destino. A forma como Anohni canta “Explode my crystal guts/Lay my purple on the grass” é vector de uma misericórdia romântica tal, pintando a inocência a melaço e a tons de quartzo violeta. A abstracção do valor da vida humana aos olhos dum veículo aéreo não pilotado é o pináculo da morte em directo, e a maneira como a temática se vai inserir no que é o contexto duma cantiga pop por excelência é o que a torna ainda mais arrepiante.

ANOHNI escreveu aquando do anúncio de Hopelessness que este era um disco de electrónica com dentes afiados, ao mesmo tempo que anunciava ainda que o co-produziu com Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Ross Bichard (Hudson Mohawke). A afirmação fica fácil de compreender ao escutar o resultado final, e fácil é também perceber o papel e a importância que os outros dois nomes supracitados aqui tiveram. Bichard tem vindo a acumular trabalhos como produtor para nomes como o de Kanye West, construindo de igual forma uma carreira notável para si próprio em álbuns como Butter e Lantern, ambos lançados pela Warp Records em 2009 e 2015, respectivamente. Daniel Lopatin não é menor ou menos prolífico, lançando de forma recorrente discos de inabalável qualidade sob a bandeira de OPN, Lopatin é há vários anos um dos artistas mais importantes da cena electrónica/experimental. Vital acima de tudo é a forma como as três peças se conjugam para formar o todo, e se Hopelessness é de forma inequívoca um disco pop, a abertura das suas estruturas surge equilibrada de forma sublime com momentos menos acessíveis e outros mais peculiares. Reforce-se este ponto as vezes que forem precisas; a produção em Hopelessness transborda o colossal, não só em densidade e complexidade como no cuidado com que preenche e complementa a voz de Anohni. Dos sintetizadores que escorrem por “Drone Bomb Me”, às trompas dum apocalipse ecológico que se abrem sobre “4 Degrees” e à sensualidade latente que se ouve na construção de “Crisis”, o calculismo perante o posicionamento de cada pormenor é absolutamente precioso.

“Obama” é uma despedida a tons de azul perante o fim de mandato do actual presidente norte-americano, em que ANOHNI surge a encarnar o fantasma de John Balance e a assombrar o que foi um senso universal de vitória perante a eleição de 2008; a ascensão duma face de esperança antedias melhores e que parte agora encoberta em desilusão e embarrada em impotência.

Tema recorrente em Hopelessness é também o da globalização da culpa, surgindo de forma sucessiva ao longo do álbum e nomeadamente em faixas como “Crisis” ou “Marrow”, em que as teias parecem estender-se a tudo e todos, e em que os papéis duma América do Norte imperialista se misturam com os de um Daesh num matrimónio de culpabilidade. “Watch Me” apresenta-nos entretanto com uma visão bizarra e lasciva do que é a permeabilidade das nossas vidas privadas aos olhos dum bem maior. “I know you love me/‘Cause you’re always watching me” resume num verso e de forma perfeita o que é o senso de protecção e de perversidade que se funde na cultura de pegada cibernética e videovigilância em que vivemos.

Para lá da importância e da pertinência do que aborda, Hopelessness nunca seria um disco memorável sem a aura, a beleza ou a energia visceral que canaliza. A produção carismática de Mohawke arrasta com ela um sentido percussivo capaz de abalar um arranha céus de cima a baixo, agigantando-nos e intitulando-nos, como se nos apontasse o direito e a permissão. Depois haverá sempre o senso colectivo que resplandece das dinâmicas e da fragilidade da voz de Anohni, um que nos diz que fazemos parte do que é estar vivo aqui e agora, e que não nos faz assim tanto olhar para fora, mas sim para dentro.

Hopelessness é na sua natureza um grito político e social, um que abraça toda uma ira que se lhe sente a borbulhar debaixo da pele, mas que é também e maiormente um apelo ao amor e ao humanismo. O que aqui é alcançado transcende a esperança e deixa-nos sem erguer uma única bandeira branca ao vento. Hopelessness reinventa a pop como interlocutora no mundo moderno e transforma-a acima de tudo numa revolução que merece ser celebrada.

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Por Rui P. Andrade / 11 Maio, 2016

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